Há livros que não devem ser lidos às pressas. Joana, de Joan Margarit, é um deles.
Esta página reúne, no Singularidade Poética, a tradução da obra publicada em sequência. Mais do que um conjunto de poemas, Joana é um livro: tem uma respiração própria, uma ordem interna, uma dor que retorna em imagens, vozes, lugares e lembranças.
A leitura começa antes dos poemas, no prólogo, na dedicatória e na oração que antecede a sequência poética. No site, há também uma apresentação editorial de Nelson Santander, que ajuda o leitor brasileiro a entrar na obra. Depois, avança-se texto a texto, como quem atravessa uma casa depois de uma perda: cada quarto guarda alguma coisa, cada objeto parece ainda tocar quem já não está.
Sobre a obra
Joana foi escrito a partir da morte da filha de Joan Margarit. Mas o livro não se reduz a esse fato.
Há luto, sim. Há ausência, memória, família, doença, velhice, fotografias, ruas, música, infância, casa. Mas Margarit não escreve para transformar a dor em explicação. Ele escreve para permanecer diante dela com a maior precisão possível.
O que impressiona em Joana é a sua contenção. Os poemas não gritam. Não procuram comover pela força da cena. Quase sempre partem de algo concreto: uma rua, um quarto, uma lembrança doméstica, uma lápide, uma canção, uma imagem de infância. A partir daí, algo se abre.
Poucos livros conseguem falar da perda com tanta sobriedade e, ao mesmo tempo, com tanta fidelidade ao amor.
Quem foi Joana
Joana Margarit i Ribalta foi filha de Joan Margarit. Viveu entre 1970 e 2001.
No livro, seu nome não aparece apenas como referência biográfica. Joana é presença, ausência, ferida, memória. É filha, corpo, infância, música, casa, rosto lembrado. Em alguns poemas, ela está no centro. Em outros, parece aparecer apenas de lado, como acontece com as pessoas que continuam vivendo dentro de uma família depois que já partiram.
Margarit não a transforma em símbolo abstrato. Essa talvez seja uma das forças do livro. Joana permanece Joana.
O que torna Joana uma obra importante
Ler Joana é entrar em um livro que não tenta vencer a dor pela beleza, nem transformar a poesia em consolo. Essa talvez seja uma das razões de sua força. Joan Margarit sabe que há perdas diante das quais a linguagem chega tarde, chega pouco, chega ferida. Ainda assim, ele escreve. Não para explicar o que aconteceu, mas para permanecer perto do que não pode ser recuperado.
O lugar especial de Joana na obra de Margarit vem dessa coragem contida. O livro não ergue um monumento. Não se protege atrás de grandes abstrações. Também não se entrega ao excesso sentimental. Sua matéria é íntima, mas sua forma é firme. Margarit escreve como quem sabe que o poema precisa carregar alguma coisa sem quebrá-la nas mãos. Há nele uma espécie de pudor: não o pudor de esconder, mas o de não falsificar.
Isso faz de Joana um livro raro. Muitos poemas sobre perda procuram uma saída: a aceitação, a transcendência, a lembrança pacificada, a promessa de que algo se resolve. Margarit parece desconfiar dessas soluções rápidas. Em vez disso, aceita ficar no lugar difícil: o da convivência com uma ausência que continua presente. O livro importa porque não apressa o leitor. Ele não diz: “isto passa”. Diz, de maneira mais dura e mais verdadeira: “isto permanece, e é preciso aprender a viver perto disso”.
Mas Joana não é importante apenas pela gravidade do que aborda. É importante pela maneira como transforma essa gravidade em forma. Margarit é um poeta de grande clareza. Seus poemas costumam partir de imagens reconhecíveis: uma casa, uma rua, uma música, uma fotografia, um gesto familiar. Nada parece feito para impressionar. É justamente por isso impressiona. A simplicidade, nele, não é pobreza de linguagem; é precisão. Ele retira o excesso para que o essencial apareça.
Essa clareza tem algo de moral. Margarit não usa a dor para se engrandecer. Não faz do sofrimento um espetáculo. O leitor sente que cada poema foi escrito contra a tentação de exagerar. Essa contenção dá ao livro uma dignidade difícil de encontrar. Há emoção, mas ela não se derrama. Há amor, mas ele não se anuncia como virtude. Há memória, mas ela não vira ornamento. Tudo parece medido por uma exigência silenciosa: dizer apenas o que ainda pode ser dito com verdade.
Por isso Joana merece ser lido hoje. Vivemos cercados por discursos que pedem respostas rápidas para experiências lentas. A perda, o envelhecimento, a vida familiar, a permanência dos mortos entre os vivos: tudo isso costuma ser empurrado para fórmulas, mensagens, frases de efeito. Margarit oferece o contrário. Ele nos devolve a complexidade dessas experiências sem torná-las inacessíveis. Seus poemas são claros, mas não simplificam. São diretos, mas deixam espaço para o silêncio.
O livro ocupa um ponto central na trajetória do poeta porque nele se encontram muitas das suas forças: a relação entre intimidade e história, a atenção ao espaço doméstico, a consciência da velhice, a proximidade da morte, a música, a cidade, a família, a dureza do amor. Mas em Joana tudo isso parece atravessado por uma necessidade maior. Não há nada decorativo. Cada imagem parece chamada por uma urgência íntima. Cada poema parece existir porque precisava existir.
