Jaime Gil de Biedma – Happy ending

Embora, à noite, comigo já não durmas mais, o acaso dirá talvez se é definitivo. Que embora o prazer nunca mais volte a ser o mesmo, na vida o esquecimento não costuma durar. Trad.: Nelson Santander Jaime Gil Biedma - Happy ending Aunque la noche, conmigo, no la duermas ya, sólo el azar nos dirá … Continue lendo Jaime Gil de Biedma – Happy ending

Javier Salvago – Um pouco mais sábios, um pouco mais cegos

Quando você não é mais jovem, se convence de que o diabo sabe mais porque é velho e admite que os anos nos ensinam a distinguir a realidade do sonho. Talvez não. Talvez a vida só se nos mostre uma vez - quando temos olhos para aprecia-la - e depois vamos esquecendo seu rosto e … Continue lendo Javier Salvago – Um pouco mais sábios, um pouco mais cegos

Inês Dias – Joaquim e Judite

Fizera toda a viagem com ele ao colo. Queria despedir-se junto ao mar, mas as partidas são tão imperfeitas se o coração é uma caixa de cinzas demasiado enferrujada para abrir ao vento. Mesmo agora, depois de lavada a última partícula que se lhe colara à pele, sabia que o amor passara a ter o … Continue lendo Inês Dias – Joaquim e Judite

Manuel António Pina – Ruínas

Por onde quer que tenha começado, pelo corpo ou pelo sentido, ficou tudo por fazer, o feito e o não feito, como num sono agitado interrompido. O teu nome tinha alturas inacessíveis e lugares mal iluminados onde se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam, e talvez devesse ter começado por aí. Agora … Continue lendo Manuel António Pina – Ruínas

Javier Salvago – Convém não esquecer

Por esta via que chamam vida, vamos com cautela devida, tal qual um cego. Mas em cinzas termina todo e qualquer fogo. Trad.: Nelson Santander Javier Salvago - Conviene no Olvidarlo Por esta senda, que llaman vida, todos vamos a tientas, igual que un ciego. En ceniza terminan todos los fuegos.

Vítor Nogueira – Gelo

Agora é apenas um café com paredes adornadas, imagens retratando destemidos ancestrais. O tempo foi passando, não foi? Um acidente em câmara lenta a uma escala cataclísmica. Grande parte daquilo que fazemos é construir memória, uma promessa frágil ao futuro. E pensar que na vida acumulamos tanta coisa, sobretudo se por hábito não deitamos nada … Continue lendo Vítor Nogueira – Gelo

Nuno Júdice – Passado

Passou o vento, passou o dia, passou a noite e a manhã, passou o tempo, passou a gente, passou cada hora de amanhã; passou um canto esquecido nos cantos de cada passo, passou ao dizer que passo sem se lembrar do compasso; passou a vida como se nada fosse, só passou e foi-se embora, passou … Continue lendo Nuno Júdice – Passado

Manuel António Pina – O Regresso

Como quem, vindo de países distantes fora de si, chega finalmente aonde sempre esteve e encontra tudo no seu lugar, o passado no passado, o presente no presente, assim chega o viajante à tardia idade em que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casa e deita-se pela primeira … Continue lendo Manuel António Pina – O Regresso

Inês Dias – Reconquista

Do meu bisavô, ferreiro e construtor de pontes, conheci apenas as iniciais, gravadas na pedra com que tomara o último dos elementos. Mas a sul do passado, o meu avô repetia-lhe ainda os gestos, ensinando-me a travar as marés com pequenos diques improvisados – paus de gelado, seixos, pedacinhos de cordel. Nunca mais o futuro … Continue lendo Inês Dias – Reconquista

Nelson Santander – Philip Roth

Morreu Philip Roth, meu último grande herói literário. Sua vasta bibliografia explora uma gama enorme de temas, mas a faceta que mais me impressionou foi a que ele abordou em seus últimos livros: a questão da velhice. A leitura de "Homem Comum" – principal obra de Roth sobre o tema – há cerca de 8 … Continue lendo Nelson Santander – Philip Roth