Dan Gerber – No final de setembro

Certa estrela, da qual eu gostava,
desapareceu. É possível que
eu a tenha perdido. Esqueci
os nomes das nuvens e árvores e
rostos, como canções das quais
remanesce apenas uma duradoura melodia.
*
Pequeno riacho,
sob os salgueiros junto à minha cabana alugada —
mais minha do que qualquer outra que eu possa possuir —,
diga-me novamente o nome secreto
que você murmura enquanto estou sentado aqui sozinho,
sem decepções nem esperanças.

Trad.: Nelson Santander

In Late September

A certain star I’ve grown fond of
has gone missing. It’s possible
I’ve misplaced it. I’ve forgotten
the names of clouds and trees and
faces, like songs from which
only an abiding melody remains.
*
Little creek,
under the willows by my rented cabin—
more mine than any I could own—
tell me again the secret name
you murmur as I sit here alone,
without disappointment or hope.

J.C. Todd – Velhos Amigos, Aqui e Adeus

Ei, pervertida, ele diz, olhando-me, no funeral
de nossa amiga, causa da morte: um câncer nas
entranhas do cérebro no interior da estrutura óssea
que dava ao seu rosto tanta beleza. Durante a químio,
seu encanto se igualou aos reveses – seu couro cabeludo
à mostra e os músculos de sua mão esquerda muito fracos
para segurar um pincel. Ele a tranquilizava
no hospital, na ala de cuidados paliativos, ministrando-lhe
lascas de gelo, caldo vegano. Quando a fala dela serpeava
para além da compreensão, ele ouvia
a sequência de sons como se fosse um jazz selvagem demais
para o sentido humano – Sonny Rollins soltando-se
no sax ou Johnny Hodges uivando no seu
flugelhorn dourado. Estou implorando, Johnny gemeu
na noite fria e úmida, lenço azul alisando
o topo de sua cabeça através de um gorro de crochê branco,
implorando por perdão. Era o que eu precisava naquela
época, minha tristeza libertada pelas amarras e sexo
selvagem, a clareza subitamente mais importante
do que sua dor. Ainda pervertida?, ele perguntou. Na mão,
não posso esquecer, uma dose de uísque, sua superfície
intacta, mantida em perfeita tensão pela borda.
Seus olhos serenos, devolvendo meu rosto para mim, acalmavam,
como seu olhar havia feito em nosso ano turbulento e
novamente nesta primavera para nossa amiga que, eu ouvi,
reagiu ao seu toque, as pálpebras piscando abertas,
embora o nervo ótico estivesse machucado pela pressão
crescente do tumor, e a luz repentina ferisse seus olhos.

Trad.: Nelson Santander

Old Friends, Here and Gone

Hey, kinky, he says, checking me out at our friend’s
memorial, cause of death a cancer in
the folds of brain inside the bony structure
that gave her face such beauty. During chemo
her grace grew equal to reversals – her scalp
bared and the muscles of her left hand too weak
to hold a watercolor brush. He had soothed
her in the hospital, the hospice, spooning
ice chips, vegan broth. When her speech meandered
beyond understanding, he had listened to
the streams of sound as if to a jazz too wild
for human sense – Sonny Rollins breaking loose
on sax or Johnny Hodges yowling through his
golden flugelhorn. I’m beggin’, Johnny moaned
one clammy night, blue handkerchief mopping
the crown of his head through a white crochet cap,
beggin’ for mercy. That’s what I’d needed back
then, my sadness set free by restraints and rough
sex, the clarity of sudden more essential
than its pain. Still kinky, he asks. In the hand
I can’t forget, a dram of scotch, its surface
undisturbed, held in perfect tension by the rim.
His eyes, calm, returning my face to me, calmed,
as his gaze had done in our turbulent year and
again this spring for our friend who, I have heard,
rallied at his touch, eyelids blinking open,
although the optic nerve was bruised by the tumor’s
mounting pressure, and sudden light hurt her eyes.

