Nelson Santander – O dia em que meu pai ouviu a voz de Deus

O conhecido escritor de ficção científica Arthur C. Clarke formulou três “leis” acerca da relação entre o homem e a tecnologia que ficaram muito famosas. Dentre elas, a mais conhecida é a terceira, que reza:

“Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.”

Lembrei dessa Lei quando, em um certo domingo, fui visitar meus pais. Antes mesmo que eu tivesse tempo de tomar um cafezinho, meu pai disparou, com um olhar esquisito:

“Eu sei que você não acredita em sobrenatural, mas aconteceu uma coisa estranha comigo”.

Normalmente, quando alguém que conhece meu ceticismo tenta me convencer de algo sobrenatural, costuma me lançar um olhar que é um misto de temor e desafio. Mas não era esse o olhar do meu pai. Para mim a princípio me pareceu o olhar de quem, em face do desconhecido, quer ser convencido de que nada de extraordinário aconteceu, e que o mundo pode seguir seu curso regular novamente.

Ele então me contou que na semana anterior havia ligado a TV e que, inusitadamente, o aparelho não sintonizou no “Brasil Urgente” (sim, meu pai era meio que fã do Datena… ). De forma surpreendente, a tela ficou escura e então os auto-falantes da TV começaram a reproduzir uma música, segundo ele, “maravilhosa”. Meu pai paralisou, confuso. Ele tentou voltar para o Datena, mas não conseguiu. Vencido pela beleza da orquestração, sentou-se no sofá e pôs-se a ouvir o que saía da TV. Depois daquela música, outra se seguiu. E outra. E outra. Todas completamente desconhecidas pra ele, mas absurdamente lindas (ele não usou precisamente essas palavras, mas era isso que seus olhos diziam). E assim se passaram mais de três horas em que meu pai, embora assustado por estar testemunhando um evento estranho, não conseguia deixar de apreciar o momento. Depois que o som cessou, ele tentou que a TV tocasse novamente aquelas canções, mas tudo o que conseguiu foi dar de cara com o Datena narrando a história de mais um esquartejamento.

Mas, para a sua decepção, ele não mais conseguiu fazer a TV falar com ele com aquelas melodias.

Quando concluiu sua narrativa, ele me perguntou, genuinamente curioso, mas ainda um tanto quanto espantado: “E aí?”, o olhar desafiador finalmente surgindo.

À essa altura, eu já estava com um meio-sorriso no rosto. Chamei-o à sala, fui até a TV, liguei o aparelho, fiz a minha “magia” e de repente, o adágio do Concerto para Clarineta em A maior, K.622, de Mozart, inundava a sala, sob o olhar atento e extasiado do meu pai. Na sequência, veio a famosa Ária na corda sol, de Bach, seguida do Adágio em Sol Menor, de Albinoni. Só então ele se lembrou de me perguntar como eu tinha conseguido fazer aquilo.

Desliguei a TV, estiquei a mão e, tateando na parte de trás do aparelho, retirei o pendrive que eu havia colocado lá na última visita que fizera à casa dele, um mês antes. Na ocasião, eu havia tentado de toda forma ensinar meu pai a acessar o pendrive pelo controle remoto para que pudesse ouvir uma playlist de músicas clássicas em MP3 que eu havia criado especialmente pra ele. Sem sucesso. Meu pai sempre foi uma tragédia com equipamentos eletrônicos, mal e mal sabendo ligar a TV e colocar nos canais que ele gosta de assistir. Desisti de explicar e acabei esquecendo o pendrive lá. De alguma maneira, ao tentar sintonizar em seu programa na TV, meu pai apertou algum botão errado no controle e acessou a pasta com a playlist que eu havia gravado pra ele. Como não conhecia aquelas músicas e como a TV não estava ligada em nenhum canal, ele ficou tentando imaginar o que acontecera, e não chegou a nenhuma conclusão lógica. Portanto, concluiu, só podia ser algo sobrenatural. “Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.”

Depois que mostrei que não havia nada de extraordinário no que acontecera com ele, a reação do meu pai foi muito interessante. Claramente, ele ficou um pouco envergonhado por ter pensado que havia testemunhado um milagre quando tudo não passara de um feito tecnológico. De entremeio com a vergonha, percebi também uma genuína frustração. Não sei se traduzo adequadamente, mas minha intuição é a de que ele talvez tenha imaginado que algo, ou “A Voz”, o havia escolhido para lhe mostrar a Sua obra: músicas divinas que ninguém jamais ouvira, a não ser ele.

Mas o mais interessante foi que, depois de ter descoberto que não eram divinas, mas humanas as canções que o haviam arrebatado, seu interesse por elas claramente diminuiu:

– São bonitas sim, Nelsinho. Mas você sabe, eu gosto é de música orquestrada, Glenn Miller, Billy Vaughn. E Ray Conniff. Conhece? “Besame Mucho” é que é música!

Não sei se existe alguma lição a se tirar do episódio. Meu olhar cético para as coisas tende a achar graça na necessidade que as pessoas têm de encontrar o divino em qualquer fenômeno natural ou humano desconhecido ou inusitado com o qual se deparam. Meu velho pai achava que estava ouvindo a voz de Deus, quando na verdade eram os humanos Mozart, Beethoven, Chopin e etc. quem lhe falavam por meio de suas árias, adágios e andantes.

Mas minha visão seria totalmente limitada se eu negasse que uma outra leitura desse tipo de evento é também possível: não seriam essas canções uma forma que o Incognoscível encontrou para falar com os seres humanos? E, nesse contexto, não seriam os compositores e músicos apenas como aparelhos de TV nos quais Ele espetou Seu pendrive divino para emitir o Seu som e a Sua voz?

(relato retirado da página de perfil do autor no Facebook)

Nelson Santander – O ano novo inalcançável

Meu xará Nelson Motta costuma afirmar, sem firulas, que a música americana é a melhor do mundo. O jornalista, compositor, escritor, roteirista, produtor musical, teatrólogo e letrista paulista radicado no Rio de Janeiro dispensa apresentações: sua extensa produção em todos os quadrantes da atividade musical – da produção à composição, passando pela crítica e história da música – lhe conferem um certo estatuto privilegiado para falar sobre o tema. Se ele diz que a música americana é a melhor do planeta, não sou eu quem irá contradita-lo.

