Categoria: Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade: poemas para habitar o desencontro
A explicação está diante dele. Completa, ordenada, gratuita. Bastaria aceitá-la.
O caminhante baixa os olhos.
Esse gesto, no fim de “A Máquina do Mundo”, não é apenas recusa do conhecimento absoluto. É uma escolha de posição. O caminhante prefere a estrada pedregosa, o passo vagaroso e as mãos caídas à totalidade que se oferece pronta. Não porque o mistério seja mais belo do que a resposta, mas porque uma resposta capaz de acomodar tudo talvez elimine justamente aquilo que a poesia drummondiana deseja preservar: a resistência das coisas, a contradição do sujeito, a opacidade do outro, o atrito entre a consciência e o mundo.
A obra de Carlos Drummond de Andrade pode ser lida como uma longa fidelidade a esse atrito. Nela, o sujeito lírico raramente está em harmonia consigo, com sua classe, com sua família, com seu tempo ou com a linguagem. Também não transforma essa falta de acordo numa identidade confortável. O desencontro dói, constrange, paralisa e, ao mesmo tempo, produz conhecimento. É da posição inadequada que o olhar começa.
Uma posição oblíqua
A figura do gauche tornou-se tão conhecida que corre o risco de parecer apenas um retrato psicológico: o homem tímido, desajeitado, deslocado diante da vida. Mas o desajuste em Drummond é mais do que temperamento. É uma relação com o mundo.
O sujeito drummondiano chega frequentemente tarde, cedo ou fora do lugar. Não domina a cena; observa-a de um ângulo que impede a adesão imediata. Sua inteligência nasce dessa pequena distância entre o gesto esperado e o gesto possível. Ele conhece as regras, mas não consegue cumpri-las sem perceber seu absurdo. Participa da ordem social e, ao mesmo tempo, enxerga a violência escondida em sua normalidade.
Em “A flor e a náusea”, o sujeito do poema caminha preso à própria classe e às próprias roupas. A consciência crítica não o coloca fora do mundo que condena. Ele sabe que tomou parte nos crimes da terra, que alguns erros foram considerados belos e publicados, que a vida cotidiana distribui sua ração de cumplicidade. Não fala de um ponto moralmente puro.
Essa ausência de pureza dá força ao poema. A revolta não vem de alguém que se imagina inocente, mas de quem reconhece a própria implicação. O ódio pode salvar porque se volta também contra aquele que odeia. A esperança que nasce daí só pode ser mínima.
A flor que rompe o asfalto não corrige a cidade. É desbotada, feia, sem nome nos livros, incapaz de transformar imediatamente o tempo de injustiça. Sua existência importa porque não se converte em símbolo fácil. A flor permanece forma insegura: algo real que furou o tédio e o nojo sem abolir nenhum dos dois.
O desencontro, portanto, não separa apenas o indivíduo da sociedade. Divide o próprio indivíduo. Quem denuncia também participa; quem deseja a mudança também carrega o hábito; quem procura uma saída sabe que talvez esteja procurando dentro das palavras que ajudaram a construir o impasse.
Em “Fragilidade”, o verso aceita ser apenas um arabesco em torno do elemento essencial e inatingível. O poema não captura a coisa nem a traduz numa fórmula. Abraça-a sem reduzi-la.
Essa imagem define uma ética da forma. A poesia aproxima-se, circunda, escolhe, depura e organiza; mas seu rigor não lhe concede posse sobre o real. O elemento essencial permanece fora de alcance. O fracasso não invalida o poema: impede que ele confunda conhecimento com apropriação.
A vida presente, sem reconciliação
A consciência do desencontro poderia conduzir ao isolamento. Em Drummond, porém, ela também torna necessária a procura dos outros.
“Mãos dadas” recusa dois afastamentos simétricos: o mundo caduco e o mundo futuro. A voz do poema não deseja refugiar-se na nostalgia nem antecipar uma realidade reconciliada. Sua matéria é o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.
