Mês: janeiro 2022
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Jorge Luis Borges – Limites

Há uma linha de Verlaine que não voltarei a recordar,Há uma rua próxima que está vedada a meus passos,Há um espelho que me viu pela última vez,Há uma porta que fechei até o fim do mundo.Entre os livros de minha biblioteca (estou vendo-os)Há algum que já nunca abrirei.Este verão cumprirei cinqüenta anos:A morte me desgasta,…
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Friedrich Hölderlin – A Brevidade

“Por que és tão breve? Não amas mais, como outrora,O canto? Quando jovem, não chegavas,Nos dias de esperança,Nunca ao fim, quando cantavas!” Tal qual minha sorte é meu canto. – Queres ao arrebolBanhar-te alegremente? Foi-se! E a terra está friaE o pássaro da noite esvoaçaincomodamente aos olhos teus. Trad. Antonio Cícero REPUBLICAÇÃO. Poema publicado originalmente…
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Nicholas Christopher – Terminus

Terminus Eis uma leitura obrigatóriano final do nosso séculoo final de um milênio que começou com as cruzadas A transcrição de uma entrevistaentre um médico da Cruz Vermelhae uma menina muçulmana de doze anosna Bósniaque descreveu os estupros que sofreu nas mãos de homensque se autodenominavam soldadosdiferentes homens todas as noites um após o outroseis…
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Wislawa Szymborska – O primeiro amor

Dizemque o primeiro amor é o mais importante.Isso é muito romântico,mas não é o meu caso.Algo entre nós houve e não houve,se deu e se perdeu.Não me tremem as mãosquando encontro as pequenas lembrançase o maço de cartas atadas com barbantese ao menos fosse uma fita.Nosso único encontro depois de anosfoi um diálogo de duas…
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Stanley Kunitz – O retrato

Minha mãe nunca perdoou meu paipor ter-se suicidado,especialmente em um momento tão estranhoe em um parque público,naquela primaveraquando eu estava esperando para nascer.Ela encarcerou o nome deleem seu armário mais profundoe não o deixou mais sair,embora eu pudesse ouvi-lo batendo.Quando desci do sótão, trazendona mão o retrato em tons pastéisde um estranho de lábios compridos,bigode…
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Ian Hamilton – Epitáfio

O aroma de rosas velhas e tabacoFaz-me regressar.Há quase vinte anosQue não nos vemosE a nossa desapegada paixão continua. Foi isto que me deixaste:A mão, entreaberta, imóvelSobre uma colcha verde.O bastante para erguerAlguns poemas melancólicos. Se então eu te houvesse tocadoUm de nós podia ter sobrevivido. Trad. Nuno Vidal REPUBLICAÇÃO. Poema originalmente publicado no blog…
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Jorge Valdés Díaz-Vélez – Polaroide

Polaroide para Eugenio Montejo São sete contra a parede, em pé, e um sentado.Mal conservam os traços desbotados pelos anos. Os rostos resistem ao desgaste,embora já não possuam as cores vivasque ontem os distinguiram. Entre livros e taças,os olhares sorridentes, as mãos dadascelebrando a vida na prata e gelatina*se apagam na sépia de sua jovem…
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Pedro Salinas – Não Te Vejo

Não te vejo. Bem seique estás aqui, atrásde uma frágil paredede ladrilhos e cal, bem ao alcanceda minha voz, se chamasse.Mas não chamarei.Chamarei amanhã,quando, ao não te ver maisimagine que continuasaqui perto, ao meu lado,e que basta hoje a vozque ontem eu não quis dar.Amanhã… quando estivereslá atrás de umafrágil parede de ventos,de céus e…
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Tomas Tranströmer – Neve Cai

Enterros chegammais e mais pertocomo placas na estradaao se aproximar a cidade. Milhares de olhares humanosna longa terra das sombras. Uma ponte apontadevagarbem longe no espaço. Trad.: Marcia Sá Cavalcante Schuback SNÖ FALLER Begravningarna kommertätare och tätaresom vägskyltarnanär man närmar sig en stad. Tusentals människors blickari de långa skuggornas land. En bro bygger siglångsamtrakt ut…
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William Butler Yeats – Viajando para Bizâncio

Aquela não é terra para velhos. Gentejovem, de braços dados, pássaros nas ramas— gerações de mortais — cantando alegremente,salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas,peixe, ave ou carne glorificam ao sol quentetudo o que nasce e morre, sêmen ou semente.Ao som da música sensual, o mundo esqueceas obras do intelecto que nunca envelhece.…