Billy Collins – A vida após a morte

Enquanto você se prepara para dormir, escovando os dentes,
ou folheando uma revista na cama,
os defuntos do dia estão iniciando sua jornada.

Eles se movem em todas as direções imagináveis,
cada qual de acordo com sua crença pessoal,
e este é o segredo que o silencioso Lázaro não quis revelar:
todos estão certos, no fim das contas.
Você vai para o lugar que sempre imaginou que iria,
o lugar que você manteve aceso em uma alcova em sua cabeça.

Alguns estão sendo jogados por um funil de cores cintilantes
para uma zona de luz, branca como um sol de janeiro.
Outros estão nus diante de um juiz intimidante que se senta
com uma escada dourada de um lado e uma calha de carvão do outro.

Alguns já se juntaram ao coro celestial
e cantam como se tivessem feito isto desde sempre,
enquanto os menos inventivos encontram-se presos
em uma grande sala com ar condicionado cheia de coristas e comida.

Alguns se aproximam do apartamento do Deus feminino,
uma mulher na casa dos quarenta com cabelos curtos e crespos
e óculos pendurados no pescoço por um cordão.
Com um dos olhos, ela mira os mortos através de um furo em sua porta.

Há aqueles que se espremem em corpos
de animais – águias e leopardos – e um que experimenta
a pele de um macaco como a um terno apertado,
pronto para começar outra vida em uma chave mais simples,

enquanto outros flutuam em uma espécie de imprecisão benigna,
pequenas unidades de energia rumo ao definitivo lugar.

Há até mesmo alguns classicistas sendo conduzidos ao submundo
por uma mitológica criatura com cascos e barbas.
Ela os levará para a boca da furiosa caverna
guardada por Edith Hamilton1 e seu cão de três cabeças.

Os demais estão deitados de costas em seus caixões
desejando poder voltar para aprender italiano
ou ver as pirâmides, ou jogar um pouco de golfe sob a chuva rala.
Eles gostariam de poder acordar de manhã, como você,
e ficar em uma janela apreciando as árvores de inverno,
cada ramo traçado com a caligrafia fantasmagórica da neve.

(E alguns apenas sorriem, para sempre)

Trad.: Nelson Santander

Nota:

1. Edith Hamilton foi uma educadora, escritora e historiadora americana do Século XX e renomada classicista, frequentemente creditada por haver repopularizado a mitologia clássica 

The Afterlife

While you are preparing for sleep, brushing your teeth,
or riffling through a magazine in bed,
the dead of the day are setting out on their journey.

They’re moving off in all imaginable directions,
each according to his own private belief,
and this is the secret that silent Lazarus would not reveal:
that everyone is right, as it turns out.
You go to the place you always thought you would go,
The place you kept lit in an alcove in your head.

Some are being shot into a funnel of flashing colors
into a zone of light, white as a January sun.
Others are standing naked before a forbidding judge who sits
with a golden ladder on one side, a coal chute on the other.

Some have already joined the celestial choir
and are singing as if they have been doing this forever,
while the less inventive find themselves stuck
in a big air conditioned room full of food and chorus girls.

Some are approaching the apartment of the female God,
a woman in her forties with short wiry hair
and glasses hanging from her neck by a string.
With one eye she regards the dead through a hole in her door.

There are those who are squeezing into the bodies
of animals–eagles and leopards–and one trying on
the skin of a monkey like a tight suit,
ready to begin another life in a more simple key,

while others float off into some benign vagueness,
little units of energy heading for the ultimate elsewhere.

There are even a few classicists being led to an underworld
by a mythological creature with a beard and hooves.
He will bring them to the mouth of the furious cave
guarded over by Edith Hamilton and her three-headed dog.

The rest just lie on their backs in their coffins
wishing they could return so they could learn Italian
or see the pyramids, or play some golf in a light rain.
They wish they could wake in the morning like you
and stand at a window examining the winter trees,
every branch traced with the ghost writing of snow.

(And some just smile, forever on)

Billy Collins – O desfile

Que emocionante foi marchar
ao longo das grandes avenidas
debaixo do clarão das trombetas
e sob todas as bandeiras tremulantes —
a bandeira da ambição, a bandeira do amor.

Tantos de nós fluindo ao longo do caminho —
toda a humanidade, na verdade —
movendo-se em perfeita sintonia,
mas cada qual perdido no quarto de um sonho particular.

Como é estimulante a paisagem do mundo,
as fileiras de árvores à beira da estrada,
a enorme cortina do céu.

Quão interminável parecia até que nos desviássemos
da grande estrada
para um pasto de grama alta,
em direção aos vertiginosos penhascos da mortalidade.

Geração após geração,
continuamos avançando
até pularmos da borda para o espaço.

E eu não deveria ter que lembra-lo
de que neste lugar pouco tempo é dado
para descansar em um banco à beira do caminho,
para parar e curvar-se para as flores silvestres,
ou para estudar um pássaro em um galho —

não quando os jovens
estão sempre nos empurrando por trás,
não quando os velhos continuam nos puxando para frente,
puxando nossos braços com toda sua débil força.

