David Mourão-Ferreira – E por vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

W. S. Merwin – Ao Ano Novo

Com que calma você
finalmente aparece no vale,
sua primeira luz solar descendo
para apalpar as pontas de algumas
folhas altas que não se mexem
como se não o tivessem notado
e não o conhecessem direito
em seguida a voz isolada de uma pomba
chama de muito longe
para a quietude da manhã

então é assim que você soa
aqui e agora haja ou não
alguém ouvindo é aqui
que chegamos com nossa experiência
nosso conhecimento tal como ele é
e nossas esperanças tal como elas são
invisíveis perante nós
intocadas e ainda possíveis

Trad.: Nelson Santander

To the New Year

With what stillness at last
you appear in the valley
your first sunlight reaching down
to touch the tips of a few
high leaves that do not stir
as though they had not noticed
and did not know you at all
then the voice of a dove calls
from far away in itself
to the hush of the morning

so this is the sound of you
here and now whether or not
anyone hears it this is
where we have come with our age
our knowledge such as it is
and our hopes such as they are
invisible before us
untouched and still possible

Eugénio de Andrade – Último Poema

É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.

Elizabeth Jennings – Em memória de alguém que desconheço

Neste momento em particular, não tenho ninguém
Em particular por quem lamentar, embora deva haver
Muitos, muitos desconhecidos lentamente virando
Pó, não lembrados pelo que fizeram
Ou deixaram de fazer. Por estes, então, eu sofrerei
Sendo imparcial, impossibilitada de enganar.

Como eles viveram ou morreram me é totalmente desconhecido,
E, por isso, confere pureza à minha dor
Ter partido sozinho alguém importante,
distante de mim, ou um desconhecido.
Ambos ou todos de quem me lembro têm um lugar.
Para estes que nunca encontrei cara a cara.

O sentimento se infiltrará. Eu o expulso
Pretendendo dar-lhe o clássico repouso,
Nada de epitáfio, papoulas ou rosas
De mim, e certamente nenhum desejo de conhecer
O modo como eles viveram ou morreram. Na terra ou pelo fogo
Eles se foram. Simplesmente porque eram humanos, eu os admiro.

Trad.: Nelson Santander

In memory of anyone unknown to me

At this particular time I have no one
Particular person to grieve for, though there must
Be many, many unknown ones going to dust
Slowly, not remembered for what they have done
Or left undone. For these, then, I will grieve
Being impartial, unable to deceive.

How they lived, or died, is quite unknown,
And, by that fact gives my grief purity,
An important person quite apart from me
Or one obscure who drifted down alone.
Both or all I remember, have a place.
For these I never encountered face to face.

Sentiment will creep in. I cast it out
Wishing to give these classical repose,
No epitaph, no poppy and no rose
From me, and certainly no wish to learn about
The way they lived or died. In earth or fire
They are gone. Simply because they were human, I admire.

Nelson Santander – [secos são os homens sem sonhos]

secos
são os homens sem sonhos
desertos rios de margens estreitas
trilham apenas os caminhos que a terra dita
nunca refletem de volta
o brilho gratuito do mundo

o acaso
delimita suas fronteiras

os homens sem sonhos

eles são
     as velas apagadas
     os caminhos silenciosos brancos de neve
     a matéria da corda dos enforcados
     o silêncio nascido da ignorância
     a crosta e a superfície
     o fácil e o óbvio

apenas olham
e a maçã continua maçã
aliás seu olhar as coisas petrifica

modernas medusas
mitológicos zeros
esquecidos até mesmo pelos espelhos

mas o mundo ainda é o mesmo que sempre foi

ainda existem aqueles que olham as estrelas
e pensam – eu existo
outros há que escrevem poemas

