Robinson Jeffers – Pecado original

O símio-terrestre com seu cérebro e mãos de homem, fisicamente
O mais repulsivo de todos os animais de sangue quente
Da terra até então: eles cavaram uma armadilha
E capturaram um mamute, mas como poderiam seus paus e pedras
Atingir a vida naquela tocaia? Eles dançaram ao redor do poço, guinchando
Com excitação de macaco, arremessando pedras afiadas em vão, e o fedor de seus corpos
Maculava o ar branco da aurora; mas logo um deles
Se lembrou do dançarino amarelo, o fogo come-lenha
Que guarda a entrada da caverna: ele correu até lá e o trouxe, e os outros
Juntaram gravetos nos limites da floresta; eles fizeram uma fogueira
E a empurraram para dentro do poço, e eles a alimentaram, aumentando-a, ao redor dos lados atolados
De sua enorme presa. Eles observaram a longa tromba peluda
Oscilar sobre a ressoante e sufocante dor,
E ficaram felizes.

Enquanto isso, a intensa cor e nobreza da aurora,
Rosa e dourado e âmbar, jorravam céu acima. Rochas úmidas brilhavam, um vento ligeiro
Balançava as folhas da floresta e as íris selvagens do pântano; o vale aprazível entre as colinas baixas
Tornava-se tão belo quanto o céu; ao passo que, no meio disso tudo, hora após hora, os felizes caçadores
Assavam sua carne viva lentamente até a morte.

Estas são as pessoas.
Este é o alvorecer da humanidade. Quanto a mim, eu preferia

Ser um verme em uma maçã silvestre do que um filho do homem.
Mas nós somos o que somos, e devemos nos lembrar de
Não odiar ninguém, pois todos são perversos;
E não nos surpreender com nenhum mal, tudo é merecido;
E não temer a morte; ela é a única forma de sermos purificados.

Trad.: Nelson Santander

Original Sin

The man-brained and man-handed ground-ape, physically
The most repulsive of all hot-blooded animals
Up to that time of the world: they had dug a pitfall
And caught a mammoth, but how could their sticks and stones
Reach the life in that hide? They danced around the pit, shrieking
With ape excitement, flinging sharp flints in vain, and the stench of their bodies
Stained the white air of dawn; but presently one of them
Remembered the yellow dancer, wood-eating fire
That guards the cave-mouth: he ran and fetched him, and others
Gathered sticks at the wood’s edge; they made a blaze
And pushed it into the pit, and they fed it high, around the mired sides
Of their huge prey. They watched the long hairy trunk
Waver over the stifle trumpeting pain,
And they were happy.

Meanwhile the intense color and nobility of sunrise,
Rose and gold and amber, flowed up the sky. Wet rocks were shining, a little wind
Stirred the leaves of the forest and the marsh flag-flowers; the soft valley between the low hills
Became as beautiful as the sky; while in its midst, hour after hour, the happy hunters
Roasted their living meat slowly to death.

These are the people.
This is the human dawn. As for me, I would rather

Be a worm in a wild apple than a son of man.
But we are what we are, and we might remember
Not to hate any person, for all are vicious;
And not be astonished at any evil, all are deserved;
And not fear death; it is the only way to be cleansed.

Algernon Charles Swinburne – O Jardim de Proserpina

Cá, em que a terra é calma;
Cá, em que o drama é como
Ar morto e exaustas almas,
Dúbios sonhos assomo;
Eu vejo o campo a medrar
Para a ceifa e o plantar,
A colheita e o roçar,
Mundo fluido de sono.

Farto de dor e riso,
E de quem chora e ri;
Do que vem sem aviso
Aos que colhem aqui:
Dos dias e das horas,
Secos brotos da flora,
Gana, sonhos, pletora,
Tudo, menos dormir.

Aqui, mortes espreitam,
E onde não há olhares
Brisas tênues escoltam
Débeis almas e naves;
São párias à deriva,
Nus de expectativa;
Mas aqui não há brisa,
Nem voejam tais aves.

Nada cresce no charco,
Nada de vinha ou flora,
Só um florescer parco,
Verdes uvas de Cora,
Camas de juncos móveis
Prenhes de folhas débeis
Que ela esmaga e fere.
Homens em sua hora.

Gris, e sem marca ou nome,
Em tal terra de sal,
Eles deitam e dormem,
Da noite ao arrebol;
E como alma tardia
Cindida na porfia,
Bruma por companhia,
Da treva irrompe o sol.

Até mesmo o mais forte
É da morte um amigo,
No céu, não rir da sorte,
Nem, no chão, do castigo;
Mesmo o que há de belo
Tem seu fim, seu flagelo;
Mesmo a paz e o desvelo
São, no fim, desabrigo.

Gris, além dos portais,
Com folhas coroada,
Une coisas mortais,
Mãos eternas, geladas;
Seus lábios são macios
Assombram os gentios
Que a buscam, erradios,
Pelas eras e plagas.

Por eles ela vela,
Por todos ela espera;
Esquece a terra bela,
A vida pura e vera;
Primavera, grãos, ave,
Vá, em seu vôo suave,
Aonde o som soa grave,
E calcada é a hera.

Lá vão amores murchos,
De asas gastas, cansados;
Anos tais ramos mochos,
E entes consternados;
Sonhos mortos e breves,
Grãos cobertos por neve,
Folhas (que o vento as leve):
Abris despedaçados.

Não sei se sofreremos,
E o gozo é incerto;
Amanhã morreremos;
O tempo é sem dileto.
O amor é fraco, aflito,
Tem lábios, mas contrito,
Ais, e olhos de olvido,
Choro que afasta o afeto.