Trad.: Nelson Santander

The Parade

How exhilarating it was to march
along the great boulevards
in the sunflash of trumpets
and under all the waving flags—
the flag of ambition, the flag of love.

So many of us streaming along—
all of humanity, really—
moving in perfect step,
yet each lost in the room of a private dream.

How stimulating the scenery of the world,
the rows of roadside trees,
the huge curtain of the sky.

How endless it seemed until we veered
off the broad turnpike
into a pasture of high grass,
headed toward the dizzying cliffs of mortality.

Generation after generation,
we keep shouldering forward
until we step off the lip into space.

And I should not have to remind you
that little time is given here
to rest on a wayside bench,
to stop and bend to the wildflowers,
or to study a bird on a branch—

not when the young
are always shoving from behind,
not when the old keep tugging us forward,
pulling on our arms with all their feeble strength.

Billy Collins – Como se para demonstrar um eclipse

Pego uma laranja de um cesto de vime
e a coloco na mesa
para representar o sol.
Depois, na outra ponta,
uma bola de gude azul e branca
se torna a terra
perto da qual eu coloco a pequena lua de uma aspirina.

Pego uma taça no armário,
abro uma garrafa de vinho,
sento-me em uma cadeira de espaldar alto,
um deus benevolente presidindo
um mito da criação em miniatura,

e começo a entoar
um cântico caseiro de gratidão
por este pequeno arranjo perfeito,
por não deixar a terra muito quente ou fria
por não fazê-la girar muito rápido ou devagar

de modo que o pomar das laranjeiras
e a coruja se tornem possíveis,
isso sem falar nas ondas do mar,
no recreio das nuvens, nos gansos em vôo,

e no Z do raio sobre um lago escuro.
Então eu encho meu copo novamente
e dou graças pela truta,
pelo carvalho e pela pena amarela,

cantando o aposento repleto de sombras,
enquanto o sol e a terra e a lua
circundam uns aos outros em suas órbitas impecáveis
e eu fico cada vez mais ébrio de gratidão.

Trad.: Nelson Santander

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As If to Demonstrate an Eclipse

I pick an orange from a wicker basket
and place it on the table
to represent the sun.
Then down at the other end
a blue and white marble
becomes the earth
and nearby I lay the little moon of an aspirin.

I get a glass from a cabinet,
open a bottle of wine,
then I sit in a ladder-back chair,
a benevolent god presiding
over a miniature creation myth,

and I begin to sing
a homemade canticle of thanks
for this perfect little arrangement,
for not making the earth too hot or cold
not making it spin too fast or slow

so that the grove of orange trees
and the owl become possible,
not to mention the rolling wave,
the play of clouds, geese in flight,

and the Z of lightning on a dark lake.
Then I fill my glass again
and give thanks for the trout,
the oak, and the yellow feather,

singing the room full of shadows,
as sun and earth and moon
circle one another in their impeccable orbits
and I get more and more cockeyed with gratitude.

Billy Collins – A respiração

Assim como nos filmes de terror,
quando alguém descobre que as ligações telefônicas
estão vindo de dentro da casa,

eu também percebi
que nossa tenra sobreposição
vem ocorrendo apenas dentro de mim.

Toda esta doçura, o amor e o desejo —
tem sido apenas eu discando para mim mesmo
e seguindo o toque até a outra sala

para não encontrar ninguém na linha,
bem, algumas vezes uma leve respiração,
mas, na maioria das vezes, nada.

E pensar que todo esse tempo —
que incluiria os passeios de barco,
os abraços no aeroporto, e todas as bebidas —

foi apenas eu e os dois telefones,
aquele na parede da cozinha
e a extensão no quarto escuro do andar de cima.

Trad.: Nelson Santander

The Breather

Just as in the horror movies
when someone discovers that the phone calls
are coming from inside the house

so too, I realized
that our tender overlapping
has been taking place only inside me.

All that sweetness, the love and desire —
it’s just been me dialing myself
then following the ringing to another room

to find no one on the line,
well, sometimes a little breathing
but more often than not, nothing.

To think that all this time —
which would include the boat rides,
the airport embraces, and all the drinks —

it’s been only me and the two telephones,
the one on the wall in the kitchen
and the extension in the darkened guest room upstairs.

Billy Collins – Esquecimento

O nome do autor é o primeiro a desaparecer
seguido obedientemente pelo título, a trama,
a conclusão comovente, o romance todo
que subitamente se torna algo que você nunca leu,
do qual nunca ouviu falar,

como se, uma a uma, as memórias que você costumava abrigar
decidissem se retirar para o hemisfério sul do cérebro,
para uma pequena aldeia de pescadores onde não há telefones.

Há muito tempo você deu um beijo de despedida nas nove Musas
e viu a equação de segundo grau arrumar as malas,
e mesmo agora, enquanto memoriza a ordem dos planetas,

algo mais está se perdendo, talvez um emblema floral,
o endereço de um tio, a capital do Paraguai.

Independentemente do que você esteja se esforçando para se lembrar,
não está na ponta de sua língua,
nem se esconde em algum canto obscuro de seu baço.