É uma afirmação ousada, concordo. Afinal, todo país conta com artistas capazes de engendrar uma gama de produções artísticas de alta qualidade. Mas não dá para negar que, por uma série de razões (que vão da riqueza econômica do país mais rico do planeta à diversidade cultural que se verifica entre as diversas regiões do país, passando por um sistema educacional que incentiva as atividades voltadas às artes), a produção cultural americana é farta e diversificada. Em um ambiente assim, quase darwiniano, é enorme a possibilidade de que novos artistas talentosos possam surgir. Por sua visibilidade, o campo musical é onde essa profusão se revela com maior clareza: do rock ao jazz, do country à música clássica, do pop ao blues, não há nenhuma forma de expressão musical que os americanos não dominem com maestria. Nos estilos mais populares – mesmo no pop -, melodias sofisticadas costumam vir de par com letras muito bem escritas.

É o caso da pequena pérola chamada This Year, do The White Buffalo – nome artístico do cantor compositor americano Jake Smith -, que publiquei pela primeira vez no blog há dois anos, e à qual eu sempre retorno nos finais de ano. Pouco conhecido do público brasileiro – e mesmo do grande público americano -, Jake Smith já tem uma sólida carreira musical, iniciada com o lançamento de seu primeiro álbum – Hogtied Like a Rodeo – em 2002. Os fãs da série Sons of Anarchy talvez o conheçam porque várias canções interpretadas (e algumas compostas) por ele fizeram parte da trilha sonora do seriado (“Come Join The Murder”,  “Matador”, “Damned”, “Wish It Was True”, “House of the Rising Sun” (com os The Forest Rangers), “The Whistler”, “Set My Body Free”, “Sweet Hereafter”, “Oh Darling, what have I done” e “Bohemian Rhapsody” (também com os The Forest Rangers).

Para alguém que topa com o seu trabalho pela primeira vez, duas coisas impressionam: primeiro, o vozeirão e a técnica vocal do cara. Realmente, é assombroso como ele canta bem. E segundo, a qualidade das suas canções. Influenciado por dois gêneros aparentemente inconciliáveis – o country (o estilo musical favorito de seus pais) e o punk rock, mais rock, soul, folk, blues – suas melodias são belas e variadas. Muitas vezes, imprevisíveis. Sobre suas letras, o artista costuma dizer que, por apreciar “músicas realmente honestas”, como as de Bob Dylan, Leonard Cohen, Elliot Smith e Kris Kristofferson, seu objetivo ao escrever é sempre abordar os temas “de uma forma real, de uma forma honesta”:

“Eu entro em cada personagem e o empurro o mais longe que posso. Por exemplo, “If I Lost My Eyes” é uma canção do novo álbum (ele se refere ao álbum de 2019, “Darkest Darks, Lightest Lights”), é muito sombria e baseada na ideia de que se você perder suas faculdades mentais, seu companheiro ficará com você, ele preencherá esse vazio?” (https://www.musicradar.com/news/the-white-buffalo-youre-just-trying-to-hit-people-in-the-heart-with-songs)

This Year é a nona canção do álbum Shadows, Greys & Evil Ways (um puta álbum, diga-se de passagem). Trata-se de um folk-rock cuja melodia e arranjos seguem, em termos de cadência e força, a história contada na letra, emprestando à canção um sentido mais completo. A letra acompanha por um ano a história da vida de um típico looser americano. Jake Smith se vale da passagem das estações (inverno, primavera, verão, outono e inverno novamente) para indicar o estado de espírito do personagem que conta sua história em primeira pessoa.

O ciclo se inicia com a virada do ano (que ocorre no inverno norte-americano). A força do compositor já pode ser sentida nos primeiros versos que, embora descrevam a euforia típica que toma conta das pessoas nas festas de fim de ano, revelam que se trata de uma falsa felicidade – pelo menos do ponto de vista do personagem que fala de si e de suas agruras. Sob esse aspecto, são reveladoras, nessa primeira parte, os versos “O ano novo veio com o mesmo velho elenco”, “Nós dançamos e bebemos como se ele fosse o último” e “Vamos nos concentrar nesta noite única / E apenas torcer para que cheguemos em casa vivos”.

Com a chegada da primavera – que marca, psicologicamente, o início efetivo do ano dos EUA após a temporada de inverno -, o personagem parece se animar. Para demonstrar o novo estado de espírito do homem, o compositor enfileira versos que, sem explicitar a leveza de espírito do personagem, mostram que ele está atento ao que ocorre ao seu redor:

Os dias ficam mais longos, e as noites mais curtas
A mãe acorda um pouco mais radiante do que antes
O gelo derrete e os jardins florescem
O ar fresco e os campos são adoráveis
A grama e os narcisos fazem cócegas em nossos pés
As flores, elas desabrocham e os pássaros, eles cantam
Preenchendo o dia com as melodias que eles produzem

Mas nosso depressivo personagem, embora perceba a beleza da nova estação, não se deixa afetar muito por ela. Conquanto flores e pássaros cantem na sua frente, ele não sente “mais vontade de cantar”, pois, para ele “as estações mudam”, mas ele não muda “em nada”. De toda forma, mesmo consciente de estar sujeito a erros e acertos, ele acredita ser possível “melhorar” e ser “diferente” no ano que se inicia.

