Giuseppe Ungaretti – Céu Claro

Bosque de Courton, julho de 1918

Depois de tanta
névoa
uma
a uma
se desvelam
as estrelas

Respiro
o frescor
que me deixa
a cor do céu

Me reconheço
imagem
passageira

Presa de um ciclo
imortal

Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 15/09/2017

Sereno

Bosco di Courton Iuglio 1918

Dopo tanta
nebbia
a una
a una
si svelano
le stelle.

Respiro
il fresco
che mi lascia
il colore del cielo,

mi riconosco
immagine
passeggera

Presa in un giro
immortale

Giacomo Leopardi – O Infinito

Sempre me foi cara esta colina erma
E esta sebe, que de muitos lados
Exclui a visão do último horizonte.
Mas sentado, contemplando, infindáveis
Espaços além dela, e sobre-humanos
Silêncios, e a mais profunda calma
Eu no pensar imagino; e por pouco
Não se amedronta o coração. E o Vento
Ouvindo sussurrar entre essas plantas,
Aquele infinito silêncio a esta voz
Vou comparando: e lembra-me o eterno,
E as estações mortas, e a presente
Viva, e o seu som. Assim na imensidão
Se afoga o meu pensar:
E o naufragar me é doce neste mar

Trad.: Paulo Cesar Souza

REPUBLICAÇÃO. Poema publicado originalmente no blog em 03/03/2016.

L’infinito

Sempre caro mi fu quest’ermo colle,
e questa siepe, che da tanta parte
dell’ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
spazi di là da quella, e sovrumani
silenzi, e profondissima quïete
io nel pensier mi fingo, ove per poco
il cor non si spaura. E come il vento
odo stormir tra queste piante, io quello
infinito silenzio a questa voce
vo comparando: e mi sovvien l’eterno,
e le morte stagioni, e la presente
e viva, e il suon di lei. Così tra questa
immensità s’annega il pensier mio:
e il naufragar m’è dolce in questo mare.

Giuseppe Ungaretti – De uma Estrela à Outra

Daquela estrela à outra
A noite se encarcera
Em turbinosa vazia desmesura,

Daquela solidão de estrela
Àquela solidão de estrela

Trad: Haroldo de Campos

REPUBLICAÇÃO. Poema publicado no blog originalmente em 17/02/2016

Da quella stella all’altra

Da quella stella all’altra
Si carcera la notte
In turbinante vuota dismisura,

Da quella solitudine di stella
A quella solitudine di stella.

Salvatore Quasimodo – E de repente é noite

Cada um está só no coração da terra
traspassado por um raio de sol:
e de repente é noite.

Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti

REPUBLICAÇÃO. Poema publicado no blog originalmente em 17/02/2016.

Ed è subito sera

Ognuno sta solo sul cuor della terra
trafitto da un raggio di sole:
ed è subito sera

Giuseppe Ungaretti – Sentimento do tempo

Sentimento do tempo
1931

E à luz mais própria,
Deixando apenas uma sombra violácea,
Sobre os cimos mais baixos,
A distância aberta ao alcance,
Cada batida, como usa o coração,
Agora escuto,
Apressa-te, tempo, a por-me sobre os lábios
Teu último beijo.

Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti

 

Giuseppe Ungaretti – Sentimento del tempo
1931

E per la luce giusta,
Cadendo solo un ombra viola
Sopra il giogo meno alto,
La lontananza aperta alla misura,
Ogni mio palpito, come usa il cuore,
Ma ora l’ascolto,
T’affretta, tempo, a pormi sulle labbra
Le tue labbra ultime.

Goliarda Sapienza – Para minha mãe

Quando eu voltar
será noite fechada
Quando eu voltar
as coisas estarão quietas
Ninguém vai me esperar
naquele leito de terra
Ninguém vai me acolher
naquele silêncio de terra

Ninguém vai me consolar
por todas as partes já mortas
que carrego em mim
com resignada impotência
Ninguém vai me consolar
pelos instantes perdidos
pelos sons esquecidos
que há tempo
viajam ao meu lado e tornam denso
o respiro, lamacenta a língua

Quando eu chegar
apenas uma fenda
vai conseguir me segurar e mão nenhuma
vai aplanar a terra
sob as faces gélidas e mão
nenhuma vai se opor à pressa
da pá ao seu ritmo indiferente
para aquele fim estranho, repugnante

Pudesse eu naquela noite
vazia pôr a minha testa
no teu grande seio de sempre
Pudesse eu me envolver
com o teu braço e segurando
nas mãos o teu pulso delgado
por pensares agudos
por terrores cortantes
pudesse eu naquela noite
sentir de novo
o meu corpo ao lado do teu vigoroso
materno
gasto de partos tremendos
arrebentado de longas uniões

Mas tão tardia
a minha noite e já
não podes esperar mais
E ninguém vai aplanar a terra
sob o meu flanco
ninguém vai se opor à pressa
que agarra os homens
perante um caixão