          (semideuses para quem a alma humana
                    não representa segredo)

mas as maravilhas
as verdadeiras maravilhas

     (o dentro de uma gota de névoa
     as possibilidades infindas do oceano
     a morte no exato de sua hora
     a fagulha química que engendra a paixão
     e o suor brotando feito sangue – puro sangue –
                                      no dorso de um cavalo no galope
     e a menor partícula, essência das essências
     e o nada entre os mundos
     entre as estrelas
     os sonhos de Ariadne)

essas não são visíveis a olhos nus

     cegos são os homens sem sonhos
     mortos estão e julgam que dormem

o sono
     é o dos
          justos

 

                                                          14/05/1994

Óscar Hahn – Abalo sísmico

Tive uma vez um grande amor
que derrubou minha casa
trincou minhas pontes
e me fez perder o equilíbrio.
Depois, vieram as réplicas:
aventuras de baixa intensidade
que nem sequer
me fizeram tremer
Quanto ao grande amor
pobre de mim
ainda respira
debaixo das ruínas

Trad.: Nelson Santander

Movimiento Sísmico

Tuve una vez un gran amor
que derribó mi casa
agrietó mis puentes
y me hizo perder el equilibrio
Después vinieron las réplicas:
amoríos de baja intensidad
que ni siquiera
me hicieron temblar
En cuanto al gran amor
ay mísero de mí
todavía respira
debajo de las ruínas

Antonio Pérez Morte – Para Berta

Para restabelecer a infância, uma bola de gude.
Para a adolescência um beijo,
                                  um verso,
                                  uma esperança.

Para a juventude,
um compromisso de amor definitivo.
Para a maturidade, talvez a rebeldia,
                                  a eterna, renovada,
                                  incombustível rebeldia
                                  daqueles velhos derrotados
                                  que nunca se deram por vencidos.

Trad.: Nelson Santander

Para Berta

Para recuperar la infancia, una canica.
Para la adolescencia
un beso,
un verso,
una esperanza.

Para la juventud,
un compromiso
de amor definitivo.

Para la madurez,
quizá la rebeldía,
la eterna,
renovada,
incombustible rebeldía
de aquellos viejos derrotados
que nunca
se dieron por vencidos.

Joshua Jennifer Espinoza – Isto é o que faz de nós Mundos

Como a luz, mas
ao contrário, nós ondulamos.

Dobramos a esquina
e fazemos desaparecer
as colinas.

Você rearranja
meus pedaços até não
doer mais.

Fim do medo noturno
entranhado na pele.

Fim da morte inocente.

Meus cabelos perdem seus átomos.
Meu corpo brilha
no escuro.

Planetas são esmagados
no esquecimento,
despojados do seu poder
de nomear as coisas.

Nosso amor ocupa o ar.

Nosso amor devora
os ruídos mortais que os homens
fazem quando veem
quanta magia
possuímos longe
deles.

Trad.: Nelson Santander

This Is What Makes Us Worlds

Like light but
in reverse we billow.

We turn a corner
and make the hills
disappear.

You rearrange
my parts until no
more hurting.

No more skin-sunk
nighttime fear.

No more blameless death.

My hair loses its atoms.
My body glows
in the dark.

Planets are smashed
into oblivion,
stripped of their power
to name things.

Our love fills the air.

Our love eats
the deadly sounds men
make when they see
how much magic
we have away
from them.

Jane Kenyon – Discutindo com a melancolia

Discutindo com a melancolia

                    Se muitos remédios são prescritos           
                    para uma doença, pode ter certeza           
                    de que a doença não tem cura.                    

                                    A. P. CHEKHOV
                                    The Cherry Orchard

     1 DO BERÇÁRIO
Quando eu nasci, você esperava
atrás de uma pilha de lençóis no berçário e,
quando ficamos a sós, você se deitou 
sobre mim, espremendo
a bile da desolação em cada poro.

E daquele dia em diante
tudo sob o sol e sob a lua
me fez infeliz — até mesmo as contas
amarelas de madeira que deslizavam e giravam
ao redor de um pino do meu berço.

