Margaret Atwood – Um barco

A noite chega e as colinas adensam-se;
desvanecimento rubro e amarelo das folhas.
Os gélidos pinheiros se alongam em suas sombras.

Abaixo deles, a água silencia,
um pôr do sol tremeluzindo nela.
Mais um que desce para se juntar aos outros.

Agora o lago se expande
e se fecha, simultaneamente.

A escuridão que se mantém
sob a superfície durante o dia
emerge dela como a névoa
ou como névoa.

A distância se esvai, a ausência
de distância faz pressão contra os olhos.

Não há como ver o lago,
apenas os contornos das colinas,
que são quase idênticas,

familiares para mim como o sono,
e as margens se desdobrando sobre margens
em seus contornos de lenta respiração.

É pelo tato que eu vou,
o barco como mão sondando
através de cardumes e entre
árvores mortas, elevando-se invisível
sobre os penedos, camada
por camada de tempo afogado desaparecendo.

Foi assim que aprendi a navegar
na escuridão sem estrelas.

Estar perdido é apenas uma falha de memória.

Trad.: Nelson Santander

A Boat

Evening comes on and the hills thicken;
red and yellow bleaching out of the leaves.
The chill pines grow their shadows.

Below them the water stills itself,
a sunset shivering in it.
One more going down to join the others.

Now the lake expands
and closes in, both.

The blackness that keeps itself
under the surface in daytime
emerges from it like mist
or as mist.

Distance vanishes, the absence
of distance pushes against the eyes.

There is no seeing the lake,
only the outlines of the hills
which are almost identical,

familiar to me as sleep,
shores unfolding upon shores
in their contours of slowed breathing.

It is touch I go by,
the boat like a hand feeling
through shoals and among
dead trees, over the boulders
lifting unseen, layer
on layer of drowned time falling away.

This is how I learned to steer
through darkness by no stars.

To be lost is only a failure of memory.

Margaret Atwood – Muitíssimo

Muitíssimo

É uma antiga palavra perdendo o brilho.
Eu queria muitíssimo.
Eu desejava muitíssimo.
Eu o amava muitíssimo.

Eu percorro cautelosamente a calçada
por causa dos meus joelhos feridos,
com os quais eu me importo menos
do que você possa imaginar
já que há outras coisas, mais importantes –
espere e verá –

carregando um café pela metade
em um copo de papel com –
muitíssimo me arrependo –
uma tampa de plástico –
tentando lembrar o que as palavras um dia significaram.

Caríssimos.
Como era usada?
Caríssimos.
Caríssimos, estamos reunidos.
Caríssimos, estamos aqui reunidos
neste álbum de fotos esquecido
que descobri recentemente.

Desbotando agora,
as sépias, o preto e os brancos, as impressões coloridas,
todos muito mais jovens.
As polaróides.
O que é uma polaróide? pergunta o recém-nascido.
Recém-nascido há uma década.

Como explicar?
Você tirava a foto e ela saía por cima.
Por cima de quê?
É este olhar confuso que eu vejo muito.
É tão difícil descrever os menores detalhes de como –
todos aqueles amados reunidos –
de como costumávamos viver.
Embrulhávamos o lixo
em um jornal amarrado com um cordão.
O que é jornal?
Entende o que eu quero dizer?

Cordão, no entanto, ainda temos cordão.
Ele liga as coisas.
Um cordão de pérolas.
Isso é o que eles diriam.

Como controlar os dias?
Todos brilhando,
todos solitários,
e, então, todos partindo.
Mantive alguns deles em um papel na gaveta,
aqueles dias, que agora estão sumindo.
Contas podem ser usadas para contagem.
Como um rosário.
Mas eu não gosto de pedras ao redor do meu pescoço.

Ao longo desta rua há muitas flores,
murchando agora porque é agosto,
empoeirado, e caminhando para o outono.
Em breve os crisântemos florescerão,
flores de defunto, na França.
Não acho que isto seja mórbido.
É apenas a realidade.

É tão difícil descrever os menores detalhes das flores.
Isso é um estame, nada a ver com homem.
Isso é um pistilo, nada a ver com pistola.
São os detalhes pequenos que desorientam os tradutores
e a mim também, tentando descreve-los.
Entende o que eu quero dizer?
Você pode se desgarrar. Você pode se perder.
Palavras podem fazer isso.