O verão é a única estação do ano em que o personagem parece se livrar de seu estado depressivo e acreditar que tudo pode realmente mudar para melhor. É o que ele afirma, peremptoriamente e não sem uma ponta de desconfiança, após descrever como as pessoas e coisas se comportam na estação do ano mais alegre:

Oh, o futuro, o futuro parece promissor
Eu até acho que posso acertar tudo, afinal

Mas chega, então, o “melancólico outono”, soprando “para longe os ventos do verão”. A metáfora não é gratuita. A chegada do outono que expulsa o verão marca o início da derrocada anual do personagem. Jake Smith se vale como nunca dos efeitos causados pelo outono no clima e na natureza para explicitar os dramas internos e externos enfrentados pelo personagem. “As folhas caem das árvores” e ele percebe que nunca mais as verá novamente – constatando que a fase boa de sua vida naquele ano já acabou. O personagem então diz que é hora de se recolher, “ficar dentro de casa”. Os próximos versos – terríveis – também usam as mudanças típicas sofridas pela natureza no outono americano para demonstrar com toda força o grau de devastação interna do personagem:

Sem flores, nem frutos, e os gramados todos morrem
Como pode tudo desmoronar tão rápido?
E por que eu achei que iria durar?
Quando tudo está morrendo, como eu posso me sentir vivo?
Oh, a vida é curta, e todos os dias bons desapareceram

O personagem constata então que talvez esteve “perdido” até aquele momento. Com o restinho de forças que lhe restam, ainda tem a esperança de que talvez possa se encontrar no ano que já vai terminando.

Mas então chega o inverno, a mais terrível das estações para um depressivo. O personagem, que havia se recolhido dentro de casa no outono, é dela arrancado à força pelo inverno, que lhe “derruba a porta” e faz o seu sangue fluir. Ao contrário do que acontecia na primavera (Os “dias ficam mais longos, e as noites mais curtas”), agora os “dias são muito curtos e as noites muito longas”. O natal está próximo, mas não traz felicidade nenhuma, até porque, “todo o dinheiro se foi”, sem que o personagem saiba “para onde”: “O natal não é fácil quando você não pode pagar o aluguel”. É quando “as luzes se apagam para uma noite infeliz”*. À essa altura, embora o personagem saiba que não pode desistir (pois “tudo o que você pode fazer é persistir na luta”), ele tem a plena consciência de que já perdeu o jogo. E de lavada. E sabe que não tem mais tempo para reverter o resultado:

Oh, a vida é dura, eu tenho lutado: um fracasso.
Talvez eu tenha estado perdido
Não acho que eu irei me encontrar
Este ano

Os versos finais da canção são um verdadeiro exercício de resignação e, surpreendentemente, de esperança. Ele de novo reconhece seus erros e acertos e renova a esperança de que talvez consiga melhorar e de que pode ser que o ano seja diferente. Mas não esse, que acabou. O próximo. A sacada de Jake Smith, aqui, é repetir quase que integralmente o verso em que ele anunciava que o ano que se iniciava talvez pudesse ser diferente para melhor (“Maybe I’ll get better, maybe I’ll be different, this year”), alterando apenas uma palavra: this é substituída por next. Com isso, o personagem promove o realinhamento de sua vida fracassada com o ano que se inicia, na esperança de que neste ano novo tudo possa melhorar – evidenciando, portanto, o caráter circular da letra da canção.

Publiquei pela primeira vez o vídeo legendado desta canção (com alguns erros de tradução, devidamente corrigidos abaixo) no dia 31 de dezembro de 2018. O vídeo vinha acompanhado do seguinte texto:

Acho que toda mensagem de “Feliz Ano Novo” se resume à ideia contida na letra desta música: tente melhorar sempre e sempre. Se não der, tente de novo no ano que vem. E no outro. E no outro. Uma hora dá certo. Ou não.

Feliz 2019!

Dois anos depois, em 31 de dezembro de 2020 – o grande ano da peste – continuo pensando desta forma. Só que hoje estou bem menos esperançoso.

Feliz 2021! Se você conseguir.

* N. do T.: o verso original é assim: And the lights go out to a silent night. Silent Night é o nome de uma das canções natalinas mais conhecidas em todo o planeta. No Brasil, ela foi conhecida por Noite Feliz. Traduzido literalmente, o verso original ficaria mais ou menos assim: E as luzes se apagam para uma noite silenciosa. Para tentar aproveitar o efeito poético da paráfrase usada pelo compositor, também me vali do título em português da canção, mas invertendo o adjetivo de feliz para infeliz, o que, acredito, não afetou o sentido original pretendido pelo autor da canção).

Para quem quiser conhecer mais do trabalho do The White Buffalo, seguem alguns links interessantes:

O site oficial do artista: https://thewhitebuffalo.com/

O canal oficial do artista no Youtube (no qual, dentre outros materiais, periodicamente ele publica uns vídeos divertidíssimos da série “In the garage”, gravados literalmente na garagem da casa dele): https://thewhitebuffalo.com/

Playlist no Spotify com minhas canções preferidas do artista (não inclui as do último álbum – “On the Widow’s Walk”, pois ainda não o decantei completamente): https://open.spotify.com/playlist/2ItEZZwARmif2nWwl93o5x

Este ano

Outro ano mais velho, ele veio e se foi
O sangue, as lágrimas e o dinheiro gasto
O ano novo veio com o mesmo velho elenco
Nós dançamos e bebemos como se ele fosse o último
Agitando e esperando que a contagem regressiva comece
Em câmara lenta, do dez até o um
Um beijo e os fogos de artifício iluminam o céu
Caindo aos pedaços durante a “Auld Lang Syne”
Vamos nos concentrar nesta noite única
E apenas torcer para que cheguemos em casa vivos

A terra gira, a primavera se precipita
Os dias ficam mais longos, e as noites mais curtas
A mãe acorda um pouco mais radiante do que antes
O gelo derrete e os jardins florescem
O ar fresco e os campos são adoráveis
A grama e os narcisos fazem cócegas em nossos pés
As flores, elas desabrocham e os pássaros, eles cantam
Preenchendo o dia com as melodias que eles produzem
E eu não sinto mais vontade de cantar
As estações mudam, mas eu não mudo em nada
Bem, eu errei, eu acertei
Isso está claro
Talvez eu consiga melhorar
Talvez eu seja diferente
Este ano

Ooh, lá vem o verão, ele vem quente
Sem camisa, nada de escola, dê a ele tudo o que você tem
O sol, ele chama, então vamos para fora
Brindar com nossas bebidas ao sol quente
O asfalto arde nas ruas da cidade
É melhor você se apressar ou irá queimar seus pés
Se atirando na água, espirrando e gritando
Amor e riso o suficiente para um e para todos
Oh, o futuro, o futuro parece promissor
Eu até acho que posso acertar tudo, afinal

