Adília Lopes – A Propósito das Estrelas

Não sei se me interessei pelo rapaz por ele se interessar por estrelas se me interessei por estrelas por me interessar pelo rapaz hoje quando penso no rapaz penso em estrelas e quando penso em estrelas penso no rapaz como me parece que me vou ocupar com as estrelas até ao fim dos meus dias … Continue lendo Adília Lopes – A Propósito das Estrelas

Gary Snyder – Dezembro em Yase

Naquele Outubro em que escolheu ser livre na grama alta e seca junto ao pomar você disse “quem sabe um dia, talvez daqui a dez anos”. Terminada a universidade te vi só mais uma vez. Você estava estranha. E eu obcecado com um projeto. Agora se passaram os tais dez anos e até mais um … Continue lendo Gary Snyder – Dezembro em Yase

Yehuda Amichai – O Corpo é a Causa do Amor

Primeiro o corpo é a causa do amor depois a fortaleza que o protege por fim seu cárcere. E quando o corpo morre, o amor jorra caudalosamente como de um caça-níqueis clandestino quebrado jorram de súbito com estrondo todas as moedas de gerações e gerações entregues à própria sorte.

William Shakespeare – Romeu e Julieta (excerto)

"Esses prazeres violentos têm fins violentos e morrem em seu triunfo, como o fogo e a pólvora, que, ao se beijarem, se consomem. O mais doce mel repugna por sua própria doçura, e seu sabor confunde o paladar. Portanto, ama com moderação. O amor duradouro é moderado. Quem corre demais chega tão atrasado como aquele … Continue lendo William Shakespeare – Romeu e Julieta (excerto)

Nicanor Parra – O que ganha um velho ao fazer ginástica?

e o que ganha falando ao telefone? e o que ganha ficando famoso? e o que ganha um velho olhando-se no espelho? Nada afundar cada vez mais na lama Já são três ou quatro da madrugada - por que não trata de dormir? mas não – tome ginástica tome ligações de longa distância tome Bach … Continue lendo Nicanor Parra – O que ganha um velho ao fazer ginástica?

Wislawa Szymborska -Retornos

Voltou. Não disse nada. Mas estava claro que teve algum desgosto. Deitou-se vestido. Cobriu a cabeça com o cobertor. Encolheu as pernas. Tem uns quarenta anos, mas não agora. Existe – mas só como na barriga da mãe na escuridão protetora, debaixo de sete peles. Amanhã fará uma palestra sobre a homeostase na cosmonáutica metagaláctica. … Continue lendo Wislawa Szymborska -Retornos

Jorge Luis Borges – Os Justos

Um homem que cultiva seu jardim, como queria Voltaire. O que agradece que na terra exista música. O que descobre com prazer uma etimologia. Dois empregados que em um café do Sur jogam um silencioso xadrez. O ceramista que premedita uma cor e uma forma. O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não … Continue lendo Jorge Luis Borges – Os Justos

Antero de Quental – Nox

Noite, vão para ti meus pensamentos, Quando olho e vejo, à luz cruel do dia, Tanto estéril lutar, tanta agonia, E inúteis tantos ásperos tormentos... Tu, ao menos, abafas os lamentos, Que se exalam da trágica enxovia... O eterno Mal, que ruge e desvaria, Em ti descansa e esquece alguns momentos... Oh! Antes tu também … Continue lendo Antero de Quental – Nox

John Keats – Ode sobre a Indolência

I Numa certa manhã eu vi as três as figuras,    Curvadas, de perfil, mãos juntas, uma a uma, Seguindo atrás da outra, mudas e seguras,    Sandálias suaves, vestes alvas, pés de pluma; Como formas de mármore em alto-relevo   Sobre uma urna, foram-se, ao girar a face    Do vaso; mas voltando ao … Continue lendo John Keats – Ode sobre a Indolência

John Keats – Do Endymion

O que é belo há de ser eternamente Uma alegria, e há de seguir presente. Não morre; onde quer que a vida breve Nos leve, há de nos dar um sono leve, Cheio de sonhos e de calmo alento. Assim, cabe tecer cada momento Nessa grinalda que nos entretece À terra, apesar da pouca messe … Continue lendo John Keats – Do Endymion