E talvez seja essa a razão mais forte para ler Joana: o livro não nos promete reparação, mas nos oferece companhia. Uma companhia severa, lúcida, às vezes devastadora, mas profundamente humana. Ele não consola no sentido fácil. Consola, se é que essa palavra cabe aqui, porque não mente. Porque reconhece o tamanho do que foi perdido. Porque permite que o amor continue sem precisar negar a morte.
Entrar em Joana é aceitar uma leitura que pede tempo. Não é um livro para ser vencido. É um livro para ser atravessado. Ao final, talvez o leitor não saia mais leve. Mas sai mais atento. E isso, em poesia, já é muito.
O lugar de Joana na trajetória de Joan Margarit
Joan Margarit escreveu muitas vezes sobre memória, tempo, amor, velhice, morte e perda. Em Joana, esses temas não aparecem como ideias: aparecem como vida.
O livro ocupa um lugar central em sua obra porque reúne aquilo que sua poesia tem de mais reconhecível: clareza, dureza, ternura, pudor emocional e uma confiança absoluta na força das imagens simples.
Margarit é um poeta capaz de dizer coisas difíceis sem obscurecê-las. Em Joana, essa clareza se torna ainda mais necessária. O livro parece saber que certas dores não precisam de ornamento. Precisam de forma.
A nota final escrita por Margarit confirma esse risco. O poeta reconhece que escreveu o livro perto demais dos fatos, contrariando a prudência habitual que recomenda distância entre a vida e o poema. Essa proximidade não enfraquece a obra. Ao contrário: ajuda a entender sua urgência e sua contenção.
Como ler este livro
A melhor maneira de ler Joana é seguir a ordem da obra.
Comece, se desejar, pela apresentação de Nelson Santander, preparada para a publicação no Singularidade Poética. Depois entre nos paratextos do livro: o prólogo, a dedicatória e a oração de Pere Rovira. Só então avance pelos poemas, um a um.
A ordem importa. Ela cria uma aproximação gradual: primeiro o livro se abre, depois a perda se instala, depois a memória começa a organizar os restos.
Ao final, a obra não termina apenas no último poema publicado em sequência. Há uma nota de composição, uma epígrafe de Philip Larkin e a nota final de Margarit. Esses materiais ajudam a perceber como o livro foi escrito e por que recebeu, no fim, o nome mais simples e mais verdadeiro: Joana.
Se quiser voltar depois de interromper a leitura, retome pelo sumário. Ele é o mapa da obra.
Percursos de leitura
Para ler como livro
Siga a ordem completa, da apresentação aos materiais finais da obra. É o percurso mais fiel.
Para entrar pelo centro afetivo
Leia Pai e filha, Mãe e filha, Canção de ninar, Lápide, A espera, Um lugar perdido e No final da noite.
Para perceber a casa, a família e os objetos
Leia Riera Pahissa, Sant Just, 2 de março de 2001, Uma fotografia pendurada na parede, O presente e Forès e Quadro com pássaros.
Para acompanhar a memória dos lugares
Leia Amanhecer em Cádiz, Metrô Fontana, Oceano Atlântico, 1956, Espaço e tempo e Recordações militares.
Para ouvir a música do livro
Leia Manhã de domingo com a música de Lluís Claret, Canção de ninar e Noite de junho.
Sumário completo
Material editorial do Singularidade Poética
Paratextos da obra
- Joana – Prólogo
- Dedicatória
- Oração para J. M. R.
Poemas
- Enquanto tu dormes
- Não há milagres
- Riera Pahissa
- Amanhecer em Cádiz
- Luzes de natal em Sant Just
- Às quatro da madrugada
- Manhã de domingo com a música de Lluís Claret
- Metrô Fontana
- Pai e filha
- Sant Just, 2 de março de 2001
- A felicidade
- Oceano Atlântico, 1956
- História natural
- Água
- Mãe e filha
- Pilhagem
- Súplica
- Mari
- Última caminhada
- Um pobre instante
- O dia depois da morte
- Teu lobo
- Final
- Noite de junho
- Espaço e tempo
- Uma história
- Uma fotografia pendurada na parede
- Passageira
- Recordações militares
- Canção de ninar
- O presente e Forès
- Professor Bonaventura Bassegoda
- O primeiro verão sem ti
- Quadro com pássaros
- Lápide
- A espera
- Um lugar perdido
Encerramento da obra
Na obra original, No final da noite aparece como movimento final junto a Um lugar perdido, e não como item autônomo no índice da obra. Como já foi publicado em página própria, ele pode permanecer como entrada de leitura, mas deve ser entendido como encerramento da obra.
- Nota de composição: Joana foi escrito entre 10 de outubro de 2000 e 1 de setembro de 2001.
- Epígrafe final de Philip Larkin.
- Nota a Joana, de Joan Margarit.
Leia também
- Joan Margarit: poemas traduzidos
- Joan Margarit – Lápide
- Joan Margarit – A espera
- Joan Margarit – Um lugar perdido
- Joan Margarit – No final da noite
Fechamento
Antes de começar, talvez seja bom saber apenas isto: Joana não pede pressa.
Há livros que se abrem melhor quando aceitamos sua gravidade. Este é um deles. Não porque seja difícil no sentido comum, mas porque fala de uma região da experiência em que quase tudo que importa precisa ser dito com cuidado.
Leia um poema. Pare. Volte. Avance. Deixe que os nomes, as casas, as músicas e as fotografias reapareçam. Aos poucos, o livro encontra sua forma: não a de uma explicação para a perda, mas a de uma presença que continua.
Comece pela apresentação. Depois, entre no prólogo. O livro já está à sua espera.

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