Matthew Olzmann – Comercial de Mountain Dew disfarçado de poema de amor

Então, eis o que eu tenho, as razões pelas quais nosso casamento
pode funcionar: porque você usa rosa, mas escreve poemas
sobre lápides e balas. Porque você grita
com suas chaves quando as perde, e ri,
ruidosamente, de suas próprias piadas. Porque você sabe empunhar uma pistola,
estripar um porco. Porque você memoriza canções, mesmo jingles
de trinta anos atrás, e as entoa quando inspira.
Você tem mãos macias. Porque quando nos mudamos, o conteúdo
do que você embalou ficou escrito dentro das caixas.
Porque você acha os cisnes superestimados e meio estúpidos.
Porque você me levou até a estação ferroviária. Você me levou
para Minneapolis. Você me levou para Providence.
Porque você sublinha tudo o que lê, e circula
as coisas que acha importantes, e coloca estrelas ao lado
das coisas que acha que eu deveria considerar importantes,
e escreve notas marginais sobre todas as pessoas
com quem você está irritada e meu nome quase nunca está lá.
Porque você fez aquela receita de carne de porco que achou
no livro de culinária da Frida Kahlo. Porque quando leu
aquele ensaio sobre Rilke, você sublinhou tudo,
exceto a parte onde Rilke diz que amar significa negar-se a si mesmo
e ser consumido pelas chamas. Porque quando as luzes
estão apagadas, as cortinas, fechadas, e um lençol adicional pregado
nas janelas, você ainda acredita que alguém do lado de fora
pode vê-la. E um dia, cinco verões atrás,
quando você não podia colocar gasolina em seu carro, quando sua geladeira
estava tão vazia — sem sequer restos e condimentos —,
havia ali uma única garrafa de 500 ml de Mountain Dew,
que você pagou com seu último maldito centavo
porque uma vez me ouviu dizer que eu gostava.

Trad.: Nelson Santander

Mountain Dew Commercial Disguised as a Love Poem

So here’s what I’ve got, the reasons why our marriage
might work: Because you wear pink but write poems
about bullets and gravestones. Because you yell
at your keys when you lose them, and laugh,
loudly, at your own jokes. Because you can hold a pistol,
gut a pig. Because you memorize songs, even commercials
from thirty years back and sing them when vacuuming.
You have soft hands. Because when we moved, the contents
of what you packed were written inside the boxes.
Because you think swans are overrated and kind of stupid.
Because you drove me to the train station. You drove me
to Minneapolis. You drove me to Providence.
Because you underline everything you read, and circle
the things you think are important, and put stars next
to the things you think I should think are important,
and write notes in the margins about all the people
you’re mad at and my name almost never appears there.
Because you made that pork recipe you found
in the Frida Kahlo Cookbook. Because when you read
that essay about Rilke, you underlined the whole thing
except the part where Rilke says love means to deny the self
and to be consumed in flames. Because when the lights
are off, the curtains drawn, and an additional sheet is nailed
over the windows, you still believe someone outside
can see you. And one day five summers ago,
when you couldn’t put gas in your car, when your fridge
was so empty—not even leftovers or condiments—
there was a single twenty-ounce bottle of Mountain Dew,
which you paid for with your last damn dime
because you once overheard me say that I liked it.

Werner Aspenström – Depois ouvir Mozart o dia todo

As árvores se despem e se vestem
repetidamente,
como em um casamento.
Os gansos selvagens vão para o sul, e depois para o norte.
Você conhece a natureza, conhece as artes.
Como Mozart o socorre?
O rebanho cinzento de pequenos estudantes se afastou
por sob as tílias
e o rebanho cinzento de pequenos estudantes retornou.
Música é tempo cultivado.
O tempo não fecha as cicatrizes do tempo.

Trad.: Nelson Santander (a partir da tradução do sueco para o inglês feita por Malena Mörling e Jonas Ellerström)

After having played Mozart all day

The trees undress and dress
repeatedly,
as in a marriage.
The wild geese head south, head north.
You know nature, you know the arts.
How does Mozart help you?
The gray flock of school children wandered off
below the linden trees
and the gray flock of school children returned.
Music is cultivated time.
Time does not heal time’s wounds.

Joaquin Zihuatanejo – Exame final para o meu pai

1. Verdadeiro ou falso. Na noite em que abandonou a mim e minha mãe você hesitou antes de segurar a maçaneta.

2. Se um ônibus deixa a cidade a 100 km por hora para lugar nenhum em particular, e um homem naquele ônibus deixou seu único filho para trás na escuridão dessa cidade, quantos quilômetros serão necessários para que esse filho esqueça como são e com o que se parecem as mãos de seu pai?