Melancólico outono sopra para longe os ventos do verão
As folhas caem das árvores, nunca as verei novamente
Como brasas, elas flutuam pelas ruas
Dourada e vermelha dança que se repete
Bem, agora é fechar as cortinas
Vamos ficar dentro de casa
Sem flores, nem frutos, e os gramados todos morrem
Como pode tudo desmoronar tão rápido?
E por que eu achei que iria durar?
Quando tudo está morrendo, como eu posso me sentir vivo?
Oh, a vida é curta, e todos os dias bons desapareceram
Talvez eu tenha estado perdido
Talvez eu me encontre
Este ano

Bem, o inverno e o frio chegam com a tempestade
Derrubam a porta e seu sangue flui
Os dias são muito curtos e as noites muito longas
Os corais de natal aparecem, eu não consigo cantar junto
Oh, todo o dinheiro se foi, não sei para onde
O natal não é fácil quando você não pode pagar o aluguel
E as luzes se apagam para uma noite infeliz
E tudo o que você pode fazer é persistir na luta
E eu simplesmente não consigo ver o errado
E eu simplesmente não consigo ver o correto
Oh, a vida é dura, eu tenho lutado: um fracasso.
Talvez eu tenha estado perdido
Não acho que eu irei me encontrar
Este ano

Bem, eu errei, eu acertei
Isso está claro.
Mas talvez eu consiga melhorar
Talvez seja diferente
No próximo ano

Trad.: Nelson Santander

The White Buffalo – This Year

Another year older, it came and went
Blood and the tears and the money spent
The new year’s here with the same old cast
We dance and we drink like it may be our last
Buzzin’ waitin’ for the countdown to come
Feels like slow motion from ten to one
A kiss and the fireworks light the sky
Falling apart over Auld Lang Syne
Let’s focus on this night alone
Just hope that we’d make it home alive
The Earth it turns, spring rushes in
Days get longer and nights go thin
Mother wakes up a little brighter than before
Cold melts away and the gardens grow
The air is crisp and fields are sweet
Grass and the daffodils tickling our feet
Flowers they bloom and the birds they sing
Fill up the day with the songs they bring
And I don’t feel much like singing at all
Seasons change but I don’t change at all
Well I’ve done wrong, well I’ve done right, that’s clear
Maybe I’ll get better, maybe I’ll be different, this year
Ooh, here comes summer, well it’s comin’ in hot
No shirt, no school, give it all you got
The sun, it calls so let’s go outside
Toastin’ our drinks in the warm sunshine
The asphalt smoulders in the city streets
You better run fast or you’re gonna burn your feet
Splashin’ and yellin’ the cannonball
Enough love and laughter for one and all
Oh the future’s, future’s looking bright
I think that I might get it right after all
Moody autumn blows in off a summer wind
Leaves fall off of the trees, never see them again
Like embers they float into the streets
Golden and red dance repeat
Well it’s close of the curtains, let’s stay inside
No flower, no fruit and the lawns all die
Well how could it all fall apart so fast
And why would I think it would ever last?
When everything is dying, well, how can I feel alive?
Oh, life is short, well all good days disappear
Maybe I’ve been lost, maybe I’ll get found, this year
Well the winter and the cold come storming in
Kicks down the door and your blood runs thin
Day’s too short and the night’s too long
Carolers came, I can’t sing along
Oh money’s all gone, don’t know where it went
Christmas ain’t easy when you can’t pay the rent
And the lights go out to a silent night
And all you can do is just stay in the fight
And I just can’t see the wrong, and I just can’t see the right
Oh, life is hard, I’ve been fighting, a failure
Maybe I’ve been lost, don’t think I’ll get found, this year
Well I’ve done wrong, well I’ve done right, that’s clear
But maybe I’ll get better, maybe I’ll be different, next year

Nelson Santander – Singularidade

Logo no início do blog, publiquei alguns poemas de minha autoria, não tanto pelo valor intrínseco que cada um deles dificilmente possa ter, mas para deixa-los “arquivados” nesse grande arquivo virtual que é a internet. Dentre eles, o poema que segue é aquele que considero o menos ruim de todos os que cometi.

Como minhas duas últimas publicações (do dia 27 e 29/11) foram de poemas também intitulados “Singularidade”, achei interessante republicar a minha “Singularidade”. Se não para fins de comparação, ao menos para ilustrar como cada um de nós, valendo-nos de um mesmo tema como mote, o abordamos de maneiras distintas: Marie Howe, à maneira tradicional dos poetas modernos, com sua preocupação com o humano e a natureza; Marissa Davis – cujo poema é uma espécie de resposta a Howe – com sua fragmentação experimental da palavra e o uso do fluxo do pensamento, tão caro às vanguardas literárias do século XX; e a minha singularidade – um poema neoconcreto com suas preocupações existenciais centradas no tempo-espaço.

Nelson Santander – Singularidade

Nelson Santander – A elite oitocentista pela ótica de Machado de Assis: a violação da norma como norma

O artigo que segue, de minha autoria, foi publicado na obra coletiva “Direito e desenvolvimento: estudos sobre a questão ambiental e a sustentabilidade – Homenagem ao Prof. Márcio Teixeira”, organizada por Caio Henrique Lopes Ramiro e Lis Maria Bonadio Precipito (São Paulo: LiberArs, 2015, 308p.).

Fortemente influenciado pela obra “Um mestre na periferia do capitalismo”, do professor e crítico literário Roberto Schwarz – uma leitura seminal das “Memórias Póstumas de Brás Cubas” -, o trabalho, além de tecer loas à genialidade e contemporaneidade de Machado de Assis, busca demonstrar a análise profunda que o escritor faz, nas “Memórias”, da sociedade brasileira do século XIX e a “denúncia oblíqua das iniquidades e contradições da classe dominante oitocentista no contexto histórico analisado”. Tenta demonstrar também “como Machado de Assis expõe e explora a maneira com que a oligarquia da época valia-se da violação sistemática das normas como instrumento de perpetuação e dominação das relações de poder.”

Boa leitura!