A repetição de “presente” retira da palavra qualquer leveza abstrata. O presente é peso, dimensão e tarefa. É tão grande que ninguém deve afastar-se muito. Dar as mãos não significa que as diferenças desapareceram ou que uma comunidade harmoniosa já existe. Significa permanecer próximo o bastante para atravessar juntos um tempo que nenhum indivíduo consegue compreender sozinho.
Essa proximidade não é sentimental. Os companheiros estão taciturnos. A esperança existe, mas não substitui a enorme realidade. Drummond não oferece uma fraternidade fundada na semelhança; oferece um gesto mínimo contra a dispersão.
Em “Uma Hora e mais Outra”, a travessia do desgosto individual termina no reconhecimento de outros passos. A saída não é religiosa, suicida, estética ou privada. O sujeito avança porque seu passo se mistura a muitos: calçados ou descalços, diferentes em cor, forma e ferida, mas pisando a mesma terra.
O poema não nega a náusea, o corpo, a vulgaridade das conversas, a insuficiência do amor ou a matéria que se decompõe. Passa por tudo isso. A dimensão coletiva não surge da supressão da experiência individual, mas do momento em que o indivíduo deixa de tomar sua dor como destino exclusivo.
O compromisso histórico de Drummond conserva, assim, a mesma estrutura de seu lirismo: aproximar sem fundir. A voz lírica está entre os homens, não acima deles; presa à própria classe, mas capaz de interrogá-la; incapaz de anunciar a justiça completa, mas atenta às formas inseguras que já rompem o asfalto.
Aquilo que o tempo grava no corpo
Em “Ontem”, o passado não permanece no banco, na árvore ou no ar. O que aconteceu não deixou uma forma visível no mundo. Está gravado naquele que recorda.
A memória parece, a princípio, salvar o que desapareceu. Mas o último gesto do poema desfaz essa segurança: ao escrever, o sujeito também dissipa. A inscrição e o apagamento pertencem ao mesmo ato. O poema conserva o instante transformando-o em outra coisa — e, nessa transformação, confirma que ele não pode voltar.
O passado em Drummond não é um território intacto que a lembrança visita. É uma força que modifica o corpo presente. A árvore já não balança o mesmo galho, o banco não retém a forma, mas aquele que se lembra tornou-se o lugar onde a perda continua acontecendo.
“Ciência” descreve o envelhecimento como aprendizagem de diferenças quase invisíveis. O olhar passa a perceber no escuro um novo tom de escuro, no visto aquilo que antes não via, no rosto o começo de uma ruga. A ciência adquirida não é domínio crescente sobre a vida. É refinamento da percepção de sua fuga.
O poema é breve porque sua descoberta é estreita. Não oferece revelação grandiosa. Esmerilha a graça da vida enquanto ela escapa. A atenção torna-se mais precisa na mesma medida em que o objeto se torna menos disponível.
Em “Versos à Boca da Noite”, o corpo envelhecido reúne lembranças, desejos, culpas e sinais físicos que já não podem ser separados. A noite não chega apenas de fora. Instala-se nas rugas, no cansaço e na consciência de que o tempo vivido não pode ser refeito.
A melancolia drummondiana não nasce simplesmente de ter perdido a juventude. Nasce da descoberta de que o eu atual foi produzido por versões anteriores de si que já não compreende inteiramente. O sujeito carrega aquilo que deixou de ser, mas não dispõe de uma síntese capaz de reunir todas as idades numa identidade pacificada.
Também por isso o recém-nascido de “A um varão que acaba de nascer” chega tarde e cedo ao mesmo tempo. Ninguém aporta no instante exato. A vida está sempre descompassada em relação a si mesma: quando começamos a compreender a paisagem, uma parte dela já desapareceu; quando julgamos reconhecer nossa aventura, talvez estejamos apenas repetindo uma história recebida.
O tempo não é, em Drummond, um rio exterior que leva as coisas. É a falta de coincidência entre viver e saber que se vive.
A família e a palavra que não veio