3. Na noite em que nos abandonou, quantos corações você partiu?

A. um, o meu

B. um, o de minha mãe

C. dois, o meu e o de minha mãe

D. três, o meu, o de minha mãe e o seu

4. Verdadeiro ou Falso. Em algumas espécies do reino animal, quando um membro masculino dessa espécie abandona sua prole, ele é condenado ao ostracismo, espancado e, em alguns casos, morto.

5. No espaço abaixo, defina os termos longe, genitor e progenitor.

6. Na noite em que seu pai morreu, o que diria a Deus se tivesse algo a dizer?

7. Quando sobrevivemos nove dias seguidos antes que o cheque da previdência social chegasse, com um saco de milho e uma panela cheia de vontades que tinham gosto de feijão, você sentia o fogo na ponta de seus dedos toda vez que minha mãe suspirava enquanto virava a tortilha na chama acessa?

8. Por causa do seu sangue, passei todos os dias de minha vida envolto por uma pele clara demais para ser parda e escura demais para ser branca. Eu costumava odiar isso em mim, até que finalmente passei a amar. O que você ama e odeia em você?

9. Quando jovem você:

A. nunca amou uma jovem e bela mulher parda.

B. amou uma jovem e bela mulher parda.

C. amou muitas jovens e belas mulheres pardas

D. amava apenas a ideia de jovens e belas mulheres pardas

10. Liste cinco coisas pelas quais você é verdadeiramente grato e cinco coisas das quais você verdadeiramente se arrepende.

11. A mãe de um famoso poeta americano disse certa vez: “Mães [solteiras] são quase sempre homens melhores do que os homens.” O que você acha disso?

12. Sem usar as palavras “Eu” ou “sinto muito”, no espaço fornecido escreva uma carta de desculpas para minha mãe.

13. Em uma escala de um a dez, sendo um nada difícil e dez bastante difícil, quão desafiador você acha que é para um guerro1 crescer no lower east side2?

14. Quando criança, seu filho se lembra de ouvir seus tios bêbados sussurrando com vozes abafadas, não destinadas aos seus ouvidos, que provavelmente você não era o pai daquela criança. Há algo que gostaria de dizer a eles?

15. Complete a frase:

“Meu filho, se eu tivesse apenas uma coisa para lhe dizer seria __________”

E uma última pergunta para concluir o teste:

Curaria ou partiria seu coração se eu lhe dissesse

Eu o perdoo?

Trad.: Nelson Santander

N. do T.:

1. Guerro é uma gíria hispânica usada para denominar uma pessoa (normalmente homens jovens) de pele clara e/ou loira, na maioria das vezes de forma depreciativa

2. o Lower East Side é um bairro da cidade de Nova York com grande diversidade racial, mas composto, em sua maioria, por hispânicos (32%) e asiáticos (30%)

Final Exam for My Father

1. True or False. The night that you walked out me and my mother, you hesitated before grabbing the doorknob.

2. If a bus leaves the city at 60 miles per hour to nowhere in particular, and a man on that bus has left his only son behind in the darkness of that city, how many miles will it take before that son forgets what his father’s hands look and feel like?

3. On the night that you left us, how many hearts did you break?

A. one, mine

B. one, my mother’s

C. two, mine and my mother’s

D. three, mine, my mother’s and yours

4. True or False. In certain species of the animal kingdom, when a male member of that species abandons his offspring that male member of that species is ostracized, beaten, and in some instances killed.

5. In the space provided, define the terms further, farther, and father.

6. On the night that your father died, what if anything did you have to say to God?

7. When we survived nine days in a row before the welfare check came in, on a bag of maiz and a crock pot full of wishes that tasted just like frijoles, did you feel the fire on your fingertips every time my mother winced as she turned the tortilla on the open flame?

8. Because of your blood, I have spent every day of my life enveloped by skin that’s too light to be brown and too dark to be white. I used to hate this about myself, but I have finally come to love this about myself. What do you love and hate about yourself?

9. As a young man you

A. never loved a young, beautiful dark brown woman.

B. loved one young, beautiful dark brown woman.

C. loved many young, beautiful dark brown women

D. loved only the idea of young beautiful dark brown women

10. List five things that you are truly grateful for and five things that you are truly regretful for.

11. A famous American poet’s mother once said, “[Single] mothers are almost always better men than men are.” What do you make of this?

12. Without using the words, “I’m” or “sorry” in the space provided write an apology letter to my mother.

13. On a scale from one to ten, with one being not difficult at all and ten being quite difficult, how challenging do you think it is for a guerro to grow up in the barrio of the lower east side?

