Cassiano Ricardo – Depois de Tudo

Mas tudo passou tão depressa Não consigo dormir agora. Nunca o silêncio gritou tanto Nas ruas da minha memória. Como agarrar líquido o tempo Que pelos vãos dos dedos flui? Meu coração é hoje um pássaro Pousado na árvore que eu fui.

Cassiano Ricardo – Testamento

Deixo os meus olhos ao cego que mora nesta rua. Deixo a minha esperança ao primeiro suicida. Deixo à polícia meu rasto, a Deus o meu último eco. Deixo o meu fogo-fátuo ao mais triste viandante que se perder sem lanterna numa noite de chuva. Deixo o meu suor ao fisco que me cobriu de … Continue lendo Cassiano Ricardo – Testamento

Cassiano Ricardo – Morrer não será dormir

Morrer não será dormir, pois não existe horizonte para poder haver sono. Será ser indiferente. Apenas indiferente. Que tanto faça haver sol como o sol não seja mais do que um simples girassol. Não será, só, o morrer porque se deixou de ser. Será - por indiferença - tanto estar o mundo morto como imundo … Continue lendo Cassiano Ricardo – Morrer não será dormir

Cassiano Ricardo – A Cidade Confusa

I A cidade chora lágrimas elétricas sobre o corpo anônimo do eletrocutado. As figuras tétricas que residem, mudas, na parede do templo, me cercam, na rua. Como se eu fosse, acaso, o culpado de algum acontecimento na noite confusa. II O deus unicórnio que há no escudo do rei, e que lhe defende a coroa, … Continue lendo Cassiano Ricardo – A Cidade Confusa

Cassiano Ricardo – Jogo de Xadrez

1 Não posso, sem remorso, ver uma criatura dormindo. Tão sincera, dá-se tanto (tão f o t o g ê n i c a- m e n t e) que me arrependo de não lhe haver sido mais puro quando falávamos, há pouco. A morte, se igual ao sono, absolvido, já, da luta, deverá ser … Continue lendo Cassiano Ricardo – Jogo de Xadrez

Cassiano Ricardo – Ode Pastoril

A paisagem é minha só porque tenho olhos. O pássaro é meu só porque tenho ouvidos. Amo com a mão as coisas que o estar aqui me deu. No universal verde, sou meu ser, não sou eu. Em meu léxico lírico só existem duas palavras, e uma é irmã da outra: a manhã e o … Continue lendo Cassiano Ricardo – Ode Pastoril

Cassiano Ricardo – O Espelho

Um meio-dia nu, numa enorme moldura de prata. Parece mais o escudo de um arcanjo de fogo. Mas não é nada. É apenas um espelho. Um rico espelho. De extraordinário fulgor. Próprio pra ser colocado à parede de um ministério da Fazenda, ou de uma casa de jogo. Toda a cidade cabe dentro dele. Árvores, … Continue lendo Cassiano Ricardo – O Espelho

Cassiano Ricardo – Ladainha

Por que o raciocínio, os músculos, os ossos? A automação, ócio dourado. O cérebro eletrônico, o músculo mecânico mais fáceis que um sorriso. Por que o coração? O de metal não tornará o homem mais cordial, dando-lhe um ritmo extra- corporal? Por que levantar o braço para colher o fruto? A máquina o fará por … Continue lendo Cassiano Ricardo – Ladainha