Jorge Luis Borges – Aqui. Hoje.

Já somos o esquecimento que seremos. A poeira elementar que nos ignora e que foi o ruivo Adão e que é agora todos os homens e que não veremos. Já somos na tumba as duas datas do princípio e do término, o esquife, a obscena corrupção e a mortalha, os ritos da morte e as … Continue lendo Jorge Luis Borges – Aqui. Hoje.

Jorge Luis Borges – São os Rios

Somos o tempo. Somos a famosa parábola de Heráclito o Obscuro. Somos a água, não o diamante duro, a que se perde, não a que repousa. Somos o rio e somos aquele grego que se olha no rio. Seu semblante muda na água do espelho mutante, no cristal que muda como o fogo. Somos o … Continue lendo Jorge Luis Borges – São os Rios

Jorge Luis Borges – As Coisas

A bengala, as moedas, o chaveiro, a fechadura dócil, as tardias notas que não lerão os poucos dias que me restam, o naipe, o tabuleiro, um livro e dentro dele a emurchecida violeta, monumento de uma tarde por certo inesquecível já esquecida, o rubro espelho ocidental em que arde uma aurora ilusória. Quantas coisas, atlas, … Continue lendo Jorge Luis Borges – As Coisas

W. H. Auden – Musée des Beaux-Arts

     Sobre o sofrimento jamais se enganaram os velhos Mestres: eles bem compreenderam   a condição humana, viram como certas                                         coisas acontecem enquanto alguém por aí está comendo ou                                         abrindo a janela ou apenas caminhando sem pressa.      Sabem que, enquanto os mais velhos es-                        tão, reverentemente, apaixo-                                                 nadamente,               à espera     do “birth” … Continue lendo W. H. Auden – Musée des Beaux-Arts

Samuraitiger19 – Nos minutos finais de sua vida, Calvin teve uma última conversa com Haroldo…

“Calvin? Calvin, querido?” No escuro, Calvin ouviu a voz de Susie, sua esposa de 53 anos. Calvin se esforçou para abrir os olhos. Deus, ele se sentia tão cansado e foi preciso muita força para conseguir. Lentamente a luz espantou as trevas, e ele enxergou novamente. Aos pés de sua cama estava sua esposa. Calvin … Continue lendo Samuraitiger19 – Nos minutos finais de sua vida, Calvin teve uma última conversa com Haroldo…

Carlos Drummond de Andrade – A Corrente

Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos, amarelos, e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas.

Mário Quintana – Os Degraus

Não desças os degraus do sonho Para não despertar os monstros. Não subas aos sótãos – onde Os deuses, por trás das suas máscaras, Ocultam o próprio enigma. Não desças, não subas, fica. O mistério está é na tua vida! E é um sonho louco este nosso mundo…

Bertold Brecht – Lista de Preferências

Alegrias, as desmedidas. Dores, as não curtidas. Casos, os inconcebíveis. Conselhos, os inexequíveis. Meninas, as veras. Mulheres, insinceras. Orgasmos, os múltiplos. Ódios, os mútuos. Domicílios, os passageiros. Adeuses, os bem ligeiros. Artes, as não rentáveis. Professores, os enterráveis. Prazeres, os transparentes. Projetos, os contingentes. Inimigos, os delicados. Amigos, os estouvados. Cores, o rubro. Meses, outubro. … Continue lendo Bertold Brecht – Lista de Preferências

John Keats – Ode sobre uma Urna Grega

I Inviolada noiva de quietude e paz, Filha do tempo lento e da muda harmonia, Silvestre historiadora que em silêncio dás Uma lição floral mais doce que a poesia: Que lenda flor-franjada envolve tua imagem De homens ou divindades, para sempre errantes. Na Arcádia a percorrer o vale extenso e ermo? Que deuses ou mortais? … Continue lendo John Keats – Ode sobre uma Urna Grega

Carlos Drummond de Andrade – Tarde de Maio

Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio, quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra, outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora, surdamente lavrava sob meus traços cômicos, e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes e condenadas, no … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Tarde de Maio