Categoria: Ellen Bass – Miniantologia Poética
-
Ellen Bass – Miniantologia Poética – Sumário

Ellen Bass – Miniantologia Poética Seleção e tradução de Nelson Santander Uma mulher recebe uma notícia que teme. Outra acompanha a mãe durante seus últimos dias. Alguém observa uma borboleta morta, um pássaro contaminado, o corpo envelhecido da pessoa amada. Em cada uma dessas cenas, seria possível recuar. Os poemas fazem o movimento contrário: aproximam-se.…
-
Ellen Bass – O tempo que ela quiser

No caminho para o cemitério, eu dormi.Não na limusine que levava o caixão da minha mãe,mas apagada em uma van, a família toda falando ao meu redor.Eu estava exausta do sofrimento dela, de seus apelos —me ajuda e chega, chega —e tentando fazer com que a morfina permanecesse na vala de suas gengivas.Como pude não ter estudado…
-
Ellen Bass – Durante a pandemia, ouço a gravação de A Love Supreme no Festival Juan-les-Pins, de 26 de julho de 1965

As primeiras notas familiares, reconhecíveis em qualquer lugar, me abençoamnesta manhã selvagem. O sax de Coltrane sobee desce em cada beco, entra e sai das veias e sobre a facedas águas e nos corações de pedra.E quando repete A love supreme de novo e de novo,é como se, se o dissesse o suficiente, ele pudesse…
-
Ellen Bass – Foi esta a porta

Não havia belezaquando eu me sentava na cozinha, à mesa, rompendo as cápsulas rosadas, dividindo os grânulospara que ela pudesse ingerir a promessa precisa, onde ela se deitava no quintal envolta em colchastodas as noites olhando por entre os ramos, estrelas salpicadas no venoso céu escuro.Não havia tempo lá fora. Ou o tempo era grande…
-
Ellen Bass – Fracasso

Eu parecia uma mulher. Tinha começadoa sangrar, algo que eu desejara com fervor,com o fervor com que ardiapor beijar Earl Freeman, sentir seu suor de homeme percorrer com os dedos a concavidade de seu peitoquando estávamos deitados na areia quente em Atlantic City,o céu claro arqueado sobre nós. Eu tinha tanta pressade crescer, dizia minha…
-
Ellen Bass – Matrimônio

Quando, depois de uma grave enfermidade, vocêfinalmente estende todo o comprimento do seu corpo sobre o meu, não é como os estratos da terra, a pressãodo tempo sobre a areia, a lama, fragmentos de conchas, todosesses anos, incontáveis despertares e adormeceres,noites em claro, brigas, manhãs banaisfalando de nada, e os brevesmergulhos ardentes, e o silênciosem…
-
Ellen Bass – Retorno para mamografia e ultrassom

Então é para isso que estou aqui, para olhar para dentrodo peso mudo da minha mama direita, um punhado densode tesouros que eu desejava quando menina quando choreiatrás da cortina na loja de espartilhos das irmãs Guerlaine.Aquelas afáveis solteironas mal podiam suportarminhas lágrimas, enquanto ajustavam as alçasde um sutiã de rendas com enchimento. Tive que…
-
Ellen Bass – Experimento de empatia

O cientista coloca cada ratoem sua própria caixa de vidroe por trinta segundos toca“What a Wonderful World.”Nos últimos três segundos, ele dá um choque no rato.Seguem-se noventa batidas de silêncio.E então o ciclo recomeça. Enquanto ele me descreve o experimentonão consigo deixar de pensar em como isso soa familiar – nm minuto,Louis Armstrong cantando,e no…
-
Ellen Bass – Porque

Porque na noite em que dei à luz meu marido ficou cego.Histérico, acho que é como você denominaria isso. Porque havia muitas pessoase depois não havia ninguém. Apenas aquela pequena criatura — seu pequeno choronão maior do que uma lantejoula. Porque eu fizera força por muitas horas.Mesmo com as placas macias do crânio dela que…
-
Ellen Bass – Pinheiros de Ponary

Pinheiros de Ponary Cem mil pessoas foram assassinadas pelos nazistas em Ponary, dez quilômetros a sudoeste de Vilnius, onde minha avó nasceu. Hoje está cinzento, garoa,mas não o suficiente para que as gotas se acumulemnas pontas das agulhas de prataou para encharcar as cascas dos pinheiros de Ponary –alguns deles com mais de um século.Eles…