Por muito amor à vida,
Do medo e fé libertos,
Damos graças devidas
A uns deuses incertos:
Que as vidas se extingam,
Que os mortos não se ergam;
Que os rios que serpenteiam,
Ao mar cheguem decerto.

Nem o sol, nem estrela,
Então, despertarão:
Nem água que encapela,
Nem um sinal ou som:
Nem folhas de outono;
Nem dias de abandono,
Só um eterno sono,
E eterna escuridão.

Trad.: Nelson Santander

Republicação: poema originalmente publicado no blog em 23/02/2016

 
Conheça outros livros de Algernon Charles Swinburne clicando aqui

NOTAS SOBRE A TRADUÇÃO:

Li uma estrofe deste poema, há muito tempo, no blog do poeta e filósofo Antônio Cicero, “Acontecimentos” (o meu site de poemas favorito). A estrofe em questão foi citada pelo filósofo Richard Rorty em seu último artigo, chamado “O Fogo da Vida” que, bem a propósito, trata justamente do descobrimento da importância da poesia no momento em que o autor está diante de um diagnóstico de um câncer incurável. A estrofe em questão (a mais famosa do poema) foi assim traduzida pelo próprio Antonio Cicero:

Agradecemos brevemente
A todos os deuses que há
Por não se viver para sempre;
Por jamais os mortos se erguerem;
Por chegar, por mais que volteie,
O rio sem dúvida ao mar.

We thank with brief thanksgiving
Whatever gods may be
That no life lives for ever;
That dead men rise up never;
That even the weariest river
Winds somewhere safe to sea.

A leitura desta única e poderosa estrofe despertou a minha curiosidade a respeito do resto do poema. No entanto, embora eu tenha vasculhado a internet, não consegui achar nenhuma tradução decente do poema. Achei, sim, alguns trechos, cujo sentido do texto era mais ou menos fiel ao original, sem que, todavia, o ritmo, a métrica e/ou a rima fossem observados.

No blog Ácido Carbolítico (http://resbruscato.wordpress.com/2009/10/23/o-jardim-de-proserpina/), por exemplo, a primeira estrofe foi assim traduzida:

Aqui, onde o mundo é quieto,
Aqui onde todos os problemas são
Tumultos de ondas e vento morto
Em duvidosos sonhos e ilusão;
Eu vejo o verde campo crescer
Para o povo plantar e colher,
Para o tempo de ceifar e moer,
Em sonolento mundo de tufão.

Embora a tradução observe aproximadamente o sentido do texto original e as rimas interpoladas, nota-se que a métrica foi sumariamente desprezada, transformando o hexassílabo original em verso livre. Por outro lado, a tradução de parte da penúltima estrofe proposta pelo Antonio Cicero, acima transcrita, observa a métrica (tendo ele optado por versos octossilábicos), mas descuida das rimas interpoladas, mantendo-as apenas na quarta com a oitava rimas.
Assim, como não conseguia encontrar nenhuma tradução razoavelmente satisfatória do poema, resolvi eu mesmo abraçar a tarefa.

O poema The Garden of Proserpine, do poeta vitoriano Algernon Charles Swinburne, foi escrito em 1866. Proserpina (Prosérpina) ou Cora é a grafia latina da deusa Perséfone ou Koré, casada com Hades, o deus do submundo. Segundo a lenda, ela era filha de Zeus e da deusa Deméter, da agricultura. Era muito bela, o que levou sua mãe a escondê-la longe da vista dos deuses. Quando, porém, os sinais de sua grande beleza começaram a surgir, em sua adolescência, o deus Hades por ela se apaixonou perdidamente, e a pediu em casamento diretamente a Zeus que, sem consultar Deméter, concordou com o pedido. Hades, no entanto, impaciente pela demora no casamento, a raptou enquanto ela colhia flores com as ninfas, levando-a para seus domínios (o mundo subterrâneo). Uma vez lá, desposou-a e fez dela a rainha do submundo. Deméter ficou inconsolável, e acabou se descuidando de suas tarefas. Por isso, as terras ficaram estéreis e houve escassez de alimentos. Deméter procurou por sua filha em toda parte e, por fim, descobriu, por intermédio de Hécate e Helios, que a jovem deusa havia sido levada para o mundo dos mortos. Para lá então rumou, junto com Hermes, para resgatá-la. Como, no entanto, Proserpina havia comido uma semente de romã ofertado por Hades, Zeus entendeu que ela não poderia abandonar seu marido. Em razão disso, costurou-se um acordo, segundo o qual ela passaria metade do ano com seus pais e a outra metade com Hades. Este mito é a explicação do ciclo anual das colheitas.

O melancólico poema de Swinburne se vale do mito de Proserpina para expressar um estado de espírito ligado ao desejo de paz e descanso, diante do cansaço e saciedade da vida. No poema, a morte está personificada no mito da deusa Proserpina. E o jardim de Proserpina – “seco”, melancólico, devastado pela morte e pela infertilidade – é o oposto do jardim do Éden, onde a vida viceja com frutos e vegetação exuberante. O jardim de Proserpina, morto embora, não é de todo estéril. Em vários trechos do poema fica claro que ele gerou uma colheita; mas uma colheita feita de “grãos cobertos por neve”, “secos brotos”, “folhas débeis”. No poema, a natureza não é boa e acolhedora; é, antes, indiferente. E o jardim de Proserpina é o lugar para o qual vão os “amores murchos (…), cansados”; um lugar de “sonhos mortos e breves” e de primaveras arruinadas (“abris despedaçados”).