Nelson Santander – [secos são os homens sem sonhos]

secos
são os homens sem sonhos
desertos rios de margens estreitas
trilham apenas os caminhos que a terra dita
nunca refletem de volta
o brilho gratuito do mundo

o acaso
delimita suas fronteiras

os homens sem sonhos

eles são
     as velas apagadas
     os caminhos silenciosos brancos de neve
     a matéria da corda dos enforcados
     o silêncio nascido da ignorância
     a crosta e a superfície
     o fácil e o óbvio

apenas olham
e a maçã continua maçã
aliás seu olhar as coisas petrifica

modernas medusas
mitológicos zeros
esquecidos até mesmo pelos espelhos

mas o mundo ainda é o mesmo que sempre foi

ainda existem aqueles que olham as estrelas
e pensam – eu existo
outros há que escrevem poemas

          (semideuses para quem a alma humana
                    não representa segredo)

mas as maravilhas
as verdadeiras maravilhas

     (o dentro de uma gota de névoa
     as possibilidades infindas do oceano
     a morte no exato de sua hora
     a fagulha química que engendra a paixão
     e o suor brotando feito sangue – puro sangue –
                                      no dorso de um cavalo no galope
     e a menor partícula, essência das essências
     e o nada entre os mundos
     entre as estrelas
     os sonhos de Ariadne)

essas não são visíveis a olhos nus

     cegos são os homens sem sonhos
     mortos estão e julgam que dormem

o sono
     é o dos
          justos

 

                                                          14/05/1994

Apresentação de “The Wild Iris”, de Louise Glück

Atualizado em 08/10/2020: tive contato com a obra de Louise Glück no ano passado. Como narrado na apresentação que segue, fui tão impactado pela qualidade de seus poemas que me vi na contingência de traduzir, na íntegra, um de seus principais trabalhos – The Wild Iris. E desde então, tenho traduzido diversos outros grandes poemas esparsos dela – como “Outubro”, “Paisagem” e “Nostos”. Já são cerca de 60 poemas traduzidos. O encantamento diante de seus poemas continua o mesmo. Atualizo essa “apresentação”, obviamente, porque hoje veio a público a notícia de que Louise – atualmente com 77 anos de idade – foi a premiada com o Nobel de Literatura de 2020. No comunicado que faz a imprensa, a Academia Sueca resume os motivos que levaram à escolha da poeta para o prêmio:

“O Prêmio Nobel de Literatura 2020 é concedido à poetisa americana Louise Glück por sua inconfundível voz poética que, com austera beleza, torna universal a existência individual”

Não há muito o que acrescentar. Espero que o Prêmio Nobel desperte o interesse de novos leitores e, principalmente, que alguma editora brasileira se aventure em publicar ao menos parte de sua obra em português.

Enquanto as editoras não se mexem, sintam-se à vontade nesse humilde blog para apreciar a beleza da poesia de Louise Glück. Perca-se entre as flores, o vento, o mato, o sol, o mundo, a contemplação, a busca por Deus, os desapontamentos, a tristeza calma de seus poemas. Você não vai se arrepender”

Nelson Santander

Percorrendo os infindáveis mundos virtuais da internet a fim de colher alguns poemas para este humilde blog, me deparei com uma poeta ainda pouco conhecida no Brasil: Louise Glück. No site da Academy Poets of America encontramos uma breve bio-bibliografia dela:

Louise Glück nasceu em Nova York, em 22 de abril de 1943, e cresceu em Long Island. É autora de vários livros de poesia, sendo o mais recente deles Faithful and Virtuous Night (Farrar, Straus, and Giroux, 2014), que ganhou o Prêmio Nacional do Livro de 2014 em Poesia; Poems 1962-2012 (Farrar, Straus e Giroux, 2012); A Village Life: Poems (Farrar, Straus e Giroux, 2009); Averno (Farrar, Straus e Giroux, 2006), finalista do Prêmio Nacional do Livro de 2006 em Poesia; The Seven Ages (Ecco Press, 2001); e Vita Nova (Ecco Press, 1999), ganhadora do Prêmio Bingham de Poesia, da Boston Book Review e do New Yorker’s Book Award em Poesia. Em 2004, a Sarabande Books lançou seu poema em seis partes “October”, em chapbook.

Seus outros livros incluem Meadowlands (Ecco Press, 1996); The Wild Iris (Ecco Press, 1992), que recebeu o Prêmio Pulitzer e o Prêmio William Carlos Williams da Sociedade de Poesia da América; Ararat (Ecco Press, 1990), pela qual recebeu o Prêmio Nacional de Poesia Rebekah Johnson Bobbitt da Biblioteca do Congresso; e The Triumph of Achilles (Ecco Press, 1985), que recebeu o National Book Critics Circle Award, o Boston Globe Literary Press Award e o Melville Kane Award da Poetry Society of America.

Em uma resenha na New Republic, a crítica Helen Vendler escreveu:

“Louise Glück é uma poeta de presença forte e assustadora. Seus poemas, publicados em uma série de livros memoráveis nos últimos vinte anos, alcançaram a distinção incomum de não serem nem ‘confessionais’ nem ‘intelectuais’ nos sentidos usuais dessas palavras”.

Glück também publicou uma coleção de ensaios, experimentos e teorias: Essays on Poetry (Ecco Press, 1994), que ganhou o Prêmio PEN / Martha Albrand de Não-ficção. Suas honrarias incluem o Prêmio Bollingen em Poesia, o Lannan Literary Award for Poetry, o Prêmio Sara Teasdale Memorial, a Medalha de Aniversário do MIT e bolsas das Fundações Guggenheim e Rockefeller e da National Endowment for the Arts.

Em 1999, Glück foi eleita Chancellor of the Academy of American Poets. No outono de 2003, foi nomeada como a décima segunda poeta laureada consultora da Biblioteca do Congresso americano. Ela atuou como juíza da Yale Series of Younger Poets de 2003 a 2010.

Em 2008, Glück foi selecionada para receber o Prêmio Wallace Stevens pelo domínio da arte da poesia. Sua coleção, Poems 1962-2012, recebeu o prêmio Los Angeles Times Book 2013. Em 2015, recebeu a Medalha de Ouro por Poesia da Academia Americana de Artes e Letras.