Flutuou para longe, por um escuro rio mitológico
cujo nome começa com um L, tanto quanto você pode se lembrar,
claramente em seu próprio caminho para o esquecimento, em que você se juntará àqueles
que até mesmo se esqueceram como nadar e como andar de bicicleta.

Não admira que você se levante no meio da noite
para pesquisar a data de uma famosa batalha em um livro sobre a guerra.
Não admira que a lua lá fora pareça ter saído
de um poema de amor que você costumava conhecer de cor.

Trad.: Nelson Santander

Forgetfulness

The name of the author is the first to go
followed obediently by the title, the plot,
the heartbreaking conclusion, the entire novel
which suddenly becomes one you have never read,
never even heard of,

as if, one by one, the memories you used to harbor
decided to retire to the southern hemisphere of the brain,
to a little fishing village where there are no phones.

Long ago you kissed the names of the nine Muses goodbye
and watched the quadratic equation pack its bag,
and even now as you memorize the order of the planets,

something else is slipping away, a state flower perhaps,
the address of an uncle, the capital of Paraguay.

Whatever it is you are struggling to remember,
it is not poised on the tip of your tongue,
not even lurking in some obscure corner of your spleen.

It has floated away down a dark mythological river
whose name begins with an L as far as you can recall,
well on your own way to oblivion where you will join those
who have even forgotten how to swim and how to ride a bicycle.

No wonder you rise in the middle of the night
to look up the date of a famous battle in a book on war.
No wonder the moon in the window seems to have drifted
out of a love poem that you used to know by heart.

Billy Collins – As cadeiras em que ninguém se senta

Vêem-se em varandas e em relvados
mesmo à beira do lago,
geralmente dispostas em pares indicando que um casal

se poderá sentar ali e olhar para
a água ou para as grandes árvores frondosas.
O problema é que nunca se vê ninguém

sentado nessas cadeiras abandonadas
embora a dada altura deva ter parecido
um bom lugar para parar e não fazer nada por um momento.

Às vezes há uma pequena mesa
entre as cadeiras onde ninguém
deixou um copo pousado ou um livro com a capa para baixo.

Posso não ter nada com isso,
mas suponhamos haver um dia
em que todos os que colocaram essas cadeiras vagas

numa varanda ou num cais se sentariam nelas
nem que fosse para se lembrarem
daquilo que achavam que valia a pena

ser contemplado das duas cadeiras
lado a lado com uma mesa pelo meio.
As nuvens estariam altas e imponentes nesse dia.

A mulher descola o olhar do seu livro.
O homem toma um gole da sua bebida.
E ouve-se apenas o som do seu olhar,

o marulhar da água do lago, e o canto de um pássaro
depois de outro, gritos de alegria ou de aflição —
o tempo vai passando enquanto se percebe quais.

Trad.: Ricardo Marques

Billy Collins – The Chairs That No One Sits In

You see them on porches and on lawns
down by the lakeside,
usually arranged in pairs implying a couple

who might sit there and look out
at the water or the big shade trees.
The trouble is you never see anyone

sitting in these forlorn chairs
though at one time it must have seemed
a good place to stop and do nothing for a while.

Sometimes there is a little table
between the chairs where no one
is resting a glass or placing a book facedown.

It might be none of my business,
but it might be a good idea one day
for everyone who placed those vacant chairs

on a veranda or a dock to sit down in them
for the sake of remembering
whatever it was they thought deserved

to be viewed from two chairs
side by side with a table in between.
The clouds are high and massive that day.

The woman looks up from her book.
The man takes a sip of his drink.
Then there is nothing but the sound of their looking,

the lapping of lake water, and a call of one bird
then another, cries of joy or warning—
it passes the time to wonder which.

Billy Collins – Pardal de Natal

A primeira coisa que ouvi esta manhã
foi um rápido bater de asas, suave, insistente –

asas contra vidro, como se percebeu depois,
lá em baixo, quando vi um pequeno pássaro
agitando-se na moldura de uma janela alta,
tentando lançar-se através do
enigma de vidro até a ampla luz.

E então um ruído na garganta do gato
que estava pregado ao tapete
contou-me como o pássaro ficara lá dentro,
transportado na noite fria
através da portinhola na porta da cave,
e posteriormente solto do aperto suave dos dentes.

De pé numa cadeira, prendi as suas pulsações
numa camisa e levei-o para a porta,
tão leve que parecia
ter desaparecido no ninho de tecido.

Mas cá fora, quando abri as mãos,
ele saiu disparado para o seu elemento,
mergulhando sobre o jardim adormecido
num espasmo de bater de asas
e desaparecendo sobre um renque alto de acácias.

Durante o resto do dia,
senti o seu vibrar selvagem
contra a palma das mãos, sempre que pensava
nas horas que a ave deve ter passado
presa nas sombras da sala,
escondida nos ramos pontiagudos
da nossa árvore decorada, onde respirou
entre anjos metálicos, maçãs de louça, estrelas de verga,
os seus olhos abertos, como os meus, deitado aqui esta noite,
imaginando este pardal sortudo e raro
aconchegado agora num arbusto de azevinho,
com a neve caindo através da escuridão, sem uma aragem.