“Viagem na Família” começa com a sombra do pai tomando o filho pela mão. A intimidade do gesto é imediatamente contrariada pelo silêncio. Os dois caminham por Itabira, pelas casas, pelos objetos, pelos casamentos, pelas dívidas, pelos desejos e pelas violências familiares; o pai, porém, nada diz.
A repetição transforma o silêncio em matéria. A cada nova lembrança, espera-se que alguma explicação finalmente seja dada. Nenhuma vem. O filho exige fala, puxa o casaco que se desfaz, tenta prender a sombra pelas mãos e pelas botinas. Quanto mais deseja recuperar o pai, mais toca aquilo que já não pode responder.
A viagem revela que o silêncio paterno não pertence apenas ao pai. Nele estão o avô surdo, a falta de amigos do filho, a falta de beijos do pai, as vidas difíceis e uma separação maior do que o pequeno quarto onde ambos se encontram. O que parecia falha individual torna-se herança familiar.
O reconhecimento ocorre sem explicação. No abraço final, o filho sente um amor pungente e imagina o perdão. Mas o pai continua calado. A reconciliação não desfaz a distância; acontece dentro dela.
Em “A um Ausente”, a saudade vem acompanhada de acusação. O morto rompeu um pacto implícito ao partir sem despedida. A linguagem amorosa recusa a doçura obrigatória do luto: quem ficou tem o direito de sentir abandono, cólera e injustiça.
A morte transforma a relação, mas não corrige seus conflitos. O ausente não se torna puro porque morreu; o sobrevivente não precisa converter a perda em veneração. O amor permanece ligado à queixa porque era uma relação entre duas presenças concretas, não entre uma consciência e uma imagem idealizada.
“Procura” leva o desejo de recuperação ao impossível. Procurar o morto significa chamar muros à fala, revolver a morte até que ela devolva seus reféns intactos, imaginar um encontro fora do espaço e do tempo.
O poema sabe que o império do real não existe. Ainda assim, procura. A impossibilidade não elimina o movimento; dá-lhe sua intensidade. Procurar aquilo que não pode voltar é uma das formas pelas quais o amor continua agindo depois da perda.
A família, em Drummond, não oferece origem estável. É arquivo incompleto, ordem social, silêncio transmitido, afeto tardio e matéria corporal. Os mortos fluem no sangue, mas seus rostos se tornam indistintos. Herdamos aquilo que não conseguimos esclarecer.
A totalidade recusada
No início de “A Máquina do Mundo”, o caminhante está cansado de procurar. A revelação chega quando o desejo de revelação já se extinguiu. Tudo aquilo que a poesia, a filosofia, a religião e a ciência perseguiram se apresenta: o nexo primeiro, a explicação da vida, a ordem das coisas, a memória dos deuses e o sentido da morte.
A oferta é perfeita demais.
Aceitá-la encerraria a procura, mas também eliminaria a posição de onde a poesia de Drummond fala. Se tudo encontrasse finalmente seu lugar, desapareceriam o gauche, o impasse, a flor insegura, o silêncio paterno, o presente enorme e o arabesco que se recusa a reduzir as coisas.
O caminhante baixa os olhos e segue.
Sua recusa não proclama que a verdade inexiste, nem que todo conhecimento é inútil. Afirma algo mais difícil: talvez uma verdade total não possa ser recebida sem violentar a experiência parcial, histórica e contraditória de quem a recebe. A máquina oferece o mundo sem resto; a poesia de Drummond prefere o resto.
Por isso seus poemas não curam o desencontro. Ensinam a permanecer nele sem transformá-lo em resignação. Dar as mãos não é fundir-se. Recordar não é recuperar. Amar não é possuir. Escrever não é conservar intacto. Conhecer não é reduzir.
A estrada continua pedregosa. A flor continua feia. O pai continua calado. O presente continua grande demais. E o caminhante, avaliando o que perdeu, segue devagar — não em direção a uma resposta final, mas ao ponto exato em que o mundo resiste e, por resistir, ainda pode ser visto.
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Carlos Drummond de Andrade – A um Ausente

