Inês Dias – Um estranho no meu túmulo

Chegamos tarde a nós. Eu tinha a pele gasta, o coração no fio. Tu eras um longo muro de cimento areado em que deixava a carne inteira a caminho do encontro. A primavera ficava-nos sempre à esquerda e tu cada vez mais dentro de mim até não sentir nada, até estares já do outro lado. … Continue lendo Inês Dias – Um estranho no meu túmulo

Inês Dias – (Primeira Memória)

No ano da morte da última beguina, que nunca precisara do desassossego de ver, chegou finalmente à Terra a primeira luz do mundo. 380 mil anos até comprovarmos, como a História nunca se cansara, aliás, de repetir, que tudo é trevas, instável equilíbrio entre matéria e energia escuras. Em suma, a humanidade devolvida num saco … Continue lendo Inês Dias – (Primeira Memória)

Antonia Pozzi – Desalento

Tristeza destas minhas mãos demasiado pesadas para não abrirem feridas, demasiado leves para deixarem marca – tristeza desta minha boca que diz as mesmas palavras que tu – significando outras coisas – e esta é a expressão da mais desesperada distância. Trad.: Inês Dias Sfiducia Tristezza di queste mie mani troppo pesanti per non aprire … Continue lendo Antonia Pozzi – Desalento

Inês Dias – Joaquim e Judite

Fizera toda a viagem com ele ao colo. Queria despedir-se junto ao mar, mas as partidas são tão imperfeitas se o coração é uma caixa de cinzas demasiado enferrujada para abrir ao vento. Mesmo agora, depois de lavada a última partícula que se lhe colara à pele, sabia que o amor passara a ter o … Continue lendo Inês Dias – Joaquim e Judite

Inês Dias – Reconquista

Do meu bisavô, ferreiro e construtor de pontes, conheci apenas as iniciais, gravadas na pedra com que tomara o último dos elementos. Mas a sul do passado, o meu avô repetia-lhe ainda os gestos, ensinando-me a travar as marés com pequenos diques improvisados – paus de gelado, seixos, pedacinhos de cordel. Nunca mais o futuro … Continue lendo Inês Dias – Reconquista

Inês Dias – Lei Sálica

As mulheres da família sempre tiveram um jeito quase póstumo de existir: guardar o lume em silêncio, comer depois de servir os outros, morrer primeiro. Saíam à hora de ponta do destino para lerem os caminhos perdidos e coleccionavam a abdicação em caixinhas de folha, entre bilhetes caducados ou dentes de infâncias alheias. Esperavam a … Continue lendo Inês Dias – Lei Sálica

Inês Dias – Your Funeral, my Trial

O morto fica mais só quando quem fala lhe rouba a última memória desse barco desmesurado da infância, construído sem vista para o mar. O morto fica mais só ainda, quando quem ouve se esquece da música para escolher o seu próprio funeral, alinhando convidados e preferindo coroas de plástico a condizer com as lágrimas. … Continue lendo Inês Dias – Your Funeral, my Trial