Ela é escritora-residente na Universidade de Yale.

O impacto da leitura de alguns de seus poemas foi tão devastador que, investido de um incomum senso de urgência, me impus a tarefa de traduzir e publicar todos os grandes poemas que compõem aquela que é considerada a obra-prima da autora: “The Wild Iris“. A obra – ganhadora de vários prêmios literários, dentre os quais o Pulitzer de Poesia, em 1993 – vem colhendo admiradores no mundo todo desde que publicada pela primeira vez, em 1992, pela Ecco Press.

Sobre este livro, assim testemunhou a também poeta norte-americana Fleda Brown:

“(…) É sobre esse livro (The Wild Iris) que eu quero falar e ler um pouco. Eu o acho um feito extraordinário. Os poemas são pequenas coisas estranhas, dando vozes às flores e a Deus, assim como ao poeta humano. Quem tentaria falar como uma flor, sob o ponto de vista de uma flor, sem soar piegas? Quem tentaria falar pela voz de Deus? Mas ela conseguiu, e em cada poema, a perspectiva é uma que não esperaríamos. Não há sentimentalismo aqui. Cada poema abala nossa maneira usual de ver o mundo.

Na obra há vários poemas com o mesmo título, chamados simplesmente Matinas, ou Vésperas, de modo que o livro parece um panfleto de orações católicas, marcando a passagem do dia em orações. Mas, meu Deus, as orações não são o que esperamos!

(…)

Um dos temas do livro, um dos temas persistentes de Glück, é que não há esperança. Estamos todos condenados. Os poemas são sombrios, sem dúvida. Mas, como Dylan Thomas diz em de seus poemas, nós cantamos em nossos grilhões como canta o mar.

Os poemas geralmente parecem curtos e fáceis em seu idioma, mas eles me lembram a simplicidade dos poemas de Robert Frost – eles apenas parecem simples.

(…)

Os poemas de Louise Gluck não se encaixam no modo “confessional” ou “anedótico”. Você sabe como esses poemas são – por sua intensidade, esses poemas precisam contar uma história para manter nossa atenção. Mas os poemas de Glück são também intensamente pessoais – você pode sentir isso nos poemas dela. Eles são pessoais e líricos – eles ficam em um lugar e cantam. O que eu admiro é a força da fala, da dicção, do ritmo, do humor perfeitamente realizado dos poemas. Eles são completamente diferentes de tudo.”

(http://fledabrown.com/columnist/michigan-writers-on-the-air/louise-gluck/)

Outra bela resenha do livro é esta, da também poeta Rachel Mennies:

“Quando li pela primeira vez The Wild Iris, de Louise Glück, não estava sofrendo. Sentei-me no meu futon de anos, preparando-me para a discussão do texto em minha oficina de pós-graduação na semana seguinte. Peguei o livro em silêncio e li-o várias vezes, totalmente consumido. Eu consumi as linhas bem definidas de Glück, seus verbos exatos. (Sua prosódia instruirá jovens poetas para sempre na tarefa ousada e crucial da escolha das palavras, da imagem tão precisa e correta que seus leitores se atrevem a chamá-la de perfeita.) Eu lamentei e encontrei conforto em sua coragem em face do própria luto – mas quando li The Wild Iris pela primeira vez, não estava sofrendo. Em vez disso, eu usava o sofrimento de Glück como um casaco no verão – perplexa diante de sua força de aprisionamento, incerta se alguma vez eu necessitaria da densidade de sua dor.

Desde então, eu achei Glück, em seus momentos de precisa escuridão, mais reconfortante em momentos de tristeza – talvez haja algo no ruído confuso da tragédia nacional, em suas aleatórias e ininterruptas reportagens, que me fazem desejar uma linguagem tão exata que possa caber na ponta de uma agulha. Em dezembro do ano passado, quando o tiroteio em Newtown levou vinte filhos de seus pais, o poema que leva o nome do livro desdobrou-se em meu cérebro. Antes, em setembro de 2011, eu assisti no noticiário local de Pittsburgh o presidente pousar o Air Force One em nosso aeroporto, a caminho de Somerset, nas proximidades, para lamentar o décimo aniversário do acidente do voo 93. Na época, também, eu alcancei o The Wild Iris, e li o mesmo poema:

No fim do meu sofrimento
havia uma saída.

Ouça-me: do que você chama de morte,
eu me lembro.

Já escrevi antes sobre esse poema e sobre o poder da poesia em nos ajudar, em comunidade, com nossos traumas. Depois de Newtown, voltei a Glück não pela comunidade, mas por seu intimismo; por suas linhas essenciais e assustadoras, procurei e encontrei um conforto inesperado. Em The Wild Iris, a precisão de Glück muitas vezes parece uma ordenação, uma espécie de batizado taxonômico. Esse ato de nomear, essa ordenação gritante do universo, conduz a sua oradora, mesmo quando ela sofre, ao alarido – de volta ao mundo grande e terrível. “Eu nem sabia que me sentia triste”, diz a oradora em seu poema Trillium, “até que essa palavra apareceu, até que eu senti / a chuva fluindo de mim.” E no final de ‘Clear Morning ‘, o tipo de manhã que levou o Presidente a Pittsburgh, lembro-me de pensar “a oradora afirma ‘Estou preparado agora para impor / clareza a todos vocês.” Na agitação sombria do trauma nacional, no fino luto televisivo e banalidades exageradas gesticulando suavemente em direção ao sofrimento, precisamos de uma clareza imposta sobre nós dessa maneira exata e imparcial. Preciso, brutalmente, de cada evento inevitável e brutal.

E agora, como um dos poucos livros com os quais cresci, que realmente amei, ainda me surpreendo com meu apego ao texto – eu o alcanço repetidamente, toda vez sem saber porque, sempre certo de que encontrarei o que estava procurando. Penso muitas vezes na oradora de ‘Clear Morning’, como se ela se dirigisse a mim diretamente, estudando-me a partir do texto: “Eu já os observei por tempo suficiente, / eu posso falar com vocês da maneira que eu quiser -” O texto me nomeou, me incluiu em seu sofrimento. Pode e fala comigo como deseja. (…).”

https://pankmagazine.com/2013/02/12/books-we-cant-quit-the-wild-iris-by-louise-gluck-a-review-by-rachel-mennies/

Amanhã, The Wild Iris, o poema que inaugura o livro com o mesmo nome. E nos dias subsequentes os demais poemas, na ordem em que aparecem no trabalho.

