Marie Howe – Singularidade

Singularidade

(depois de Stephen Hawking)

Você às vezes não gostaria de acordar para a singularidade
que um dia fomos?

tão compactos ninguém
precisava de cama, ou comida, ou dinheiro —

ninguém se escondendo no banheiro da escola
ou sozinho em casa

abrindo a gaveta
onde os comprimidos são guardados.

Pois cada átomo que pertence a mim
Pertence a você. Lembra-se?

Não havia Natureza. Não havia
eles. Nem testes

para determinar se o elefante
sofre por sua cria ou se

o recife de coral sente dor. Oceanos
arruinados não falam Inglês ou Farsi ou Francês;

se pudéssemos acordar para o que éramos
— quando éramos oceano e antes disso

quando o céu era terra, e o animal, energia, e a rocha era
líquida e as estrelas eram espaço e espaço não era

nada — nada

antes de começarmos a acreditar que os humanos eram tão importantes
diante desta terrível solidão.

Podem as moléculas se lembrar?
o que uma vez foi? antes de algo acontecer?

Não Eu, não Nós, ninguém. Não havia
o verbo, nem o substantivo
só um ponto muito minúsculo repleto de

é é é é é

A totalidade de tudo em casa

Trad.: Nelson Santander

Singularity


(after Stephen Hawking)

Do you sometimes want to wake up to the singularity
we once were?

so compact nobody
needed a bed, or food or money —

nobody hiding in the school bathroom
or home alone

pulling open the drawer
where the pills are kept.

For every atom belonging to me as good
Belongs to you. Remember?

There was no Nature. No
them. No tests

to determine if the elephant
grieves her calf or if

the coral reef feels pain. Trashed
oceans don’t speak English or Farsi or French;

would that we could wake up to what we were
— when we were ocean and before that

to when sky was earth, and animal was energy, and rock was
liquid and stars were space and space was not

at all — nothing

before we came to believe humans were so important
before this awful loneliness.

Can molecules recall it?
what once was? before anything happened?

No I, no We, no one. No was
No verb no noun
only a tiny tiny dot brimming with

is is is is is

All everything home

Marie Howe – Quantas vezes

Não importa quantas vezes eu tente, não consigo impedir meu pai
de entrar no quarto da minha irmã

e não consigo ver melhor, inclinando-me daqui para olhar
em seus olhos. Está escuro no corredor

e todos estão dormindo. Este é o passado
onde tudo já está perfeito e nada muda,

onde o copo de água cai no chão do banheiro
e quica uma vez antes de quebrar.

Nada. Nem o som baixo que minha irmã emite, ao virar,
nem o baque da cauda do cachorro

que abre um olho para vê-lo cambaleando de volta para a cama
ainda bêbado, um pouco desorientado.

Isto é exatamente como eu sabia que seria.
E se eu murmurar o nome dela, sibilando um alerta,

o que tenho feito há anos, o cachorro ainda
se assusta e rosna até perceber

que é o nosso pai, e a porta ainda se abre, e ela
ainda emite aquele pequeno oh ao virar.

Trad.: Nelson Santander

How many times

No matter how many times I try I can’t stop my father
from walking into my sister’s room

and I can’t see any better, leaning from here to look
in his eyes. It’s dark in the hall

and everyone’s sleeping. This is the past
where everything is perfect already and nothing changes,

where the water glass falls to the bathroom floor
and bounces once before breaking.

Nothing. Not the small sound my sister makes, turning
over, not the thump of the dog’s tail

when he opens one eye to see him stumbling back to bed
still drunk, a little bewildered.

This is exactly as I knew it would be.
And if I whisper her name, hissing a warning,

I’ve been doing that for years now, and still the dog
startles and growls until he sees

it’s our father, and still the door opens, and she
makes that small oh turning over.

Marie Howe – Meus amigos mortos

Comecei,
quando estou cansada e não consigo decidir a resposta que devo dar a uma pergunta desconcertante,

a pedir a opinião dos meus amigos mortos
e frequentemente a resposta é imediata e clara.

Devo aceitar o emprego? Mudar-me para a cidade? Devo tentar conceber um filho
em minha meia idade?

Em uníssono, eles balançam suas cabeças e sorriem – o que quer que conduza
à felicidade, eles sempre respondem,

a mais vida e menos preocupação. Eu olho para a urna onde estavam as cinzas de Billy –
é verde ali, uma urna verde,

e pergunto-lhe se devo retornar a complicada ligação, e ele diz: sim.
Billy já passou pelo apavorante portal,

o que quer que ele diga, eu farei.

Trad.: Nelson Santander

My Dead Friends

I have begun,
when I’m weary and can’t decide an answer to a bewildering question

to ask my dead friends for their opinion
and the answer is often immediate and clear.

Should I take the job? Move to the city? Should I try to conceive a child
in my middle age?

They stand in unison shaking their heads and smiling — whatever leads
to joy, they always answer,

to more life and less worry. I look into the vase where Billy’s ashes were –
it’s green in there, a green vase,

and I ask Billy if I should return the difficult phone call, and he says, yes.
Billy’s already gone through the frightening door,

whatever he says, I’ll do.