Você me ensinou a viver desprovido de gratidão.
Você arruinou meus modos para com Deus:
“Estamos aqui simplesmente para esperar pela morte;
os prazeres mundanos são superestimados.”

Eu só parecia pertencer à minha mãe,
viver entre blocos e camisetas de algodão
com botões; entre lancheiras vermelhas de lata
e boletins escolares em feios estojos marrons.
Eu já era sua — a anti-vontade,
a mutiladora de almas.

     2 FRASCOS 
Elavil, Ludiomil, Doxepin,
Norpramin, Prozac, Lithium, Xanax,
Wellbutrin, Parnate, Nardil, Zoloft.
Os revestidos têm um cheiro adocicado ou
não têm cheiro; os em pó cheiram
como o laboratório de química da escola
que me faz prender a respiração.

     3 SUGESTÃO DE UM AMIGO
Você não ficaria tão deprimida
se realmente acreditasse em Deus.

     4 FREQUENTEMENTE
Frequentemente, vou para a cama logo após o jantar
como se fosse adulta
(quer dizer, eu tento esperar anoitecer)
a fim de me afastar
da imensa dor na frágil canoa
de vime do sono.

     5 UMA VEZ HAVIA LUZ
Uma vez, com trinta e poucos anos, notei
que eu era uma partícula de luz no grande
rio de luz que ondula através do tempo.

Eu estava flutuando com toda a 
família humana. Éramos todos cores — os 
que estão vivendo agora, os que morreram,
os ainda não nascidos. Por alguns

momentos flutuei, completamente calma,
e não odiei mais ter que existir.

Como um corvo que sente o cheiro de sangue quente,
você veio voando para me arrancar
da corrente luminosa.
“Eu irei segura-la. Eu nunca permito que meus entes queridos
se afoguem!” Depois disso, chorei por dias.

     6 ENTRANDO E SAINDO
O cachorro procura até me encontrar no
andar de cima, deita-se com estrépito sobre
os cotovelos, põe a cabeça no meu pé.

Às vezes, o som de sua respiração
salva a minha vida — entrando e saindo, entrando
e saindo; uma pausa, um longo suspiro…

     7 PERDÃO
Um pedaço de carne queimada
usa minhas roupas, fala 
com minha voz, despacha obrigações
com hesitação, ou então nada.
Está cansado de tentar
ser corajoso, cansado
além da conta.

Passamos para os inibidores da
monoamina oxidase. Dia e noite
sinto como se tivesse bebido seis xícaras
de café, mas a dor cessa,
abruptamente. Com o espanto
e a amargura de alguém indultado
por um crime que não cometeu
volto ao casamento e aos amigos,
às malvas-rosas franjadas; volto
à minha mesa, livros, e cadeira.

     8 CREDO
Maravilhas farmacêuticas estão em ação,
mas acredito apenas neste momento
de bem estar. Espectro profano,
certamente você voltará.

Rude, você irá colocar os pés
na mesa de centro, inclinar-se para trás,
e me transformar em alguém que não
se dá ao trabalho de falar; alguém
que não consegue dormir, ou que não faz nada
além de dormir; não pode ler, ou marcar
uma consulta para pedir ajuda.

Não há nada que eu possa fazer
contra a sua chegada.
Quando desperto, ainda estou com você.

     9 TORDO-DOS-BOSQUES
Bêbado de Nardil e da luz de junho
acordo às quatro,
esperando avidamente pela primeira
nota do Tordo-dos-Bosques. O ar suave
transpõe a tela
com o canto selvagem e complexo
do pássaro, e sou vencida

pelo contentamento comum.
O que me machucou tão terrivelmente
por toda a minha vida até este momento?
Como eu amo o pequeno, pulsante e célere
coração do pássaro,
cantando nos grandes carvalhos;
seu olhar brilhante, inequívoco.

Trad.: Nelson Santander

Having it Out with Melancholy

          If many remedies are prescribed
          for an illness, you may be certain
          that the illness has no cure.
                              A. P. CHEKHOV
                             The Cherry Orchard

1 FROM THE NURSERY

When I was born, you waited
behind a pile of linen in the nursery,
and when we were alone, you lay down
on top of me, pressing
the bile of desolation into every pore.

