Robert Morgan – Outono branco

Ela sempre gostou de ler, inclusive
na infância, durante a Guerra da Secessão,
e depois desenvolveu o hábito de ficar acordada
junto ao lampião perto da lareira depois que,
concluída a faxina, o marido e os filhos iam dormir.
Ela alimentou o vício nos anos duros
da Reconstrução e mesmo depois que
o seu marido morreu e ela foi forçada
a prover e a ser a única encarregada do lugar.
Enquanto seu filho único lutava na França,
foi esta segunda vida, diante da janela aberta
nos meses quentes, quando os pinheiros nas colinas
pareciam conversar com o córrego, e as esperanças
harmonizavam seus hinos nas árvores além do celeiro,
ou diante do familiar fogo no inverno,
que a susteve. Mais tarde, ela e as filhas
esqueceram a hora e o dia exato,
se é que houve um dia assim, em que ela tomou a decisão.
Mas depois que as crianças puderam cozinhar
e jardinar e ordenhar e levar um pouco
de limpeza pra os ricos de Flat Rock,
e o filho retornou do exterior
ferido, mas ainda capaz e se casou com uma viúva de guerra,
e quando ela encontrou a cadeira certa,
uma cadeira de balanço montada por um homem para além de Willow,
de nogueira polida, com assento e encosto de vime,
e braços largos o suficiente para apoiar sua eterna xícara
de café, ou um livro pesado,
ela soube que havia chegado em casa e que nela ficaria.
E a partir daquele dia, se foi um momento e não
um reconhecimento gradual, ela nunca mais cruzou uma soleira
ou se aventurou para além daquele lugar especial de retidão,
presença e prazer, exceto para ser levada para a cama
algumas horas antes do amanhecer para uma pequena soneca.
Aquela cadeira – todo natal alguém lhe dava uma almofada
brilhante para amaciar – era o lugar em que ela se banhava
em um aconchegante rio de livros e de café preto,
e variedades de doces e bolos guardados em um armário baixo
próximo. Os gatos passavam pelo seu colo e pernas
e pela travessa de reforço de sua cadeira. As toneladas
de lenhas chegaram geladas e se foram como luz, fumaça, cinzas.
Ela cavalgava aquele berço vertical para dormir
e por muitas longas visitas com camadas de família,
beijando os bebês como diferentes tipos de frutas.
Sempre escondendo o cachimbo de barro em seu armário
quando aparecia visita. Ela presidiu decisões
para manter a terra e recusou o próprio bem-estar.
Naquele trono rangente, ela governou um minúsculo reino
em meio à guerra e morte de parentes. Até a noite em que ela
parou de respirar, perto dos cem, ninguém soube
exatamente quando, mas encontraram a lâmpada ainda acesa,
o romance aberto para um novo capítulo,
e o sol apenas brilhando em seu cotovelo.

Trad.: Nelson Santander

White Autumn

She had always loved to read, even
in childhood during the Confederate War,
and built the habit later of staying up
by the oil lamp near the fireplace after
husband and children slept, the scrub-work done.
She fed the addiction in the hard years
of Reconstruction and even after
her husband died and she was forced
to provide and be sole foreman of the place.
While her only son fought in France
it was this second life, by the open window
in warm months when the pines on the hill
seemed to talk to the creek, or katydids
lined-out their hymns in the trees beyond the barn,
or by the familiar of fire in winter,
that sustained her. She and her daughters
later forgot the time, the exact date,
if there was such a day, when she made her decision.
But after the children could cook
and garden and milk and bring in a little
by housecleaning for the rich in Flat Rock,
and the son returned from overseas
wounded but still able and married a war widow,
and when she had found just the right chair,
a rocker joined by a man over on Willow
from rubbed hickory, with cane seat and back,
and arms wide enough to rest her everlasting cup
of coffee on, or a heavy book,
she knew she had come to her place and would stay.
And from that day, if it was one time and not
a gradual recognition, she never crossed a threshold
or ventured from that special seat of rightness,
of presence and pleasure, except to be helped to bed
in the hours before dawn for a little nap.
That chair-every Christmas someone gave her a bright
cushion to break in-was the site on which she bathed
in a warm river of books and black coffee,
varieties of candy and cakes kept in a low cupboard
at hand. The cats passed through her lap and legs
and through the rungs of her seat. The tons
of firewood came in cold and left as light, smoke, ash.
She rode that upright cradle to sleep
and through many long visits with tiers of family,
kissing the babies like different kinds of fruit.
Always hiding the clay pipe in her cabinet
when company appeared. She chaired decisions
to keep the land and refused welfare.
On that creaking throne she ruled a tiny kingdom
through war, death of kin. Even on the night she did
stop breathing, near a hundred, no one knew
exactly when, but found the lamp still on,
the romance open to a new chapter,
and the sun just appearing at her elbow.

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