Lêdo Ivo – A Queimada

Queime tudo o que puder: as cartas de amor as contas telefônicas o rol de roupas sujas as escrituras e certidões as inconfidências dos confrades ressentidos a confissão interrompida o poema erótico que ratifica a impotência e anuncia a arteriosclerose os recortes antigos e as fotografias amareladas. Não deixe aos herdeiros esfaimados nenhuma herança de … Continue lendo Lêdo Ivo – A Queimada

Jorge Luis Borges – Poema dos Dons

Ninguém rebaixe a lágrima ou censura Esta declaração da maestria De Deus, que com magnífica ironia Me deu mil livros e uma noite escura. Desta terra de livros fez senhores A olhos sem luz, que apenas se concedem Sonhar com bibliotecas e com cores De insensatos parágrafos que cedem As manhãs ao seu fim. Em … Continue lendo Jorge Luis Borges – Poema dos Dons

Jorge Luis Borges – Arte Poética

Fitar o rio feito de tempo e água e recordar que o tempo é outro rio, saber que nos perdemos como o rio E que os rostos passam como a água. Sentir que a vigília é outro sonho que sonha não sonhar e que a morte que teme nossa carne é essa morte de cada … Continue lendo Jorge Luis Borges – Arte Poética

Rainer Maria Rilke – Solidão

A solidão é como uma chuva. Ergue-se do mar ao encontro das noites; de planícies distantes e remotas sobe ao céu, que sempre a guarda. E do céu tomba sobre a cidade. Cai como chuva nas horas ambíguas, quando todas as vielas se voltam para a manhã e quando os corpos, que nada encontraram, desiludidos … Continue lendo Rainer Maria Rilke – Solidão

Cassiano Ricardo – Ladainha

Por que o raciocínio, os músculos, os ossos? A automação, ócio dourado. O cérebro eletrônico, o músculo mecânico mais fáceis que um sorriso. Por que o coração? O de metal não tornará o homem mais cordial, dando-lhe um ritmo extra- corporal? Por que levantar o braço para colher o fruto? A máquina o fará por … Continue lendo Cassiano Ricardo – Ladainha

Heinrich Heine – “Larga as parábolas sagradas”

Larga as parábolas sagradas, Deixa as hipóteses devotas, E põe-te em busca das respostas Para as questões mais complicadas. Por que se arrasta miserável O justo carregando a cruz, Enquanto, impune, em seu cavalo, Desfila o ímpio de arcabuz? De quem é a culpa? Jeová Talvez não seja assim tão forte? Ou será Ele o … Continue lendo Heinrich Heine – “Larga as parábolas sagradas”

Heinrich Heine – Morfina

É grande a semelhança desses dois jovens e belos vultos, muito embora um pareça mais pálido e severo ou, posso até dizer, bem mais distinto do que o outro, o que, terno, me abraçava. Havia em seu sorriso tanto afeto, carinho e, nos seus olhos,tanta paz! Ornada de papoulas, sua fronte tocava a minha, às … Continue lendo Heinrich Heine – Morfina

Friedrich Hölderlin – As Parcas

Dai-me, Potestades, mais um verão apenas, Apenas um outono de maduro canto, Que de bom grado, o coração já farto Do suave jogo, morrerei então. A alma que em vida nunca desfrutou os seus Direitos divinos nem no Orco acha repouso; Mas se eu lograr o que é sagrado, o que Trago em meu coração, … Continue lendo Friedrich Hölderlin – As Parcas

William Butler Yeats – Bizâncio

As imagens febris do dia se desfazem; Os guardas imperiais, bêbados, jazem; Noite sem som, sombras noctívagas se alongam Da catedral e do seu gongo; À luz de estrela ou lua um domo desmerece Tudo o que é humanidade, Mera complexidade As veias, fúria e lama, em toda humana espécie. Diante de mim a imagem, … Continue lendo William Butler Yeats – Bizâncio