Segue abaixo uma ótima revisão do poema, escrita por Bhaskar Banerjee.
Sobre a tradução em si cumpre fazer algumas pequenas observações. O poema original de Swinburne é construído em versos hexassílabos, e, para ficar o mais fiel possível ao original, resolvi manter, na tradução, a mesma métrica. O que demonstrou ser uma péssima ideia. A língua inglesa tem uma infinidade de palavras monossilábicas que, quando vertidas para o português, tornam-se dissílabas ou trissílabas (“man”- “homem”; “watch”- “vejo”; “dreams”-“sonhos”; “green”-“verde”; “tears”- “lágrimas”; etc.). O poema de Swinburne tem um número enorme destas palavras. Veja-se, por exemplo, o primeiro e famoso verso do poema:
Here/, where/ the/ world/ is/ quiet
Em tradução livre, este verso ficaria assim:
A/qui/, on/de o/ mun/do é/ cal/mo
Melhor seria, assim, ter optado pela redondilha maior. No entanto, tomei a dificuldade como um desafio e resolvi manter a métrica original do poema.

Mantive, também, de forma bem rigorosa o esquema de rimas interpoladas (ou intercaladas) do poema. O poema de Swinburne é composto de doze estrofes, cada qual contendo uniformemente oito versos. Nele, os versos pares iniciais rimam se interpondo entre os ímpares, seguidos por três também rimados, mas de forma diferente, no rígido esquema ABABCCCB, o que procurei manter na tradução.

O original, finalmente, é repleto de figuras de sintaxe, as quais servem para reforçar a melancolia que perpassa todo o poema por força de uma repetição quase que monótona. Algumas dessas figuras de sintaxe – como as anáforas – são relativamente fáceis de recuperar na tradução. Por exemplo:

That no life lives for ever ;
That dead men rise up never ;
That even the weariest river
Winds somewhere safe to sea

Que as vidas se extingam,
Que os mortos não se ergam;
Que os rios que serpenteiam,
Ao mar cheguem decerto.

Já as inúmeras aliterações e assonâncias espalhadas pelo texto foram muito difíceis de reproduzir com a colocação das vogais e consoantes, em minha tradução, nos pontos exatos dos versos onde ocorrem no texto original. Ainda assim, procurei inserir aliterações e assonâncias ao longo da tradução, como, por exemplo, nessas estrofes e versos:

Cá, em que a terra é calma;
Cá, em que o drama é como
Ar morto e exaustas almas,
Dúbios sonhos assomo;

Por eles ela vela,
Por todos ela espera;
Esquece a terra bela,
A vida pura e vera;
Primavera, grãos, ave,
Vá, em seu vôo suave,
Aonde o som soa grave
E calcada é a hera.

O tradutor.

UMA REVISÃO DO POEMA “O JARDIM DE PROSERPINA”
Bhaskar Banerjee

Na mitologia grega, Prosérpina é a filha de Ceres e da esposa de Plutão. Ela é, portanto, a deusa do Hades (isto é, o reino dos mortos), e seu Jardim fica na fronteira de Hades. Swinburne usa esse mito para expressar um estado de espírito. Em “O Jardim de Proserpina” o Jardim torna-se um símbolo da morte e da extinção. O poema exprime sentimentos de cansaço e saciedade para fazer da inevitabilidade da morte algo a ser aceito e até desejado.

Não a morte em si, mas sim o desejo de morte, é o tema do poema. Prosérpina é vista como a deusa, não da morte apenas, mas de todos os fins, de todas as ‘pequenas mortes’ – do dia, do amor, das estações do ano – que tornam a vida dolorosa, mas sem as quais a vida seria insuportável. É, paradoxalmente, o “muito amor à vida”, que produziu este hino em honra da morte.
O tema de Swinburne deriva muito de sua capacidade de se valer de outros aspectos do mito. Por exemplo, ele compara a Prosérpina mortífera e estéril com a Prosérpina cujo periódico retorno à terra significa o renascimento da Primavera. Prosérpina é, portanto, representada como uma ‘belle dame sans merci “, ameaçadora, mesmo repugnante, mas sedutora e irresistível.

O poema começa por estabelecer o contraste entre a quietude do Jardim e do mundo do homem atarefado; migra então para uma descrição do próprio Jardim, de Prosérpina, e de seu poder sobre o mundo, e termina com uma expressão de alívio na cessação definitiva de todas as coisas.
Os motivos e as imagens são repetidas, e o sucesso do poema depende dessas repetições. Swinburne usa os recursos da linguagem – musical, imagética, emotiva – para evocar um estado de espírito. O soporífero, mesmo hipnótico, efeito das repetições combina perfeitamente com o humor. Há, por exemplo, as imagens repetidas de flores, folhas, frutas e milho, que caracterizam a vida tanto do homem na terra e do Jardim em si. As repetições geram contrastes: as áreas de terra são verdes e crescem, enquanto os campos Proserpina são ‘inúteis’ e ‘nada cresce no charco”. Mas as repetições servem também para estabelecer paralelos: se brotos e folhas de Proserpina são “de um florescer parco”, a terra também produz “secos brotos da flora”.
A repetição é também utilizada para gerar efeitos de linguagem em dispositivos tais como anáfora, assonância e, acima de tudo, aliteração. Nas últimos três estrofes, o som e o sentido combinam para dar uma impressão exata da impermanência das coisas que torna a vida, em última análise, tão estéril como a morte.

http://voices.yahoo.com/a-review-poem-garden-proserpine-517330.html

The Garden Of Proserpine

Here, where the world is quiet;
Here, where all trouble seems
Dead winds’ and spent waves’ riot
In doubtful dreams of dreams;
I watch the green field growing
For reaping folk and sowing,
For harvest-time and mowing,
A sleepy world of streams.