14. As a child your son remembers hearing his drunk uncles whisper in hushed voices not meant for his ears that more than likely you were not that child’s father. What if anything do you have to say to them?

15. Finish this sentence:

My son, if I only had one thing to say to you, it would be

And one final question to conclude the test:

Would it mend or break your heart if I told you,

I forgive you?

Linda Pastan – O adeus de Dido

O adeus de Dido1

Crônica é a chuva
em minhas vidraças, e as velas se afogam
em sua própria cera.
Abandonados pela luz,
mesmo os filamentos de estrelas
escurecem. Esta tarde,
eu escorei com hastes
suas rosas encharcadas,
elas parecem meninas
de muletas agora.

Você deixou
um mapa parcial
de sua mão direita
em cada maçaneta,
e eu sigo de sala
em sala, nômade
em minha própria casa,
o coração batendo
no peito, exigindo
ser solto.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.

1. O título do poema provavelmente faz referência ao mito de Dido (ou Elissa ou Alyssa), a primeira rainha de Cartago, e sua grande paixão por Eneias, filho de Afrodite e um dos grandes heróis de Troia. Segundo a Eneida, de Virgilio, Dido teria se suicidado ao ser abandonada por Enéas, por quem se apaixonara quando o grande comandante e herói troiano aportou em Cartago. Em uma das passagens mais belas de Dido and Aeneas, a ópera em três atos de Henry Purcell, o episódio do suicídio de Dido é narrado na ária Dido’s Lament, que pode ser conferida nesse vídeo, na comovente interpretação da soprano Anna Dennis.

Dido’s Farewell

The rain is chronic
at my windows, and candles drown
in their own wax.
Abandoned by light,
even the filaments of stars
go black. This afternoon
I propped your drenched roses
up on sticks,
they look like young girls
on crutches now.

You left
a partial map
of your right hand
on every doorknob,
and I follow from room
to room, nomad
in my own house,
my own heart knocking
at my ribs, demanding
to be let out.

Li-Young Lee – Das flores

Das flores vem
este saco de papel pardo com os pêssegos
que compramos do menino
na curva da estrada onde dobramos em direção
às placas escritas Pêssegos.

Dos galhos carregados, das mãos,
da doce comunhão nas latas,
vem o néctar da beira da estrada, suculentos
pêssegos que devoramos, com a pele empoeirada e tudo,
vem o pó familiar do verão, pó que comemos.

Ó!, levar no interior o que amamos,
carregar dentro de nós um pomar, comer
não só a pele, mas a sombra,
não só o açúcar, mas os dias, tomar
a fruta em nossas mãos, adora-la, e depois morder
o júbilo redondo do pêssego.

Há dias em que vivemos
como se a morte não fizesse parte
de nenhum cenário; de alegria
em alegria até a alegria, de asa em asa,
de flor em flor até a
impossível flor, a doce e impossível flor.

Trad.: Nelson Santander

From Blossoms

From blossoms comes
this brown paper bag of peaches
we bought from the boy
at the bend in the road where we turned toward
signs painted Peaches.

From laden boughs, from hands,
from sweet fellowship in the bins,
comes nectar at the roadside, succulent
peaches we devour, dusty skin and all,
comes the familiar dust of summer, dust we eat.

O, to take what we love inside,
to carry within us an orchard, to eat
not only the skin, but the shade,
not only the sugar, but the days, to hold
the fruit in our hands, adore it, then bite into
the round jubilance of peach.

There are days we live
as if death were nowhere
in the background; from joy
to joy to joy, from wing to wing,
from blossom to blossom to
impossible blossom, to sweet impossible blossom.

Malena Mörling – Simplesmente iluminado

Muitas vezes no fim da tarde,
depois de outro dia, depois de
mais um ano de dias,
no meio da noite a caminho de casa
eu paro na loja de conveniência
e, aguardando na fila, me pego
perguntando sobre as pessoas. Eu me pergunto
se elas também se perguntam como é
estranho que estejamos
aqui na terra.
E como, para poder viver,
todos temos que dormir.
E como temos camas para isto
(a não ser que estejamos sem)
e quartos inteiros para onde vamos
no final do dia para desabar.
E penso em como mesmo as pessoas
mais animadas ficam desoladas
quando estão sozinhas
porque elas também precisam dormir
e, mais cedo ou mais tarde, morrer.
Estamos sempre procurando adquirir
mais comida para outras excelentes refeições.
Temos que ter excelentes refeições.
Não é o suficiente ser uma pessoa comprando
uma caixa de leite? Uma simples
latinha de manteiga
e um pão integral?
Não basta só ficar aqui
enquanto a doce caixa de meia-idade
registra as compras?
Olho para fora,
mas não consigo ver muito ali
porque está escuro agora, exceto
por um solitário letreiro de neon vermelho
flutuando sobre o posto de combustível
como um templo em miniatura simplesmente
iluminado contra a noite.