Caríssimos, aqui reunidos
nesta gaveta fechada,
desaparecendo agora, sinto falta de vocês.
Sinto falta dos que faltam, daqueles que se foram mais cedo.
Sinto falta até daqueles que ainda estão aqui.
Sinto muitíssimo a falta de todos.
Lamento muitíssimo por você.

Lamento: esta é outra palavra
que já não se ouve muito.
Eu lamento muitíssimo.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: ‘Dearly’ é o penúltimo poema do recém-lançado 18º livro de poesias de Margaret Atwood (Dearly: New Poems, Editora Ecco, lançamento em 10/11/2020). Está inserido na quinta e última parte da obra, denominada ‘This Fiord Looks Like a Lake’, que é inteiramente dedicada ao marido da poeta – Graeme Gibson – falecido em setembro do ano passado.

Sobre esse capítulo, a autora esclarece: “‘This Fiord Looks Like a Lake’ (…) é basicamente sobre Graeme desaparecendo e morrendo. É disso que se trata.” A palavra ‘desaparecendo’, no caso, não é gratuita: Graeme havia recebido um diagnóstico de demência em 2012, e, desde então, ambos passamos a viver com o peso desta sentença: “(…) Estávamos há cinco anos nisso. ‘Qual é o prognóstico?’, ele perguntou na época. ‘Ou vai devagar, ou vai rápido, ou ficará igual, não sabemos”, respondeu o médico. Em agosto de 2017, a doença ainda se movia devagar o suficiente, mas o relógio estava correndo. Nós sabíamos o quê, mas não sabíamos quando. (…) Graeme morreria (…) em setembro de 2019. Ele teve um forte derrame hemorrágico – típico de demência vascular – e se retirou mais ou menos na época e da maneira que ele queria. Rápido, relativamente indolor e enquanto ele ainda era ele mesmo. Nós conversamos muito sobre isso. Tentamos não passar muito tempo sob um manto de tristeza. Conseguimos fazer muitas das coisas que queríamos e extraímos felicidade suficiente de cada hora. Graeme foi pranteado: todos os poemas sobre ele no livro Dearly foram escritos antes de ele realmente morrer.”

Sobre a tradução deste belo poema, cabem algumas explicações.

O poema se constrói em cima da palavra ‘Dearly’, referida pela poeta, logo no primeiro verso, como “uma palavra antiga, que está desaparecendo”. De fato, segundo o “Collins Dictionary”, o advérbio ‘Dearly’, surgido por volta do início dos anos 1700, vem perdendo vitalidade desde então, sendo, atualmente, muito pouco empregado.

O uso de uma palavra em franco desuso é a chave do poema, já que Atwood correlaciona a quase extinção do advérbio, causada pelo passar do tempo, com o que ocorre na vida das pessoas, em especial à última batalha que seu marido estava travando (fato que aparece na poderosa metáfora das fotografias desbotando dentro de uma gaveta) e de como isso afetava a autora.

Para o tradutor do poema, o problema começa com os sentidos polissêmicos da palavra. Em inglês, ‘Dearly’ apresenta três conotações: a) no sentido de ‘muito’, ‘muitíssimo’; b) no sentido de ‘custo’ (‘caro’) ou de algo que causa muito sofrimento ou dano, ou que custa muito dinheiro; e c) no sentido de ‘profundamente’ (‘carinhosamente’, ‘ternamente’, ‘devotadamente’, etc.). No desenrolar do poema, Atwood se vale de mais de um desses sentidos. Por exemplo, na primeira estrofe, ela usa ‘dearly’ no sentido de ‘muito’. Já na quarta, ‘Dearly’ aparece no sentido de ‘caro’, ‘amado’, ‘querido’. Ora, que eu saiba, não existe uma palavra em português que signifique, ao mesmo tempo, ‘muito’ e ‘querido’. Acresça-se o fato de que, segundo a autora, se trata de um advérbio em franco desuso na língua original. Como isso é mencionado logo na abertura do poema e como esse fato – a extinção gradual da palavra no tempo – é fundamental para a estruturação do poema, é imprescindível que a tradução contemple – ou tente contemplar – todas essas nuances. O que, para o tradutor, é um verdadeiro tour de force.

O engraçado é que Atwood tem plena consciência das dificuldades que o seu poema impõem ao tradutor. Tanto que menciona este fato na estrofe: “It’s the smallest details that foil translators / and myself too, trying to describe. / See what I mean. / You can wander away. You can get lost. / Words can do that.” Na estrofe, a autora, ao mesmo tempo em que lembra ao leitor das dificuldades enfrentadas por todo tradutor de poemas, faz a sua profissão de fé no poder das palavras.

