Carlos Drummond de Andrade – Relógio do Rosário

Era tão claro o dia, mas a treva, do som baixando, em seu baixar me leva pelo âmago de tudo, e no mais fundo decifro o choro pânico do mundo, que se entrelaça no meu próprio choro, e compomos os dois um vasto coro. Oh dor individual, afrodisíaco sêlo gravado em plano dionisíaco, a desdobrar-se, … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Relógio do Rosário

Carlos Drummond de Andrade – Os mortos

Na ambígua intimidade que nos concedem podemos andar nus diante de seus retratos. Não reprovam nem sorriem como se neles a nudez fosse maior. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui

Carlos Drummond de Andrade – Ciência

Começo a ver no escuro um novo tom de escuro. Começo a ver o visto e me incluo no muro. Começo a distinguir um sonilho, se tanto, de ruga. E a esmerilhar a graça da vida, em sua fuga. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui

Carlos Drummond de Andrade – Aniversário

Um verso, para te salvarde esquecimento sobre a terra?Se é em mim que estás esquecida,o verso lembraria apenasesta força de esquecimento,enquanto a vida, sem memória,vaga atmosfera, se condensana pequena caixa em que morascomo os mortos sabem morar. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui

Carlos Drummond de Andrade – Véspera

Amor: em teu regaço as formas sonham o instante de existir: ainda é bem cedo para acordar, sofrer. Nem se conhecem os que se destruirão em teu bruxedo. Nem tu sabes, amor, que te aproximas a passo de veludo. És tão secreto, reticente e ardiloso, que semelhas uma casa fugindo ao arquiteto. Que presságios circulam … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Véspera

Carlos Drummond de Andrade – Nudez

Não cantarei amores que não tenho, e, quando tive, nunca celebrei. Não cantarei o riso que não rira e que, se risse, ofertaria a pobres. Minha matéria é o nada. Jamais ousei cantar algo de vida: se o canto sai da boca ensimesmada, é porque a brisa o trouxe, e o leva a brisa, nem … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Nudez

Carlos Drummond de Andrade – A flor e a náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas, Vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – A flor e a náusea

Carlos Drummond de Andrade – A bruxa

Nesta cidade do Rio, de dois milhões de habitantes, estou sozinho no quarto, estou sozinho na América. Estarei mesmo sozinho? Ainda há pouco um ruído anunciou vida ao meu lado. Certo não é vida humana, mas é vida. E sinto a bruxa presa na zona de luz. De dois milhões de habitantes! E nem precisava … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – A bruxa

Carlos Drummond de Andrade – Dentaduras duplas

Dentaduras duplas! Inda não sou bem velho para merecer-vos... Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas. (Coroas sem reino, os reinos protéticos de onde proviestes quando produzirão a tripla dentadura, dentadura múltipla, a serra mecânica, sempre desejada, jamais possuída, que acabará com o tédio da boca, a boca que beija, a boca … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Dentaduras duplas