Nelson Santander

Conheça outros livros de Louise Glück clicando aqui

Nelson Santander – Impermanência

Se existe algo mais fascinante do que locais abandonados eu desconheço. Toda vez que, em viagem, me deparo com uma casa desabitada há muito tempo, uma estação de trem em desuso ou o esqueleto do que um dia foi uma fábrica, acabo perdendo (ganhando) um tempo admirando o local, tentando adivinhar quem nele pisou, morou ou trabalhou, por quanto tempo esse local perdurou, que dramas humanos nele se desenrolaram.

Tudo nesses sítios em decomposição é desconcertante e belo.

As imagens que ilustram essa postagem* demonstram o que quero dizer. A devastação preside, mas não é difícil, com um pouco de imaginação, encontrar detalhes que surpreendem pela beleza, pelo inusitado, pelo poético.

Um velho piano que um dia encantou o mundo com acordes de Chopin, Beethoven, Mozart e que já não emite mais um único som há décadas; a igreja decrépita da qual nem Deus mais se lembra; uma estátua decapitada que jamais será uma Vênus de Milo; a piscina seca que hoje não serve de abrigo nem mesmo para rãs; um bar no qual apenas velhos fantasmas trocam amenidades e bebem seus uísques cowboy sem nunca ficarem de porre; o cinema que outrora exibiu a queda do império romano, longa jornada noite adentro e nunca fomos tão felizes e que agora assiste impassível o próprio the end; trilhos retos e escadas espiraladas que não levam a lugar nenhum; construções sendo devoradas pela vegetação que escala as paredes como labaredas verdes; a cama de casal que testemunhou um amor que era indomável como o fogo tornar-se fumaça e gelo e cinzas enfim (o que não tem fim sempre acaba assim, diria Humerto Gessinger).

Mas para muito além disso tudo, esses lugares nos fazem lembrar principalmente de que madeira, ferro, pano, papel, pedra, gente, tudo, absolutamente tudo se transforma, e encontra a decadência e se converte em pó e acaba. Que só uma coisa permanece: a impermanência. Que tudo o que começa não se presta para existir, mas para terminar.

Bom final de semana a todos! Ou algo parecido.

(postado originalmente na página pessoal do autor no Facebook)

* As imagens foram retiradas da internet.

Nelson Santander – Clint Eastwood

Com a derrocada de Woody Allen (meu cineasta favorito), abatido pelo #metoo, e com o avanço das séries televisivas alavancado pela Netflix, a era dos grandes diretores de Hollywood parece estar chegando ao fim.

Aqueles diretores com voz e estilo próprios, um modo particular de contar uma história e a preferência pela abordagem dos grande temas em suas obras são hoje artigos raros no ramo cinematográfico.

Quem sobrou? Quem, dos realizadores em atividade, pode ser comparado a gente como Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick, Billy Wilder, John Ford, Sérgio Leone, Ingmar Bergman? Um Quentin Tarantino (que já anunciou que só fará mais dois filmes e depois se aposentará). Um Martin Scorsese (vivendo também o seu ocaso). Os irmãos Cohen talvez.

E quem mais? Cuarón, Almodóvar, Aronofsky, Wes Anderson, Paul Thomas Anderson, Cristopher Nolan e David Fincher são ótimos diretores. Mas só isso. Falta-lhes aquela fagulha inexplicável que diferencia os competentes dos gênios, os diluidores dos mestres e esses dos inventores (para usar a famosa classificação de escritores – que também pode ser aplicada aos diretores de cinema – sugerida por Ezra Pound).

Mas aí eu me lembro desse senhor que há décadas entrega a seu público, ano após ano, obras consistentes, muitas vezes monumentais e, acima de tudo, profundamente humanas. Dos diretores ainda em atividade, Clint Eastwood é o mais legítimo herdeiro dos grandes realizadores hollywoodianos do passado – em especial de Sergio Leone, que foi quem o lançou para o estrelato como ator e a quem ele buscava emular em seu início de carreira como cineasta (vide “O Estranho Sem Nome”).

Mas Clint Eastwood foi muito além de Sergio Leone. É verdade que sua obra prima – o faroeste “Os Imperdoáveis” – dialoga com os grandes westerns do diretor italiano. No entanto, a temática de Eastwood é bem mais diversificada. O próprio “Os Imperdoáveis” já procurava se diferenciar da obra de Sergio Leone, pois enquanto o cineasta italiano tinha óbvias predileções por grandes planos, tramas intrincadas e em emprestar um tom operístico aos seus grandes filmes (dos quais “Era uma vez no Oeste” é o exemplo mais bem acabado), em “Os Imperdoáveis”, Clint Eastwood opta pelos closes nos rostos dos atores (o que aumenta a dramaticidade da cena), por roteiros simples e objetivos e por se preocupar muito mais com a psicologia e motivação de suas personagens.

Mas o diretor americano não se limitou à realização do melhor faroeste dos últimos tempos e continuou a produzir filmes que ora surpreendiam pela delicadeza do trabalho – como o belíssimo “As Pontes de Madison” –, ora nos nocauteavam ante a abordagem crua de certos temas – como a análise das consequências do abuso sexual de menores, em “Sobre Meninos e Lobos”, e a questão da eutanásia, em “Menina de Ouro”.

Além de tudo isso, Clint Eastwood provou também que a velhice nem sempre é sinônimo de apatia criativa. Grande parte de seus melhores filmes foram realizados depois que o diretor já havia completado 70 anos de idade (ele é de 1930). Estão nesse rol: “Cowboys do Espaço” (2000), “Sobre Meninos e Lobos” (2003), “Menina de Ouro” (2004), “Gran Torino” e “A Troca” (2008) e “Sniper Americano” (2014).

E ele não para: acaba de lançar “A Mula” e “15h17: Trem para Paris”. Aos 89 anos de idade (!)