Trad.: Valentina Cantori

A mia madre

Quando tornerò
sarà notte fonda
Quando tornerò
saranno mute le cose
Nessuno m’aspetterà
in quel letto di terra
Nessuno m’accoglierà
in quel silenzio di terra

Nessuno mi consolerà
per tutte le parti già morte
che porto in me
con rassegnata impotenza
Nessuno mi consolerà
per quegli attimi perduti
per quei suoni scordati
che da tempo
viaggiano al mio fianco e fanno denso
il respiro, melmosa la lingua

Quando verrò
solo una fessura
basterà a contenermi e nessuna mano
spianerà la terra
sotto le guance gelide e nessuna
mano si opporrà alla fretta
della vanga al suo ritmo indifferente
per quella fine estranea, ripugnante

Potessi in quella notte
vuota posare la mia fronte
sul tuo seno grande di sempre
Potessi rivestirmi
del tuo braccio e tenendo
nelle mani il tuo polso affilato
da pensieri acuminati
da terrori taglienti
potessi in quella notte
risentire
il mio corpo lungo il tuo possente
materno
spossato da parti tremendi
schiantato da lunghi congiungimenti

Ma troppo tarda
la mia notte e tu
non puoi aspettare oltre
E nessuno spianerà la terra

sotto il mio fianco
nessuno si opporrà alla fretta
che prende gli uomini
davanti a una bara

https://escamandro.wordpress.com/2019/03/09/goliarda-sapienza-1924-1996-por-valentina-cantori/

Giuseppe Ungaretti – Céu claro

  Bosque de Courton, julho de 1918

Depois de tanta
névoa
uma
a uma
se desvelam
as estrelas

Respiro
o frescor
que me deixa
a cor do céu

Me reconheço
imagem
passageira

Presa de um ciclo
imortal

Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti

Giuseppe Ungaretti – Sereno

  Bosco di Courton luglio 1918

Dopo tanta
nebbia
a una
a una
si svelano
le stelle

Respiro
il fresco
che mi lascia
il colore del cielo

Mi riconosco
immagine
passeggera

Presa in un giro
Immortale.

Giuseppe Ungaretti – Sou uma criatura

Valloncello di Cima Quattro, 5 de agosto de 1916

Como esta pedra
de S. Michele
tão fria
tão dura
tão seca
tão indiferente
tão completamente
sem ânimo

Como esta pedra
é meu pranto
que não se vê

A morte
se expia
vivendo

Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti

Giuseppe Ungaretti – Sono una creatura

Valloncello di Cima Quattro il 5 agosto 1916

Come questa pietra
del S. Michele
così fredda
così dura
così prosciugata
così refrattaria
così totalmente
disanimata

Come questa pietra
è il mio pianto
che non si vede

La morte
si sconta
vivendo

Giuseppe Ungaretti – Silêncio

  Mariano, 27 de junho de 1916

Conheço uma cidade
que cada dia se enche de sol
e tudo é arrebatado nessa hora

Dela parti uma tarde

No coração perdurava o limar
das cigarras

Do navio
laqueado de branco
vi
minha cidade sumir
deixando
por um instante
no ar toldado um abraço de luzes
suspensas

Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti

Giuseppe Ungaretti – Silenzio

  Mariano, il 27 giugno 1916

Conosco una città
che ogni giorno s’empie di sole
e tutto è rapito in quel momento

Me ne sono andato una sera

Nel cuore durava il limio
delle cicale

Dal bastimento
verniciato di bianco
ho visto
la mia città sparire
lasciando
un poco
un abbraccio di lumi nell’aria torbida
sospesi

Giuseppe Ungaretti – In Memoriam

  Locvizza, 30 de setembro de 1916

Chamava-se
Moammed Sceab

Descendente
de emires de nômades
suicida
porque não tinha mais
Pátria

Amou a França
e mudou de nome

Foi Marcel
mas não era francês
e já não sabia
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Alcorão
saboreando um café

E não sabia
desatar
o canto
do seu abandono

Acompanhei-o
junto com a dona da pensão
onde vivíamos
em Paris
do número 5 da rue des Carmes
esquálido beco em declive

Descansa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre
em dia
de
decomposta feira

E talvez apenas eu
ainda saiba
que viveu

Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti

Giuseppe Ungaretti – In Memoria

  Locvizza il 30 settembre 1916.

Si chiamava
Moammed Sceab

Discendente
di emiri di nomadi
suicida
perché non aveva più
Patria
Amò la Francia
e mutò nome

Fu Marcel
ma non era Francese
e non sapeva più
vivere
nella tenda dei suoi
dove si ascolta la cantilena
del Corano
gustando un caffè

E non sapeva
sciogliere
il canto
del suo abbandono

L’ho accompagnato
insieme alla padrona dell’albergo
dove abitavamo
a Parigi
dal numero 5 della rue des Carmes
appassito vicolo in discesa.

Riposa
nel camposanto d’Ivry
sobborgo che pare
sempre
in una giornata
di una
decomposta fiera

E forse io solo
so ancora
che visse