I am tired of tears and laughter,
And men that laugh and weep ;
Of what may come hereafter
For men that sow to reap :
I am weary of days and hours,
Blown buds of barren flowers,
Desires and dreams and powers
And everything but sleep.

Here life has death for neighbour,
And far from eye or ear
Wan waves and wet winds labour,
Weak ships and spirits steer ;
They drive adrift, and whither
They wot not who make thither ;
But no such winds blow hither,
And no such things grow here.

No growth of moor or coppice,
No heather-flower or vine,
But bloomless buds of poppies,
Green grapes of Proserpine,
Pale beds of blowing rushes
Where no leaf blooms or blushes
Save this whereout she crushes
For dead men deadly wine

Pale, without name or number,
In fruitless fields of corn,
They bow themselves and slumber
All night till light is born ;
And like a soul belated,
In hell and heaven unmated,
By cloud and mist abated
Comes out of darkness morn.

Though one were strong as seven,
He too with death shall dwell,
Nor wake with wings in heaven,
Nor weep for pains in hell ;
Though one were fair as roses,
His beauty clouds and closes ;
And well though love reposes,
In the end it is not well.

Pale, beyond porch and portal,
Crowned with calm leaves, she stands
Who gathers all things mortal
With cold immortal hands ;
Her languid lips are sweeter
Than love’s who fears to greet her
To men that mix and meet her
From many times and lands.

She waits for each and other,
She waits for all men born ;
Forgets the earth her mother,
The life of fruits and corn ;
And spring and seed and swallow
Take wing for her and follow
Where summer song rings hollow
And flowers are put to scorn.

There go the loves that wither,
The old loves with wearier wings ;
And all dead years draw thither,
And all disastrous things ;
Dead dreams of days forsaken,
Blind buds that snows have shaken,
Wild leaves that winds have taken,
Red strays of ruined springs.

We are not sure of sorrow,
And joy was never sure;
To-day will die to-morrow;
Time stoops to no man’s lure;
And love, grown faint and fretful,
With lips but half regretful
Sighs, and with eyes forgetful
Weeps that no loves endure.

From too much love of living,
From hope and fear set free,
We thank with brief thanksgiving
Whatever gods may be
That no life lives for ever ;
That dead men rise up never ;
That even the weariest river
Winds somewhere safe to sea

Then star nor sun shall waken,
Nor any change of light:
Nor sound of waters shaken,
Nor any sound or sight:
Nor wintry leaves nor vernal,
Nor days nor things diurnal;
Only the sleep eternal
In an eternal night.

Reginald Gibbons – O que remanesce

Sim, o pão está envenenado. E não há sequer um gole de ar.
Como é difícil curar a ferida da vida.
O próprio José, vendido ao Egito como escravo,
não poderia ter ficado mais profundamente magoado.

Então, sob o enxame de estrelas do céu, chegam os Beduínos.
Eles acalmam seus cavalos. Então, por turnos, com olhos fechados,
cada um inventa algum fragmento cantado de seu dia que nada
teve de épico, que só lhes trouxe tédio,

pois entre tais cavaleiros, pouco é necessário para inspirar —
nas dunas, um homem perdeu uma aljava de flechas,
outros trocaram alguns castrados por uma égua — os eventos são
apenas uma névoa que rareia e desaparece.

Mas se — se — tais canções forem cantadas até o fim
com todo o coração, com toda respiração dos pulmões,
quase tudo desaparece… E o que remanesce
é a vastidão do deserto, as estrelas, e aquele que canta.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: “What Remains” é uma versão do poeta, romancista, tradutor e crítico literário americano Reginald Gibons para o poema “Отравлен хлеб, и воздух выпит…” (“O ar foi todo bebido e o pão, corrompido…”), que traduzi e publiquei neste blog no último sábado. Aqui você pode ler uma (ótima) revisão deste poema.

What Remains

Yes, bread that’s poisoned. And not even one sip of air.
How hard it is for the wound of life to be cured.
Joseph himself, sold to Egypt as a slave,
could not have been more heavily grieved.

Then under the sky-swarm of stars, Bedouins come.
They quiet their horses. Then in turn, with eyes closed,
each invents some chanted fragment of their day
of epic nothing, that only brought them boredom,

for among such riders, little’s needed to inspire—
in the dunes, one man lost a quiver of arrows,
others traded some geldings for a mare—events are
only a mist that thins and disappears.

But if—if—such songs are sung out to the end
with all the heart, with all the breath in the lungs,
almost everything vanishes . . . And what remains
is the desert vastness, the stars, the one who sings.

Ósip Mandelstam – O ar foi todo bebido e o pão, corrompido…

O ar foi todo bebido e o pão, corrompido.
Cicatrizar as feridas é tão custoso!
O jovem José, ao Egito vendido,
Não poderia estar mais desgostoso!

Os beduínos, sob a abóboda estrelada,
A cavalo, e de olhos semicerrados,
Concebem sagas improvisadas
Sobre seu dia vagamente vivenciado.

De quase nada precisam que lhes dê alento:
Um perdeu sua aljava no arenoso chão;
Outro trocou de cavalo – os eventos
Se dissipam como a cerração;

E se alguém canta uma canção
Com verdade, de peito aberto,
Tudo desaparece – nada resta senão
As estrelas, o espaço e o bardo!

Trad.: Nelson Santander

Отравлен хлеб, и воздух выпит...

Отравлен хлеб, и воздух выпит.
Как трудно раны врачевать!
Иосиф, проданный в Египет,
Не мог сильнее тосковать!

Под звездным небом бедуины,
Закрыв глаза и на коне,
Слагают вольные былины
О смутно пережитом дне.

