Robinson Jeffers – Carmel Point

A extraordinária paciência das coisas!
Este belo lugar desfigurado por uma safra de casas suburbanas —
Quão belo quando o vimos pela primeira vez,
Um campo intacto de papoulas e tremoceiros cercado por límpidas falésias;
Nenhuma intrusão, salvo dois ou três cavalos pastando,
Ou algumas vacas leiteiras esfregando seus flancos nos afloramentos rochosos —
Então chega o espoliador: elas se importam?
Francamente, não, pois têm todo o tempo. Elas sabem que as pessoas são como uma maré
Que sobe e com o tempo reflui, e que todas as
Suas obras se dissolvem. Enquanto isso, a imagem da beleza intocada
Vive no próprio grão do granito.
Segura como o mar sem fim que escala nossas falésias. — Quanto a nós:
Devemos des-centralizar nossas mentes de nós mesmos;
Devemos des-humanizar um pouco nossos pontos de vista, e tornarmo-nos confiantes
Como a rocha e o oceano dos quais fomos feitos.

Trad.: Nelson Santander

Carmel Point

The extraordinary patience of things!
This beautiful place defaced with a crop of suburban houses —
How beautiful when we first beheld it,
Unbroken field of poppy and lupin walled with clean cliffs;
No intrusion but two or three horses pasturing,
Or a few milch cows rubbing their flanks on the outcrop rock-heads —
Now the spoiler has come: does it care?
Not faintly. It has all time. It knows the people are a tide
That swells and in time will ebb, and all
Their works dissolve. Meanwhile the image of the pristine beauty
Lives in the very grain of the granite.
Safe as the endless ocean that climbs our cliff. — As for us:
We must uncenter our minds from ourselves;
We must unhumanize our views a little, and become confident
As the rock and ocean that we were made from.

Robinson Jeffers – A canção da quietude

Bebe, bebe profundamente da quietude,
     E às margens do mar-imensidão
Esquece de tua aflição, amiúde,
     E de todas as misérias que virão.
Mais calmo e frio do que a neblina,
Que se desdobra e se inclina
Sobre o vale escuro, e se rebobina,
     Aprende a ser.

 

O Passado — foi um sonho ardente,
     Um sono bêbado cheio de lamentos.
O Futuro — Ó brilho de asas frementes
     Levadas pela van dos anos de desalentos!
Amaste o entardecer: cintilação
Da aurora; foi-se a escuridão: —
Quais perigos te motivam,
     Quais sonhos são mais violentos?

 

Cinza, entretanto, ainda está o oriente;
     A hora, incolor; os galos, mudos até agora,
Alegra-te às vésperas do sol nascente,
     Descansa um pouco enquanto não chega a aurora:
Aqui, na floresta feiticeira,
A névoa marinha inunda a noite inteira, —
A tua solidão derradeira,
     Tua casa pelo ano afora.

 

Song of Quietness

 

Drink deep, drink deep of quietness,
     And on the margins of the sea
Remember not thine old distress
     Nor all the miseries to be.
Calmer than mists, and cold
As they, that fold on fold
Up the dim valley are rolled,
     Learn thou to be.

The Past—it was a feverish dream,
     A drunken slumber full of tears.
The Future—O what wild wings gleam,
     Wheeled in the van of desperate years!
Thou lovedst the evening: dawn
Glimmers; the night is gone:—
What dangers lure thee on,
     What dreams more fierce?

But meanwhile, now the east is gray,
     The hour is pale, the cocks yet dumb,
Be glad before the birth of day,
     Take thy brief rest ere morning come:
Here in the beautiful woods
All night the sea-mist floods,—
Thy last of solitudes,
     Thy yearlong home.