Trad.: Nelson Santander

Simply Lit

Often toward evening,
after another day, after
another year of days,
in the half dark on the way home
I stop at the food store
and waiting in line I begin
to wonder about people. I wonder
if they also wonder about how
strange it is that we
are here on the earth.
And how in order to live
we all must sleep.
And how we have beds for this
(unless we are without)
and entire rooms where we go
at the end of the day to collapse.
And I think how even the most
lively people are desolate
when they are alone
because they too must sleep
and sooner or later die.
We are always looking to acquire
more food for more great meals.
We have to have great meals.
Isn’t it enough to be a person buying
a carton of milk? A simple
package of butter and a loaf
of whole wheat bread?
Isn’t it enough to stand here
while the sweet middle-aged cashier
rings up the purchases?
I look outside,
but I can’t see much out there
because now it is dark except
for a single vermilion neon sign
floating above the gas station
like a miniature temple simply lit
against the night.

Javier Salvago – Canção para esse dia

Agora sim
já se vê
o porvir.
Agora sim
é o fim
que está aqui.

Que esta é
– agora sim –
a vetustez:
a aridez,
não esperar
nenhum trem.

Agora sim
o navio
vai partir.
Sem saber
se é o fim
ou o além.

Acabou,
não há mais
show.
Cai a cortina,
Diz adeus
o ator.

Agora sim
é o fim
que está aqui.
Agora sim
já se vê
o porvir.

Trad.: Nelson Santander

Canción para ese día

Ahora sí
que se ve
ya venir.
Ahora sí
que el final
está aquí.

Que esto es
– ahora sí –
la vejez:
la aridez,
no esperar
ningún tren.

Ahora sí
que está el barco
al partir.
Sin saber
si es el fin
o hay después.

Se acabó,
no da más
la función.
Cae el telón,
se despide
el actor.

Ahora sí
que el final
está aquí.
Ahora sí
que se ve
ya venir.

Margaret Atwood – Um barco

A noite chega e as colinas adensam-se;
desvanecimento rubro e amarelo das folhas.
Os gélidos pinheiros se alongam em suas sombras.

Abaixo deles, a água silencia,
um pôr do sol tremeluzindo nela.
Mais um que desce para se juntar aos outros.

Agora o lago se expande
e se fecha, simultaneamente.

A escuridão que se mantém
sob a superfície durante o dia
emerge dela como a névoa
ou como névoa.

A distância se esvai, a ausência
de distância faz pressão contra os olhos.

Não há como ver o lago,
apenas os contornos das colinas,
que são quase idênticas,

familiares para mim como o sono,
e as margens se desdobrando sobre margens
em seus contornos de lenta respiração.

É pelo tato que eu vou,
o barco como mão sondando
através de cardumes e entre
árvores mortas, elevando-se invisível
sobre os penedos, camada
por camada de tempo afogado desaparecendo.

Foi assim que aprendi a navegar
na escuridão sem estrelas.

Estar perdido é apenas uma falha de memória.

Trad.: Nelson Santander

A Boat

Evening comes on and the hills thicken;
red and yellow bleaching out of the leaves.
The chill pines grow their shadows.

Below them the water stills itself,
a sunset shivering in it.
One more going down to join the others.

Now the lake expands
and closes in, both.

The blackness that keeps itself
under the surface in daytime
emerges from it like mist
or as mist.

Distance vanishes, the absence
of distance pushes against the eyes.

There is no seeing the lake,
only the outlines of the hills
which are almost identical,

familiar to me as sleep,
shores unfolding upon shores
in their contours of slowed breathing.

It is touch I go by,
the boat like a hand feeling
through shoals and among
dead trees, over the boulders
lifting unseen, layer
on layer of drowned time falling away.

This is how I learned to steer
through darkness by no stars.

To be lost is only a failure of memory.