Немного нужно для наитий:
Кто потерял в песке колчан,
Кто выменял коня — событий
Рассеивается туман.

И, если подлинно поется,
И полной грудью, наконец,
Все исчезает — остается
Пространство, звезды и певец!

Heather McHugh – O que ele pensou

O que ele pensou
para Fabio Doplicher

Teríamos que fazer um trabalho na Itália
e, repletos dos nossos sentimentos por
nós mesmos (nossa sensação de sermos
Poetas da América) fomos
de Roma a Fano, conhecemos
o prefeito, refletimos
sobre alguns assuntos (o que é
uma piriguete, eles nos perguntaram; o que é
cerveja sem colarinho). Entre os literatos italianos

conseguíamos reconhecer nossos homólogos:
o acadêmico, o apologista,
o arrogante, o amoroso,
o ousado e o frívolo — e havia um

administrador (o conservador), em um terno
cinza regular, que como um bom guia turístico,
em ritmo comedido e tom não flexionado, descrevia
as paisagens e histórias através das quais a van alugada nos conduzia.
De todos, ele era o mais político e o menos poético,
assim parecia. Nos nossos últimos dias em Roma
(quando todos já haviam decolado, exceto três dos Bardos do Novo Mundo),
encontrei um livro de poemas que o
desinteressante havia escrito: estava ali
no quarto da pensione (um quarto que ele havia recomendado)
no qual provavelmente fora abandonado
pelo visitante alemão (havia um ônibus deles?)
para quem ele o havia autografado e datado um mês antes.
Eu também não sabia ler italiano, então coloquei o livro
de volta no escuro do guarda-roupas. Nós, os últimos americanos,

deveríamos partir no dia seguinte. Para nossa noite de despedida então
nosso anfitrião optou por algo em um restaurante familiar, e lá
nós nos sentamos e conversamos, nos sentamos e mastigamos,
até que, sentindo que aquela era a nossa última
grande chance de sermos poéticos, e de deixarmos
nossa marca, um de nós perguntou
                                             “O que é poesia?
São as frutas e vegetais e
o mercado do Campo dei Fiori, ou
a estátua que tem lá?” Porque eu era

a frívola, identifiquei a resposta
instantaneamente, sequer precisei pensar — “Na verdade
são ambas, são as duas coisas”, deixei escapar. Mas aquilo
foi fácil. Aquilo foi o mais fácil de se dizer. O que se seguiu
ensinou-me algo sobre dificuldade,
pois nosso subestimado anfitrião começou a falar,
de repente, com paixão crescente, e disse:

A estátua representa Giordano Bruno,
trazido para ser queimado em praça pública
por ofender a
autoridade, ou seja,
a Igreja. Seu crime foi crer que
o universo não gira em torno
do ser humano: Deus não é
um ponto fixo ou o poder central, e sim
vertido em ondas sobre todas as coisas. Tudo se
move. “Se Deus não é a própria alma, Ele é
a alma da alma do mundo.” Tal foi a
sua heresia. No dia em que o trouxeram
para morrer, eles temiam que ele pudesse
incitar a multidão (o homem era famoso
por sua eloquência). E assim seus captores
colocaram sobre o seu rosto
uma máscara de ferro, sob a qual

ele não podia falar. Foi
assim que o queimaram. Foi assim que
ele morreu: sem uma palavra, na frente
de todos.
                     E a poesia —
                                        (todos nós
já tínhamos pousado nossos garfos para ouvir
o homem de cinza; ele continuou
suavemente) —
                  poesia é o que

ele pensou, mas não disse.

Trad.: Nelson Santander

What He Thought
for Fabio Doplicher

We were supposed to do a job in Italy
and, full of our feeling for
ourselves (our sense of being
Poets from America) we went
from Rome to Fano, met
the mayor, mulled
a couple matters over (what’s
a cheap date, they asked us; what’s
flat drink). Among Italian literati

we could recognize our counterparts:
the academic, the apologist,
the arrogant, the amorous,
the brazen and the glib—and there was one

administrator (the conservative), in suit
of regulation gray, who like a good tour guide
with measured pace and uninflected tone narrated
sights and histories the hired van hauled us past.
Of all, he was the most politic and least poetic,
so it seemed. Our last few days in Rome
(when all but three of the New World Bards had flown)
I found a book of poems this
unprepossessing one had written: it was there
in the pensione room (a room he’d recommended)
where it must have been abandoned by
the German visitor (was there a bus of them?)
to whom he had inscribed and dated it a month before.
I couldn’t read Italian, either, so I put the book
back into the wardrobe’s dark. We last Americans

were due to leave tomorrow. For our parting evening then
our host chose something in a family restaurant, and there
we sat and chatted, sat and chewed,
till, sensible it was our last
big chance to be poetic, make
our mark, one of us asked
“What’s poetry?”
Is it the fruits and vegetables and
marketplace of Campo dei Fiori, or
the statue there?” Because I was

the glib one, I identified the answer
instantly, I didn’t have to think—”The truth
is both, it’s both,” I blurted out. But that
was easy. That was easiest to say. What followed
taught me something about difficulty,
for our underestimated host spoke out,
all of a sudden, with a rising passion, and he said:

The statue represents Giordano Bruno,
brought to be burned in the public square
because of his offense against
authority, which is to say
the Church. His crime was his belief
the universe does not revolve around
the human being: God is no
fixed point or central government, but rather is
poured in waves through all things. All things
move. “If God is not the soul itself, He is
the soul of the soul of the world.” Such was
his heresy. The day they brought him
forth to die, they feared he might
incite the crowd (the man was famous
for his eloquence). And so his captors
placed upon his face
an iron mask, in which

he could not speak. That’s
how they burned him. That is how
he died: without a word, in front
of everyone.
And poetry—
(we’d all
put down our forks by now, to listen to
the man in gray; he went on
softly)—
poetry is what

he thought, but did not say.

