William Carlos Williams – As Árvores de Botticelli

O alfabeto das
árvores

se esfuma no
canto das folhas

os entre-
laços de finas

letras que soletram
inverno

e o frio
são iluminados

em
apontos de verde

por chuva e sol –
Os princípios

simples estritos de
justos ramos

são tangidos
por beliscões

afãs de cor, devotas
condições

os sorrisos de amor –
…………….

até que as despidas
sentenças

movam-se como pernas de
mulher sob as vestes

e louvem do ágil
sigilo em desejo

o assomo do amor
no verão

No verão o canto
encanta-se

além das palavras murcha-
das –

Trad.: Iumna Maria Simon e

Luiz Antonio de Figueiredo

William Carlos Williams – O Vento Aumenta

A saqueada
terra está varrida
As árvores
o brilho da tulipa
desponta
dobram-se e
dançam –
Desata teu amor
para fluir
Florir!
Bom Cristo o que é
um poeta – se algum
existe?
um homem
cujas palavras irão
morder
sua trilha
de retorno – ser atual
tendo a forma.
do movimento
Em cada ramo-em-ponta
novo
no torturado
corpo da mente
roendo
a terra
uma trilha
rumo à extrema
/folha-em-ponta

Trad.: Iumna Maria Simon e
Luiz Antônio de Figueiredo

Jaime Gil de Biedma – Recorda

Formosa vida que passou e parece
não passar mais…
Desde agora, aprofundo
sonhos na memória: e estremece
a eternidade do tempo lá no fundo.
E de repente um remoinho cresce:
sorve-me, arrasta-me, até que me afundo
numa gruta aonde vai, precipitado,
para sempre, sumindo-se, o passado.

Trad.: José Bento

E. E. Cummings – “o amor é mais muito que olvido”

o amor é mais muito que olvido
mais pouco que memória
mais raro que onda ser aguada
mais comum que dar foras

é mais lunar, demente
por menos nem falar
que o mar todo somente
mais fundo do que o mar

é menos sempre que sucesso
menos jamais que ao vivo
menos maior que um nem começo
menos menor que alívio

é mais solar e são
por mais jamais morreu
que os céus todos que são
mais altos do que o céu

Trad.: Nelson Ascher

Rudyard Kipling – Se

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar –sem que a isso só te atires,
De sonhar –sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais – tu serás um homem, ó meu filho!

Trad.: Guilherme de Almeida

William Butler Yeats – Morte

Um bicho à morte ignora
ânsia e temor; contudo
um homem, quando é hora,
anseia e teme tudo;
morreu vezes sem conta
e ergueu-se redivivo.
Um grande homem confronta
gente homicida, altivo,
escarnecendo o corte
do alento. Convivera
com a morte a vida inteira:
o homem criou a morte.

Trad.: Nelson Ascher

T. S. Eliot – Morte Pela Água

Flibas, o Fenício, há quinze dias morto,
Deixou o grito das gaivotas, e a funda onda do mar
        E o lucro e a perda.
Uma corrente submarina
Roeu seus ossos em sussurros. Como subiu caiu
Varando o palco da velhice e juventude
Rompendo os vagalhões.
             Gentio ou Judeu
Ó tu que giras o leme e miras o vento na vela,
Considera Flibas, que um dia foi belo e alto como tu.

Trad.: José Francisco C. Costa