Carlos Drummond de Andrade – A flor e a náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas, Vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – A flor e a náusea

Carlos Drummond de Andrade – A bruxa

Nesta cidade do Rio, de dois milhões de habitantes, estou sozinho no quarto, estou sozinho na América. Estarei mesmo sozinho? Ainda há pouco um ruído anunciou vida ao meu lado. Certo não é vida humana, mas é vida. E sinto a bruxa presa na zona de luz. De dois milhões de habitantes! E nem precisava … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – A bruxa

Carlos Drummond de Andrade – Dentaduras duplas

Dentaduras duplas! Inda não sou bem velho para merecer-vos... Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas. (Coroas sem reino, os reinos protéticos de onde proviestes quando produzirão a tripla dentadura, dentadura múltipla, a serra mecânica, sempre desejada, jamais possuída, que acabará com o tédio da boca, a boca que beija, a boca … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Dentaduras duplas

Carlos Drummond de Andrade – Nosso Tempo

             I Esse é tempo de partido, tempo de homens partidos. Em vão percorremos volumes, viajamos e nos colorimos. A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua. Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos. As leis não bastam. Os lírios não nascem da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra. Visito os fatos, não te … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Nosso Tempo

Carlos Drummond de Andrade – Desfile

O rosto no travesseiro, escuto o tempo fluindo no mais completo silêncio. Como remédio entornado em camisa de doente; como na penugem de braço de namorada; como vento no cabelo, fluindo: fiquei mais moço. Já não tenho cicatriz. Vejo-me noutra cidade. Sem mar nem derivativo, o corpo era bem pequeno para tanta insubmissão. E tento … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Desfile

Carlos Drummond de Andrade – Procura

Procurar sem notícia, nos lugares onde nunca passou; inquirir, gente não, porém textura, chamar à fala muros de nascença, os que não são nem sabem, elementos de uma composição estrangulada. Não renunciar, entre possíveis, feitos de cimento do impossível, e ao sol-menino opor a antiga busca, e de tal modo revolver a morte que ela … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Procura

Carlos Drummond de Andrade – Balanço

A pobreza do eu a opulência do mundo A opulência do eu a pobreza do mundo A pobreza de tudo a opulência de tudo A incerteza de tudo na certeza de nada

Carlos Drummond de Andrade – Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido (mal vivido talvez ou sem sentido) para você ganhar um ano não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; novo até no coração das … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Receita de Ano Novo

Carlos Drummond de Andrade – O Retrato Malsim

O inimigo maduro a cada manhã se vai formando no espelho de onde deserta a mocidade. Onde estava ele, talvez escondido em castelos escoceses, em cacheados cabelos de primeira comunhão? Onde, que lentamente grava sua presença por cima de outra, hoje desintegrada? Ah, sim: estava na rigidez das horas de tenência orgulhosa, no morrer em … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – O Retrato Malsim