Agi Mishol – A mártir

“A noite fica cega, e você tem apenas vinte anos.”
– Nathan Alterman, “Late Afternoon in the Market”

Você tem apenas vinte anos
e sua primeira gravidez é uma bomba.
Sob sua folgada saia você está grávida de dinamite
e fragmentos de metal. É assim que você entra no mercado
tiquetaqueando entre as pessoas, você, Andalleb Takatka.

Alguém soltou os parafusos de sua cabeça
e lançou-lhe em direção à cidade;
embora tenha vindo de Belém,
a Casa do Pão, você escolheu uma padaria.
E ali puxou o pino de segurança para fora de si mesma,
e junto com o pão do Sabbat,
sementes de sésamo e gergelim,
você se atirou em direção ao céu.

Juntamente com Rebecca Fink você voou
com Yelena Konre’ev do Cáucaso
e Nissim Cohen do Afeganistão
e Suhila Houshy do Irã
e dois chineses que você também arrastou
para a morte.

Desde então, outros assunto
têm obscurecido a sua história,
sobre a qual eu falo o tempo todo
sem ter nada a dizer.

Trad.: Nelson Santander

 WOMAN MARTYR

“The evening goes blind, and you are only twenty.”
– Nathan Alterman, “Late Afternoon in the Market”

You are only twenty
and your first pregnancy is a bomb.
Under your broad skirt you are pregnant with dynamite
and metal shavings. This is how you walk in the market,
ticking among the people, you, Andaleeb Takatka.

Someone loosened the screws in your head
and launched you toward the city;
even though you come from Bethlehem,
the Home of Bread, you chose a bakery.
And there you pulled the trigger out of yourself,
and together with the Sabbath loaves,
sesame and poppy seed,
you flung yourself into the sky.

Together with Rebecca Fink you flew up
with Yelena Konre’ev from the Caucasus
and Nissim Cohen from Afghanistan
and Suhila Houshy from Iran
and two Chinese you swept along
to death.

Since then, other matters
have obscured your story,
about which I speak all the time
without having anything to say.

Traduzido do hebraico para o inglês por Lisa Katz

Jane Kenyon – Desmontando a árvore

“Deem-me um pouco de luz!” grita o tio
de Hamlet em meio ao assassinato
de Gonzaga. “Luz! Luz!” choram as cortesãs
em dispersão. Aqui, como na Dinamarca,
é escuro às quatro, e até a lua
brilha apenas com a metade de um coração.

Os enfeites vão para a caixa:
o spaniel prateado – com Meu amor
na coleira – da infância de mamãe
no Illinois; o polichinelo de madeira de balsa
pelo qual meu irmão e eu brigamos,
puxando membro por membro. Mamãe
remendou-o novamente com linha
enquanto eu observava, sentindo-me depravada
aos dez anos de idade.

Com algo mais do que cautela
eu os manuseio, e as luzes, com seus
espelhos refletores em forma de estrela, trazidas
de casa em casa, suas caixas de papelão
de brinquedo cada vez mais frágeis.
Tic, tic, fazem as secas agulhas ao cair.

Na hora do jantar, tudo o que resta é o cheiro
do pinheiro. Se é para termos
escuridão, que seja extravagante.

Trad.: Nelson Santander

Taking Down the Tree

“Give me some light!” cries Hamlet’s
uncle midway through the murder
of Gonzago. “Light! Light!” cry scattering
courtesans. Here, as in Denmark,
it’s dark at four, and even the moon
shines with only half a heart.

The ornaments go down into the box:
the silver spaniel, My Darling
on its collar, from Mother’s childhood
in Illinois; the balsa jumping jack
my brother and I fought over,
pulling limb from limb. Mother
drew it together again with thread
while I watched, feeling depraved
at the age of ten.

With something more than caution
I handle them, and the lights, with their
tin star-shaped reflectors, brought along
from house to house, their pasteboard
toy suitcases increasingly flimsy.
Tick, tick, the desiccated needles drop.

By suppertime all that remains is the scent
of balsam fir. If it’s darkness
we’re having, let it be extravagant.

Samuraitiger19 – Nos minutos finais de sua vida, Calvin teve uma última conversa com Haroldo…

“Calvin? Calvin, querido?”

No escuro, Calvin ouviu a voz de Susie, sua esposa de 53 anos. Calvin se esforçou para abrir os olhos. Deus, ele se sentia tão cansado e foi preciso muita força para conseguir. Lentamente a luz espantou as trevas, e ele enxergou novamente. Aos pés de sua cama estava sua esposa. Calvin molhou os lábios ressequidos e falou com voz rouca: “Você… o… encontrou?”

“Sim, querido”, disse Susie, com tristeza na voz. “Ele estava no sótão.”

Susie enfiou a mão dentro de sua grande bolsa e tirou para fora um velho e macio tigre cor de laranja. Calvin não pôde deixar de rir. Havia sido assim por muito tempo. Muito tempo.

“Eu o lavei para você”, disse Susie, sua voz falhando um pouco enquanto ela colocava o tigre de pelúcia ao lado de seu marido.

“Obrigado, Susie”, disse Calvin.

Por algum tempo, Calvin apenas permaneceu deitado em sua cama de hospital, a cabeça virada para o lado, olhando o velho brinquedo com nostalgia.

“Querida”, Calvin disse finalmente, “Você se importaria em me deixar sozinho com o Haroldo por um tempo? Eu gostaria de conversar com ele.”

