Categoria: Miguel Martins
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Miguel Martins – Para o meu pai

Muito poucos foram os dias cuja acidez não tragaste do princípio ao fim,vinho branco retintado pela morte dos teus sonhos, um a um,e uma bola de fogo a crescer-te no estômago, uma inteireza brutal,virada do avesso, como se uma queda tão lenta, tão evidentementequeda, tão claramente desesperada do futuro, pudesse ser exemplopara quem nem sequer…
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Miguel Martins – [Do lado de fora, tudo parece pouco]
![Miguel Martins – [Do lado de fora, tudo parece pouco]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2019/09/tga-9211-9-6-404-1_10.jpg)
Do lado de fora, tudo parece pouco. Borborinho. Intemperança. Sono. O rosto não faz prova da memória mas a memória testemunha a evolução do rosto, os pares de óculos que por ali passaram, a fome e o consolo, o medo, a morte de cada beijo, o milagre do seu renascimento e, por fim, o extremo…
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Miguel Martins – Sou eu

são as minhas mãos que tremem até não poder segurar os talheres sou eu sentado na cama, transido de medo de acordar para viver sou eu a vomitar de medo como desde os tempos da escola primária sou eu a driblar o futuro, acabando por sair pela linha lateral sou eu agora em espasmos, assemelhando-me…
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Miguel Martins – Fine

Os sentimentos são paisagens áridas, imprecisas, tremeluzentes, desconfortáveis. Dito isto, poderia fechar a porta, correr as grades, trancar o cadeado, dar a loja por encerrada, sem previsões de reabertura. Fechados lá dentro, os sentimentos, bem, seria como se não existissem. Talvez morressem, se desidratassem, se pulverizassem, talvez deles restasse apenas uma mancha de gordura no…