Como dito, não foi possível encontrar uma palavra que tivesse os mesmos significados múltiplos da palavra ‘Dearly’ na língua original. No entanto, para resolver o problema proposto no sentido de se tratar de uma palavra em extinção, optei por flexionar os advérbios, em seus sentidos, em superlativos absolutos (“muitíssimo” e “caríssimos”). As traduções literais de ‘Dearly” (“muito”, “caros”, “queridos”, etc.) são usadas normalmente na língua portuguesa e estão longe de virarem língua morta. Já os superlativos absolutos são mais raros, principalmente porque denotam um exagero que poucos escritores se aventuram em empregar. Com um pouco de boa vontade, dá para considerar esses advérbios flexionados no grau máximo como em desuso.

No mais, no link que segue, a poetisa explica as razões do poema (vale a leitura):

https://www.theguardian.com/books/ng-interactive/2020/nov/07/caught-in-times-current-margaret-atwood-on-grief-poetry-and-the-past-four-years

Dearly

It’s an old word, fading now.
Dearly did I wish.
Dearly did I long for.
I loved him dearly.

I make my way along the sidewalk
mindfully, because of my wrecked knees
about which I give less of a shit
than you may imagine
since there are other things, more important –
wait for it, you’ll see –

bearing half a coffee
in a paper cup with –
dearly do I regret it –
a plastic lid –
trying to remember what words once meant.

Dearly.
How was it used?
Dearly beloved.
Dearly beloved, we are gathered.
Dearly beloved, we are gathered here
in this forgotten photo album
I came across recently.

Fading now,
the sepias, the black and whites, the colour prints,
everyone so much younger.
The Polaroids.
What is a Polaroid? asks the newborn.
Newborn a decade ago.

How to explain?
You took the picture and then it came out the top.
The top of what?
It’s that baffled look I see a lot.
So hard to describe the smallest details of how –
all these dearly gathered together –
of how we used to live.
We wrapped up garbage
in newspaper tied with string.
What is newspaper?
You see what I mean.

String though, we still have string.
It links things together.
A string of pearls.
That’s what they would say.

How to keep track of the days?
Each one shining,
each one alone,
each one then gone.
I’ve kept some of them in a drawer on paper,
those days, fading now.
Beads can be used for counting.
As in rosaries.
But I don’t like stones around my neck.

Along this street there are many flowers,
fading now because it is August
and dusty, and heading into fall.
Soon the chrysanthemums will bloom,
flowers of the dead, in France.
Don’t think this is morbid.
It’s just reality.

So hard to describe the smallest details of flowers.
This is a stamen, nothing to do with men.
This is a pistil, nothing to do with guns.
It’s the smallest details that foil translators
and myself too, trying to describe.
See what I mean.
You can wander away. You can get lost.
Words can do that.

Dearly beloved, gathered here together
in this closed drawer,
fading now, I miss you.
I miss the missing, those who left earlier.
I miss even those who are still here.
I miss you all dearly.
Dearly do I sorrow for you.

Sorrow: that’s another word
you don’t hear much any more.
I sorrow dearly.

Margaret Atwood – O momento

O momento em que, depois de muitos anos
de trabalho duro e de uma longa jornada,
encontras-te no centro do teu quarto,
casa, meio acre, milha quadrada, ilha, país,
sabendo por fim como lá chegaste,
e dizes: tudo isso me pertence,

é o mesmo momento em que as árvores desatam
seus braços macios ao teu redor,
as aves reassumem suas vozes,
as falésias se partem e desmoronam,
o ar se afasta de ti como uma onda
e não consegues respirar.

Não, eles sussurram. Nada disso te pertence.
Eras um visitante, vezes sem conta
escalando a montanha, fincando tua bandeira, proclamando.
Nós nunca te pertencemos.
Tu nunca nos encontraste.
Foi sempre o contrário.

Trad.: Nelson Santander

The moment

The moment when, after many years
of hard work and a long voyage
you stand in the centre of your room,
house, half-acre, square mile, island, country,
knowing at last how you got there,
and say, I own this,

is the same moment when the trees unloose
their soft arms from around you,
the birds take back their language,
the cliffs fissure and collapse,
the air moves back from you like a wave
and you can’t breathe.

No, they whisper. You own nothing.
You were a visitor, time after time
climbing the hill, planting the flag, proclaiming.
We never belonged to you.
You never found us.
It was always the other way round.