Enquanto esse Cavaleiro Solitário continuar fazendo seu trabalho, Hollywood estará redimida.

Mas e depois que ele e os outros se forem?

(Comentário publicado originalmente no Facebook: https://www.facebook.com/singularitate/posts/2009523002690187?__tn__=K-R)

Nelson Santander – Cinema Paradiso e a visita cruel do tempo

Há 30 anos, de forma despretensiosa, o diretor italiano Giuseppe Tornatore presenteava o mundo com aquele que, com o tempo, se tornaria um dos filmes mais queridos da história do cinema: “Cinema Paradiso”.

O vídeo que ilustra este texto é o da famosa cena do mosaico de beijos, aquela que encerra o filme. Sempre me questionei por que este trecho em particular me comovia tanto, em um filme repleto de passagens inesquecíveis: a cena em que Totó recebe um beijo inesperado de Elena, após ficar dias parado na frente da casa em que ela morava para provar que a amava; o trecho da demolição do cinema; o excerto em que Alfredo – o simpático projecionista da cidade – projeta o filme na parede da praça; a cena do funeral de Alfredo.

Todos esses fragmentos – verdadeiros minicontos – são dotados de elevada voltagem emotiva. Mas não se comparam à cena final na qual Totó, já um adulto de cabelos brancos e cineasta de sucesso, assiste à projeção de um filme que recebera das mãos de sua mãe, a pedido do recém-falecido Alfredo. A película, na verdade, se tratava de uma colagem de várias cenas de beijos e de algumas cenas eróticas e de nudez que o pároco de sua cidade natal costumava extirpar das películas antes da exibição dos filmes no cinema em que Totó, quando criança, trabalhava como assistente de Alfredo.

Mas por que essa passagem me comove tanto? Seria o contexto e o momento em que o trecho é inserido (logo após a passagem que mostra a demolição do cinema)? Ou o delicado tema musical composto por Ennio Morricone que acompanha o desenrolar da cena?

Não. Ou melhor, não só isso. Esses elementos conjugados são, de fato, cruciais para criar em “Cinema Paradiso” um ambiente emotivo que atinge o seu clímax na fatídica cena dos beijos. Mas, embora embevecido pelos trechos anteriores do filme e hipnotizado pela melodia inspirada de Morricone, o que mais me comove na cena é antes o vislumbre que ela nos dá de nossa própria efemeridade. Esteticamente, amor romântico e beleza física são o oposto de estar doente, o contrário da decrepitude, a antítese de morrer. Não consigo pensar em nada que represente mais o estar vivo do que as cenas que aparecem na tela: mulheres sensuais e beijos eróticos, arrebatadores, delicados, violentos, apaixonados, singelos, ou seja, todas os tipos de beijos que o amor romântico criou para se expressar. E trocados por casais formados por atores que quando filmaram tais cenas – nos anos 20, 30, 40 e 50 – se achavam no auge de sua juventude e beleza física.

Mas a sensação de transitoriedade que transborda na célebre passagem se acentua ainda mais quando nos lembramos do fato de que os atores que aparecem naquelas cenas estão todos mortos – Silvana Mangano, Vittorio Gassman, Cary Grant, Rosalind Russell, Jane Russell, Doris Duranti, Georgia Hale, Charlie Chaplin, Olivia de Havilland, Errol Flynn, Rudolph Valentino, Vilma Banky, James Stewart, Donna Reed, Vittorio de Sica, Yvonne Sanson, Anna Magnani, Marcello Mastroianni, Maria Schell, Jean Gabin, June Astor, Gary Cooper, Clark Gable, Joan Crawford, Greta Garbo, John Barrymore, Spencer Tracy, Ingrid Bergman, Gina Lollobrigida. Todos mortos – alguns há mais de 90 anos. Atores e atrizes que conheceram a fama e a fortuna, eram os mais desejados de sua época, e cuja beleza e juventude, hoje, não passam de poeira.

As lágrimas que um arrebatado Totó deixa cair ao assistir o filme são minhas também. Totó chora a saudade de tudo o que viveu e daquilo que perdeu. A mim me emociona testemunhar, impotente, na película que comove o cineasta, a inexorável marcha do tempo.

PS.: um internauta me avisa que Olivia de Havilland não está morta, tem 102 anos e mora atualmente em Paris. Quando escrevi esse texto, eu podia jurar que havia lido em algum lugar a notícia de que ela falecera há alguns anos atrás. Fica aí uma lição: depois dos 50, jamais confie em sua memória, já que o tempo – a matéria principal do meu texto – também faz estragos nesse campo. De toda forma, a ideia geral que eu quis passar permanece intacta – a decrepitude e a senilidade são as características principais da velhice profunda, e só com muita boa vontade dá para dizer que está vivendo quem chegou tão longe na corrida da existência.

Nelson Santander – Gene Tierney

Nem Marilyn, nem Greta, nem Ava, e muito menos Angelina, Sharon, Julia ou Charlize. Para mim o rosto mais bonito com que Hollywood nos presenteou em todos os tempos é o dessa beldade das fotos que acompanham esse texto: Gene Tierney, nascida no dia de hoje, no ano de 1920.

Em 1944 ela estreou seu filme mais famoso, o belíssimo “Laura” – uma das obras que ajudou a consolidar no cinema o subgênero de filmes policiais conhecido como “film noir”.

Falando em beleza, a música tema de “Laura”, com o mesmo título, é também uma das melodias mais marcantes do cinema. Escrita por David Raksin especialmente para a película, nos anos que se seguiram “Laura” foi redescoberta por músicos de jazz. Acabou virando um standard desse estilo musical e foi objeto de mais de 400 regravações(!)

Gene se foi em 1991, aos 70. Sua beleza já se havia apagado há décadas – culpa em parte de uma depressão devastadora que lhe tirou o viço e a vontade no auge da carreira e a deixou incapacitada por anos, e do tempo, que de tudo nos despoja. “Laura” – o filme e a canção – permanecem.

Permanece também o meu sentimento de encanto diante dessa três belezas conjugadas.

O poeta John Keats tinha razão:

A beleza é a verdade, a verdade é a beleza
— É tudo o que há para saber, e nada mais.