“Tudo bem”, disse Susie. “Vou pegar algo para comer no restaurante. Volto daqui a pouco.”

Susie beijou seu marido na testa e virou-se para sair. Com força repentina, mas suavemente, Calvin a deteve. Carinhosamente, ele puxou sua esposa e lhe deu um beijo apaixonado nos lábios. “Eu te amo”, disse Susie.

Susie se virou e saiu. Calvin viu as lágrimas que escorriam em seu rosto enquanto ela passava pela porta.

Calvin então se virou para encarar seu mais antigo e querido amigo. “Oi, Haroldo. Já faz muito tempo, não é, velho amigo?”

Haroldo não era mais um boneco de pelúcia, mas o grande e velho tigre peludo de quem Calvin sempre se lembrava. “Muito tempo, Calvin”, disse Haroldo.

“Você… não mudou nem um pouco.” Calvin sorriu.

“Você mudou bastante”, disse Haroldo com tristeza.

Calvin sorriu. “Mesmo? Eu nem percebi.”

Houve uma longa pausa. O som de um relógio tiquetaqueando os segundos ecoou no estéril quarto de hospital.

“Então… Você se casou com a Susie Derkins”, disse Haroldo, finalmente sorrindo. “Eu sempre soube que você gostava dela.”

“Cale a boca!”, Calvin falou, com um imenso sorriso no rosto.

“Conte tudo o que eu perdi. Eu adoraria saber o que você tem feito!”, Haroldo falou, entusiasmado.

E assim Calvin disse-lhe tudo. Contou como ele e Susie se apaixonaram quando ainda estavam na escola e como haviam se casado logo depois de se formar; sobre seus três filhos e quatro netos; sobre como ele transformou o Astronauta Spiff em um dos mais populares romances de ficção científica da década, e assim por diante. Depois de contar tudo para Haroldo houve novamente uma longa pausa.

“Você sabe… Eu visitei você no sótão um monte de vezes.” Calvin disse.

“Eu sei.”

“Mas eu não conseguia vê-lo. Tudo o que eu enxergava era um bicho de pelúcia”. Sua voz estava embargada e lágrimas de arrependimento começaram a jorrar de seus olhos.

“Você cresceu, velho amigo”, disse Haroldo.

Calvin não resistiu mais e soluçou, abraçando seu melhor amigo. “Eu sinto muito! Eu sinto muito! Eu quebrei minha promessa! Eu havia prometido que não iria crescer e que nós ficaríamos juntos para sempre!”

Haroldo acariciou os cabelos de Calvin, ou o pouco que restava deles. “Mas você não a quebrou.”

“Como assim?”

“Estávamos sempre juntos… em nossos sonhos.”

“Estávamos?”

“Sim.”

“Haroldo?”

“Sim, velho amigo?”

“Estou tão feliz por ter visto você assim… uma última vez…”

“Eu também, Calvin. Eu também.”

“Querido?”, a voz de Susie soou atrás da porta.

“Sim, querida?”, respondeu Calvin.

“Posso entrar?”, Susie perguntou.

“Só um minuto.”

Calvin voltou-se para Haroldo pela última vez. “Adeus, Haroldo. Obrigado… por tudo…”

“Não. Eu que agradeço, Calvin”, Haroldo disse.

Calvin voltou-se para a porta e disse: “Pode entrar agora.”

Susie entrou e disse: “Olha quem veio visitá-lo.”

Os filhos e netos de Calvin seguiram Susie quarto adentro. O neto mais novo ultrapassou correndo todos os outros e deu um forte e entusiasmado abraço em Calvin. “Vovô!!”, gritou a criança, visivelmente feliz.

“Francis!”, ralhou a filha de Calvin, “Seja gentil com seu avô.”

A filha de Calvin voltou-se para ele. “Sinto muito, papai. Francis não tem se comportado muito bem nos últimos tempos. Ele só corre e faz bagunça e agora deu pra vir com umas histórias estranhas.”

Calvin sorriu e disse: “Olha só! O mesmo que diziam de mim quando eu tinha a idade dele.”

Calvin e sua família conversaram um pouco mais, até que uma enfermeira disse: “Desculpem, o horário de visitas está quase terminando.”

Os entes queridos de Calvin se despediram, prometendo voltar no dia seguinte. Enquanto eles se preparavam para sair, Calvin disse: “Francis. Venha aqui um pouco.”

Francis chegou perto do avô, “O que é isso, vovô?”

Calvin pegou o tigre de pelúcia que estava em sua cabeceira e, com as mãos trêmulas, o estendeu para seu neto, que olhou para o tigre exatamente como ele fizera muitos anos atrás. “Este é o Haroldo. Ele era o meu melhor amigo quando eu tinha a sua idade. Eu quero que ele seja seu agora.”

“É apenas um tigre de pelúcia”, Francis disse, com as sobrancelhas levantadas.

Calvin sorriu: “Bem, deixe-me contar-lhe um segredo.”

Francis inclinou-se para Calvin. Calvin sussurrou: “Se você capturá-lo com uma armadilha para tigres usando um sanduíche de atum como isca ele se transformará em um tigre de verdade”.

Francis suspirou, com reverente admiração. Calvin continuou: “E não é só isso, ele será seu melhor amigo para sempre.”

“Uau! Obrigado, vovô!” Francis disse, abraçando seu avô com força novamente.

“Francis, precisamos ir agora.”, chamou a filha de Calvin.

“Ok!”, gritou Francis de volta.

“Cuide bem dele”, Calvin disse.

“Sim”, Francis disse, antes de sair correndo atrás dos outros membros da família.

