Cynthia Huntington – O arrebatamento

Lembro-me de estar na cozinha, misturando ossos para a sopa,
e de que, naquele momento, me tornei outra pessoa.

Era uma noite de início de primavera, o ar da Califórnia estava ameno.
Lá fora, o eucalipto se curvava compulsivamente

sobre o trailer do vizinho, estacionado na entrada da garagem.
A rua estava tranquila, pra variar, e todas as janelas estavam abertas.

Então, meu braço direito formigou, uma palpitação começou sob a pele.
Um fogo desceu pelo nervo da minha perna; meu couro cabeludo explodiu

em pontadas de luz. Eu tremia e sentia vontade de rir;
era emocionante como um terremoto. Uma cidade em chamas

após um terremoto. Então eu tremi e minhas pernas estremeceram,
todos os músculos aprisionados, então eu caí e deitei de lado,

um parafuso cravado em meu crânio, em minha espinha. Minhas pernas
nadavam contra o linóleo, e olhei para a parte de baixo

do fogão, os lugares sujos onde a esponja não alcançava.
Tudo desmoronou ali, em um só lugar, num piscar de olhos.

Ali no meu corpo. Na cozinha, às seis da tarde, abril.
Uma colher de pau presa em minha mão, o cheiro de caldo de galinha.

E naquele momento, eu soube de tudo o que viria depois:
a visão estava completa quando se apoderou de mim. Sem diagnóstico,

sem histórico, eu soube que minha vida havia mudado.
Eu parecia ter-me tornado inteiramente eu mesma naquele instante.

Não foram os testes, exames em laboratórios de especialistas, nem
os procedimentos laboratoriais: IRM, punção lombar, eletrodos

colados em meu couro cabeludo, a agulha raspada na sola do meu pé,
seguir um dedo com os olhos, EEG, PET-scan, mielograma.

Nem as quedas, a cegueira ou os tremores, os tropeços
e o sibilar no sangue, nem o deitar na cama à tarde.

Não o fenobarbitol, amitriptileno, prednisona, amantadine, ACTH,
cortisona, citoxano, copolímero, baclofeno, tegretol, mas isto:

Às seis horas da tarde, em abril, mexendo ossos para a sopa.
Um evento cujo conhecimento chegou por inteiro, cujo significado levou anos

para abrir-se, para parecer um destino. Durou trinta segundos, não mais.
Então meus músculos se soltaram, a onda e o tremor abandonaram meu corpo

e eu fiquei imóvel sob o alto teto branco. Depois eu me pus de pé
e fiquei ali, parada, quieta, sozinha, começando a ter medo.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: o presente poema, no qual a autora – valendo-se da metáfora do arrebatamento (um dos dogmas do cristianismo evangélico) – narra a primeira vez em que foi súbita e drasticamente atingida pela Esclerose Múltipla, venceu o Prêmio Levis de poesia em 2001.

The Rapture

I remember standing in the kitchen, stirring bones for soup,
and in that moment, I became another person.

It was an early spring evening, the air California mild.
Outside, the eucalyptus was bowing compulsively

over the neighbor’s motor home parked in the driveway.
The street was quiet for once, and all the windows were open.

Then my right arm tingled, a flutter started under the skin.
Fire charged down the nerve of my leg; my scalp exploded

in pricks of light. I shuddered and felt like laughing;
it was exhilarating as an earthquake. A city on fire

after an earthquake. Then I trembled and my legs shook,
and every muscle gripped so I fell and lay on my side,

a bolt driven down my skull into my spine. My legs were
swimming against the linoleum, and I looked up at the underside

of the stove, the dirty places where the sponge didn’t reach.
Everything collapsed there in one place, one flash of time.

There in my body. In the kitchen at six in the evening, April.
A wooden spoon clutched in my hand, the smell of chicken broth.

And in that moment I knew everything that would come after:
the vision was complete as it seized me. Without diagnosis,

without history, I knew that my life was changed.
I seemed to have become entirely myself in that instant.

Not the tests, examinations in specialists’ offices, not
the laboratory procedures: MRI, lumbar puncture, electrodes

pasted to my scalp, the needle scraped along the sole of my foot,
following one finger with the eyes, EEG, CAT scan, myelogram.

Not the falling down or the blindness and tremors, the stumble
and hiss in the blood, not the lying in bed in the afternoons.

Not phenobarbitol, amitriptylene, prednisone, amantadine, ACTH,
cortisone, cytoxan, copolymer, baclofen, tegretol, but this:

Six o’clock in the evening in April, stirring bones for soup.
An event whose knowledge arrived whole, its meaning taking years

to open, to seem a destiny. It lasted thirty seconds, no more.
Then my muscles unlocked, the surge and shaking left my body

and I lay still beneath the white high ceiling. Then I got up
and stood there, quiet, alone, just beginning to be afraid.