Tenho razão de sentir saudade,tenho razão de te acusar.Houve um pacto implícito que rompestee sem te despedires foste embora.Detonaste o pacto.Detonaste a vida geral, a comum aquiescênciade viver e explorar os rumos de obscuridadesem prazo sem consulta sem provocaçãoaté o limite das folhas caídas na hora de cair. Antecipaste a hora.Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas…
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Carlos Drummond de Andrade – Declaração em Juízo

Peço desculpas de sero sobrevivente.Não por longo tempo, é claro.Tranqüilizem-se.Mas devo confessar, reconhecerque sou sobrevivente.Se é triste/cômicoficar sentado na platéiaquando o espetáculo acaboue fecha-se o teatro,mais triste/grotesco é permanecer no palco,ator único, sem papel,quando o público já virou as costase somente baratascirculam no farelo. Reparem: não tenho culpa.Não fiz nada para sersobrevivente.Não roguei aos altos…
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Carlos Drummond de Andrade – Morte no Avião

Acordo para a morte.Barbeio-me, visto-me, calço-me.É meu último dia: um diacortado de nenhum pressentimento.Tudo funciona como sempre.Saio para a rua. Vou morrer. Não morrerei agora. Um diainteiro se desata à minha frente.Um dia como é longo. Quantos passosna rua, que atravesso. E quantas coisasno tempo, acumuladas. Sem reparar,sigo meu caminho. Muitas facescomprimem-se no caderno de…
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Carlos Drummond de Andrade – Uma Hora e mais Outra

Há uma hora tristeque tu não conheces.Não é a da tardequando se diriabaixar meio gramana dura balança;não é a da noiteem que já sem luza cabeça cobrescom frio lençolantecipando outromais gelado pano;e também não é ado nascer do solenquanto enfastiadoassistes ao diaperseverar no câncer,no pó, no costume,no mal divididotrabalho de muitos;não a da comidahora mais…
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Carlos Drummond de Andrade – Coisa Miserável

Coisa miserável,suspiro de angústiaenchendo o espaço,vontade de chorar,coisa miserável,miserável. Senhor, piedade de mim,olhos misericordiosospousando nos meus,braços divinoscingindo meu peito,coisa miserávelno pó sem consolo,consolai-me. Mas de nada velegemer ou chorar,de nada valeerguer as mãos e olhospara um céu tão longe,para um Deus tão longeou, quem sabe? para um céu vazio. É melhor sorrir(sorrir gravemente)e ficar caladoe…
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Carlos Drummond de Andrade – Versos à Boca da Noite

Sinto que o tempo sobre mim abatesua mão pesada. Rugas, dentes, calva.Uma aceitação maior de tudo,e o medo de novas descobertas. Escreverei sonetos de madureza?Darei aos outros a ilusão de calma?Serei sempre louco? Sempre mentiroso?Acreditarei em mitos? Zombarei do mundo? Há muito suspeitei o velho em mim.Ainda criança, já me atormentava.Hoje estou só. Nenhum menino…
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Carlos Drummond de Andrade – Tu? Eu?
Não morres satisfeito.A vida te viveusem que vivesses nela.E não te convenceunem deu motivopara haver o ser vivo. A vida te venceuem luta desigual.Era todo o passadopresente presidentena polpa do futuroacuando-te no beco.Se morres derrotado,não morres conformado. Nem morres informadodos termos da sentençade tua morte, lidaantes de redigida.Deram-te um defensorcego surdo estrangeiroque ora metia medoora…
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Carlos Drummond de Andrade – Morte das Casas de Ouro Preto

Sobre o tempo, sobre a taipa,a chuva escorre. As paredesque viram morrer os homens,que viram fugir o ouro,que viram finar-se o reino,que viram, reviram, viram,já não vêem. Também morrem. Assim plantadas no outeiro,menos rudes que orgulhosasna sua pobreza branca,azul e rosa e zarcão,ai, pareciam eternas!Não eram. E cai a chuvasobre rótula e portão. Vai-se a…
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Carlos Drummond de Andrade – Carta

Bem quisera escrevê-lacom palavras sabidas,as mesmas, triviais,embora estremecessema um toque de paixão.Perfurando os obscuroscanais de argila e sombra,ela iria contandoque vou bem, e amo sempree amo cada vez maisa essa minha maneiratorcida e reticente,e espero uma resposta,mas que não tarde; e peçoum objeto minúsculosó para dar prazera quem pode ofertá-lo;diria ela do tempoque faz do…
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Carlos Drummond de Andrade – Os Rostos Imóveis

Pai morto, namorada morta.Tia morta, irmão nascido morto.Primos mortos, amigo mortoAvô morto, mãe morta(mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos).Conhecidos mortos, professora morta. Inimigo morto.Noiva morta, amigas mortas.Chefe de trem morto, passageiro morto.Irreconhecível corpo morto: sera homem ou bicho!Cão morto, passarinho morto.Roseira morta, laranjeiras mortas.Ar morto, enseada morta.Esperança, paciência, olhos, sono,…