Mês: agosto 2022
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Paulo Henriques Britto – de “Dez Sonetoides Mancos”

VI Nada de mergulhos. É na superfícieque o real, minúsculo plâncton, se trai.Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneirado funcional. E o sofrimento, ai,esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti-nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, meufilho. Só o raso é…
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Brigit Pegeen Kelly – Canção

Ouça: havia uma cabeça de cabra suspensa por cordas em uma árvore.Por toda noite ela ficou lá pendurada e cantou. E aqueles que a ouviramSentiram um aperto em seus corações e pensaram que estavam ouvindoO canto de uma ave noturna. Eles se sentaram em suas camas e depoisSe deitaram novamente. Na brisa noturna, a cabeça…
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Manuel Bandeira – Poema Só Para Jaime Ovalle

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro(Embora a manhã já estivesse avançada).Chovia.Chovia uma triste chuva de resignaçãoComo contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.Então me levantei,Bebi o café que eu mesmo preparei,Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…– Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog…
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Lawrence Ferlinghetti – Receita para a felicidade em Khabarovsk ou em qualquer lugar

Uma grande avenida arborizadacom uma grande cafeteria ao solcom café preto forte em xícaras muito pequenas. Uma mulher ou um homem não necessariamentemuito bonito(a) que te ame. Um dia aprazível. Trad.: Nelson Santander Recipe For Happiness in Khabarovsk Or Anyplace One grand boulevard with treeswith one grand cafe in sunwith strong black coffee in very…
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Manuel Bandeira – Profundamente

Quando ontem adormeciNa noite de São JoãoHavia alegria e rumorEstrondos de bombas luzes de BengalaVozes, cantigas e risosAo pé das fogueiras acesas. No meio da noite desperteiNão ouvi mais vozes nem risosApenas balõesPassavam errantesSilenciosamenteApenas de vez em quandoO ruído de um bondeCortava o silêncioComo um túnel.Onde estavam os que há poucoDançavamCantavamE riamAo pé das fogueiras…
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Garrett Hongo – Mendocino Rose

Na Califórnia, ao norte da Golden Gate,a vinha cresce por quase todos os cantos, brotando de pastagens,de baixo das sombras dos eucaliptos à beira da estrada,ultrapassando todos os casebres fantasmas e cercas quebradas que se desintegram de podres,encharcadas pelas chuvas frescas. Ela mimetiza, em suas réplicas firmes, parecidas com nuvens, a forma de tudo o que asfixia,uma delicada vegetação treliçada…
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Carlos Drumond de Andrade – Encontro

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho.Se a noite me atribui poder de fuga,sinto logo meu pai e nele ponhoo olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. Está morto, que importa? Inda madrugae seu rosto, nem triste nem risonho,é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxugasuor algum, na calma de meu sonho.…
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Donizete Galvão – Solitude

Juntos, em solitude. Cada qual com sua chaga. Cada qual com sua cruz. Dois corpos ardentes tão próximos, separados pela geografia que a mágoa desenha. Entre os braços, interpõem-se desertos, salinas e dunas. O amor morreu? Não. Condenou-se. Soterrou-se em veios de duro e negro minério. Duas árvores cujas raízes trançaram-se rumo ao fundo. Que…
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Giuseppe Ungaretti – Céu Claro

Bosque de Courton, julho de 1918 Depois de tantanévoaumaa umase desvelamas estrelas Respiroo frescorque me deixaa cor do céu Me reconheçoimagempassageira Presa de um cicloimortal Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 15/09/2017 Sereno Bosco di Courton Iuglio 1918 Dopo tantanebbiaa unaa unasi svelanole stelle. Respiroil frescoche mi lasciail colore del…
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Alison C. Rollins – Para quem me lê agora

Para quem me lê agora depois de Jorge Luis Borges Você é invulnerável.A única constante é a mudança.Tal repetição leva à nostalgiado presente. Tenso e tímidovocê recita este livro de cor. Àscegas, você me confia à memória.O calvo e impertinente filósofosabe que o caráter do homem é o seu destino.Este poema – não vivo, mas…