José Saramago – É tão fundo o silêncio…

É tão fundo o silêncio entre as estrelas. Nem o som da palavra se propaga, Nem o canto das aves milagrosas. Mas lá, entre as estrelas, onde somos Um astro recriado, é que se ouve O íntimo rumor que abre as rosas.

José Saramago – Diz tu por mim, silêncio

Não era hoje um dia de palavras, Intenções de poemas ou discursos, Nem qualquer dos caminhos era nosso. A definir-nos bastava um acto só, E já que nas palavras me não salvo, Diz tu por mim, silêncio, o que não posso. 

José Saramago – As Palavras de Amor

Esqueçamos as palavras, as palavras: As ternas, caprichosas, violentas, As suaves de mel, as obscenas, As de febre, as famintas e sedentas. Deixemos que o silêncio dê sentido Ao pulsar do meu sangue no teu ventre: Que palavra ou discurso poderia Dizer amar na língua da semente? 

José Saramago – Ouvindo Beethoven

Venham leis e homens de balanças, Mandamentos daquém e dalém mundo, Venham ordens, decretos e vinganças, Desça o juiz em nós até ao fundo. Nos cruzamentos todos da cidade, Brilhe, vermelha, a luz inquisidora, Risquem no chão os dentes da vaidade E mandem que os lavemos a vassoura. A quantas mãos existam, peçam dedos, Para … Continue lendo José Saramago – Ouvindo Beethoven

José Saramago – Não me Peçam Razões

Não me peçam razões... Não me peçam razões, que não as tenho, Ou darei quantas queiram: bem sabemos Que razões são palavras, todas nascem Da mansa hipocrisia que aprendemos. Não me peçam razões por que se entenda A força de maré que me enche o peito, Este estar mal no mundo e nesta lei: Não … Continue lendo José Saramago – Não me Peçam Razões

José Saramago – Demissão

Este mundo não presta, venha outro. Já por tempo demais aqui andamos A fingir de razões suficientes. Sejamos cães do cão: sabemos tudo De morder os mais fracos, se mandamos, E de lamber as mãos se dependentes.