Calvin se deitou de costas e olhou para o teto. A hora de partir estava chegando. Ele podia senti-lo na alma. Calvin tentou se lembrar de uma frase que ele leu em um livro uma vez. Ela dizia algo sobre a morte ser a próxima grande aventura ou algo parecido. Suas pálpebras ficaram pesadas e sua respiração tornou-se mais lenta. Enquanto mergulhava em seu sono final, ele ouviu a voz de Haroldo, como se o tigre estivesse ao seu lado. “Eu vou cuidar dele, Calvin…”

Calvin deu seu primeiro passo em direção a mais uma aventura e seu último suspiro com um sorriso no rosto.

NOTA: Conto publicado no Reddit, escrito por samuraitiger19, e livremente traduzido por mim. Embora se trate de uma história relativamente simples, escrita sem grande apuro literário, seu autor conseguiu – a se crer nos comentários dos leitores – a façanha de fazer chorar um número enorme de visitantes que leram a historieta. Por que será? Eu tenho um palpite. Quem teve a sorte de ter em mãos e ler as tirinhas com as histórias de Calvin e Haroldo, magistralmente escritas e desenhadas por Bill Watterson, ingressou em um universo que remete diretamente à infância que não é apenas a do personagem, mas também a do leitor. Esse talvez seja o segredo do sucesso das tirinhas que, embora tenham sido descontinuadas desde 1995, continuam ganhando fãs até hoje mundo afora: a capacidade de reviver em nós, leitores, nossa infância perdida. Então chega um aspirante a escritor e conta uma história em que são narrados os últimos minutos de vida do adorado personagem, valendo-se de alguns dos inúmeros elementos das tirinhas (o tigre que “ganha vida” aos olhos do personagem principal; a “armadilha para tigres”; a valorização de alguns aspectos da infância, como a imaginação e a amizade; Susie Derkins; o Astronauta Spiff), o que causa uma imediata sensação de identificação, como se o conto fosse mesmo a última história sobre Calvin. E pensamos: “Sim, esses poderiam ser realmente os últimos momentos do Calvin”. E no final, como era de se esperar, Calvin morre. Assim como morreu já há muito tempo nossa infância. E aqui está aquilo que julgo ser o maior mérito do conto: o de nos lembrar que tudo tem um fim e que nem mil tigres de pelúcia conseguiriam impedir a passagem do tempo e toda a transformação que ela provoca.
Tá bom, eu confesso: também chorei quando li a historinha…

Link para a o original:

In the final minutes of his life, Calvin has one last talk with Hobbes.

REPUBLICAÇÃO. Texto publicado originalmente no blog em 28/02/2016.

Henri Cole – Cerejeiras choronas

Em um platô, com pequenas montanhas,
um rio lamacento, perigoso quando a neve derretia,
um vale fértil, criadores de gado, e um conservatório musical,
um povo alto, belo, ágil, de negros cabelos lisos
e um espírito empreendedor, vivia pacificamente. Embora
nunca tenha havido ódio entre as raças,
após uma discussão sobre questões locais, massacres ocorreram.
Homens, mulheres & crianças pilhados & deportados — evacuação,
foi como eles chamaram. Cabeças empaladas em galhos. Montes
de cadáveres, como flores macabras atadas umas às outras.
Um navio que passava transportou alguns deles para um porto distante,
onde mamãe nasceu — embora agora ela também tenha desaparecido
para o universo — e o frio acobreou as cerejeiras choronas,
vermelho vivo mesclado com melancólico azul.

Trad: Nelson Santander

Weeping cherry

On a plateau, with little volcanic mountains,
a muddy river, dangerous when the snow melts,
a fertile valley, cattle breeders, and a music academy,
a tall, handsome, agile people, with straight black hair
and an enterprising spirit, lived peaceably. Though
there had never been hatred between the races,
after a quarrel over local matters, massacres came.
Men, women, & children robbed & deported—an evacuation,
they called it. Heads impaled on branches. Mounds
of corpses, like grim flowers knotted together.
A passing ship transported a few to a distant port,
where Mother was born, though now she, too,
has vanished into the universe, and the cold browns
the weeping cherry, vivid red mixed with blue.

Robyn Sarah – Ao fechar o apartamento dos meus avós de abençoada memória

E então eu me vi naquela sala pela vez final.
Mantive-me firme, com a chave em minha mão,
e ouvi o silêncio que era como um som,
e percebi como o longo sol da tarde invernal
baixava de maneira oblíqua ao chão
fazendo florir os veios do assoalho. (Tudo o que eles um dia
possuíram estava guardado aqui.) Na janela gemia
um estilhaço de vento. Em breve eu partiria.

Em breve eu partiria; mas primeiro eu permaneci,
ouvindo a passagem dos anos naquela área desabitada
em que a plenitude ecoava. Em que o conhecido cheiro,
de uma vida tranquila, vivida com simplicidade, se agarrava ali
como uma graça duradoura, um sentimento, uma melodia há muito amada.
Então eu fechei tudo e toquei a campainha do porteiro.

/Trad.: Nelson Santander

On Closing the Apartment of my Grandparents of Blessed Memory

And then I stood for the last time in that room.
The key was in my hand. I held my ground,
and listened to the quiet that was like a sound,
and saw how the long sun of winter afternoon
fell slantwise on the floorboards, making bloom
the grain in the blond wood. (All that they owned
was once contained here.) At the window moaned
a splinter of wind. I would be going soon.

I would be going soon; but first I stood,
hearing the years turn in that emptied place
whose fullness echoed. Whose familiar smell,
of a tranquil life, lived simply, clung like a mood
or a long-loved melody there. A lingering grace.
Then I locked up, and rang the janitor’s bell.