Robinson Jeffers – Falcão ferido

Falcão Ferido

I

A pilastra quebrada da asa avulta da espádua coagulada,
A asa se arrasta como um estandarte do fracasso,
Não mais usar o céu para sempre, mas viver com fome
E dor por alguns dias: um gato ou um coiote
Encurtarão a semana de espera pela morte: há jogos sem garras.
Ele permanece sob o arbusto e espera
O pé capenga da redenção; à noite, ele se lembra da liberdade
E voeja em um sonho, que a aurora arruína.
Ele é forte e a dor e a incapacidade são piores para os fortes.
A danação do dia chega e o atormenta
À distância, ninguém além da morte, a redentora, humilhará esta cabeça,
A intrépida prontidão, os terríveis olhos.
O feroz Deus do mundo às vezes é clemente com os
Que pedem clemência, raramente com os arrogantes.
Vocês, pessoas da comunidade, não O conhecem, ou O esqueceram;
Intemperante e selvagem, o falcão se lembra;
Belos e selvagens, os falcões, e os moribundos, se lembram.

II

Não fosse a punição, eu preferiria matar um homem a um falcão; mas o grande cauda-vermelha
Não tinha mais nada além da dor incapacitante
De ossos quebrados para além da cura, e da asa que se arrastava sob suas garras
quando ele se movia.
Nós o alimentamos por seis semanas, eu lhe dei a liberdade,
Ele vagueou sobre o promontório da colina e retornou à noite, pedindo para morrer,
Não como um mendigo, nos olhos ainda a velha
E implacável arrogância. Ao crepúsculo, dei-lhe a dádiva almejada. O que caiu foram plumas femininas coruja-aveludadas, calmas e suaves. Mas o que
Ascendeu: a ânsia feroz: as garças-reais à beira do rio cheio gritaram de medo em sua subida
Antes de se desvencilhar completamente da realidade.

Trad.: Nelson Santander

Hurt Hawks

I

The broken pillar of the wing jags from the clotted shoulder,
The wing trails like a banner in defeat,
No more to use the sky forever but live with famine
And pain a few days: cat nor coyote
Will shorten the week of waiting for death, there is game without talons.
He stands under the oak-bush and waits
The lame feet of salvation; at night he remembers freedom
And flies in a dream, the dawns ruin it.
He is strong and pain is worse to the strong, incapacity is worse.
The curs of the day come and torment him
At distance, no one but death the redeemer will humble that head,
The intrepid readiness, the terrible eyes.
The wild God of the world is sometimes merciful to those
That ask mercy, not often to the arrogant.
You do not know him, you communal people, or you have forgotten him;
Intemperate and savage, the hawk remembers him;
Beautiful and wild, the hawks, and men that are dying, remember him.

II

I’d sooner, except the penalties, kill a man than a hawk; but the great redtail
Had nothing left but unable misery
From the bones too shattered for mending, the wing that trailed under his talons when he moved.
We had fed him six weeks, I gave him freedom,
He wandered over the foreland hill and returned in the evening, asking for death,
Not like a beggar, still eyed with the old
Implacable arrogance. I gave him the lead gift in the twilight. What fell was relaxed,
Owl-downy, soft feminine feathers; but what
Soared: the fierce rush: the night-herons by the flooded river cried fear at its rising
Before it was quite unsheathed from reality.

Robinson Jeffers – Sem Título

​Isto quase anula meu medo de morrer, meu amor falou,
Quando eu penso em cremação.
Apodrecer na terra
É um fim abominável, mas arder em
chamas — além disso, estou habituada,
Eu ardi com amor ou fúria tanto
em minha vida,
Não à toa meu corpo está cansado, não à toa está morrendo.
Nós fomos felizes com meu corpo.
Espalhe as cinzas.

Trad.: André Caramuru

Robinson Jeffers – The Inhumanist (Parte II de “The Double Axe”) (excerto)

Chegará um tempo, sem dúvida,
Em que também o sol morrerá; os planetas congelarão
e o ar sobre eles; gases congelados, com flocos de ar
Serão a poeira: que nenhum vento jamais bulirá:
essa poeira mesma a cintilar à luz baixa dos astros
É o vento morto, o corpo branco do vento.

Também a galáxia morrerá; o brilho da Via Láctea,
nosso universo, todos os astros que têm nomes estão mortos.
Vasta é a noite. Cresceste tanto, querida noite,
andando por teus salões vazios, tão alta!