And from that day on
everything under the sun and moon
made me sad—even the yellow
wooden beads that slid and spun
along a spindle on my crib.

You taught me to exist without gratitude.
You ruined my manners toward God:
“We’re here simply to wait for death;
the pleasures of earth are overrated.”

I only appeared to belong to my mother,
to live among blocks and cotton undershirts
with snaps; among red tin lunch boxes
and report cards in ugly brown slipcases.
I was already yours—the anti-urge,
the mutilator of souls.

2 BOTTLES

Elavil, Ludiomil, Doxepin,
Norpramin, Prozac, Lithium, Xanax,
Wellbutrin, Parnate, Nardil, Zoloft.
The coated ones smell sweet or have
no smell; the powdery ones smell
like the chemistry lab at school
that made me hold my breath.

3 SUGGESTION FROM A FRIEND

You wouldn’t be so depressed
if you really believed in God.

4 OFTEN

Often I go to bed as soon after dinner
as seems adult
(I mean I try to wait for dark)
in order to push away
from the massive pain in sleep’s
frail wicker coracle.

5 ONCE THERE WAS LIGHT

Once, in my early thirties, I saw
that I was a speck of light in the great
river of light that undulates through time.

I was floating with the whole
human family. We were all colors—those
who are living now, those who have died,
those who are not yet born. For a few

moments I floated, completely calm,
and I no longer hated having to exist.

Like a crow who smells hot blood
you came flying to pull me out
of the glowing stream.
“I’ll hold you up. I never let my dear
ones drown!” After that, I wept for days.

6 IN AND OUT

The dog searches until he finds me
upstairs, lies down with a clatter
of elbows, puts his head on my foot.

Sometimes the sound of his breathing
saves my life—in and out, in
and out; a pause, a long sigh. . . .

7 PARDON

A piece of burned meat
wears my clothes, speaks
in my voice, dispatches obligations
haltingly, or not at all.
It is tired of trying
to be stouthearted, tired
beyond measure.

We move on to the monoamine
oxidase inhibitors. Day and night
I feel as if I had drunk six cups
of coffee, but the pain stops
abruptly. With the wonder
and bitterness of someone pardoned
for a crime she did not commit
I come back to marriage and friends,
to pink fringed hollyhocks; come back
to my desk, books, and chair.

8 CREDO

Pharmaceutical wonders are at work
but I believe only in this moment
of well-being. Unholy ghost,
you are certain to come again.

Coarse, mean, you’ll put your feet
on the coffee table, lean back,
and turn me into someone who can’t
take the trouble to speak; someone
who can’t sleep, or who does nothing
but sleep; can’t read, or call
for an appointment for help.

There is nothing I can do
against your coming.
When I awake, I am still with thee.

9 WOOD THRUSH

High on Nardil and June light
I wake at four,
waiting greedily for the first
note of the wood thrush. Easeful air
presses through the screen
with the wild, complex song
of the bird, and I am overcome

by ordinary contentment.
What hurt me so terribly
all my life until this moment?
How I love the small, swiftly
beating heart of the bird
singing in the great maples;
its bright, unequivocal eye.

Eugénio de Andrade – Elegia

Às vezes era bom que tu viesses.
Falavas de tudo com modos naturais:
em ti havia
a harmonia
dos frutos e dos animais.

Maio trouxe cravos como outrora,
cravos morenos, como tu dizias,
mas cada hora
passa e não se demora
na tristeza das nossas alegrias.

Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é maravilha,
um corpo já não é a plenitude,
tu quebraste ritmo, o ardor,
ao partires um a um
os ramos todos da tua juventude.

Não estamos sós:
setembro traz ainda
um fruto em cada mão.
Mas os homens, as aves e os ventos
já não bebem em ti a direção.