Categoria: Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami

Jack Gilbert – Poemas e Elegias para Michiko Nogami

Depois da morte da esposa, Jack Gilbert encontra um fio de cabelo preso à terra de um abacateiro que ela havia plantado. O cabelo poderia ser apenas um vestígio, uma prova mínima de que alguém passou por aquele lugar. Em “Casados”, porém, ele pertence ao mesmo mundo que a planta, a casa e os gestos repetidos da vida comum. A morte não transformou imediatamente Michiko em lembrança abstrata. Ela ainda está aderida às coisas.

É por essa imagem que convém entrar nos poemas que Jack Gilbert escreveu sobre Michiko Nogami. Não pelo hospital, pelo câncer ou pelo instante da perda, mas por um cabelo reaparecendo entre a terra e as raízes. Antes de ser a mulher morta das elegias, Michiko foi alguém que plantava, falava, caminhava, comia e dividia uma casa. A matéria preserva aquilo que a memória, sozinha, talvez convertesse depressa demais em símbolo.

Michiko Nogami nasceu em 1946. Japonesa, escultora, viveu cerca de onze anos com Gilbert e morreu de câncer em 1982, aos 36 anos. Esses poucos fatos ajudam a situar os poemas, mas não os encerram. Sua presença neles não permanece estável: muda de forma à medida que a experiência da convivência, da doença e do luto também muda. Michiko aparece viva, doente, morta, imaginada de volta; torna-se peso carregado, voz recordada, ausência que se intensifica e lembrança que começa a enfraquecer.

O conjunto reunido nesta página não corresponde a um livro recomposto. Os primeiros sete poemas foram publicados no Singularidade Poética como uma sequência numerada, mas essa ordem pertence ao percurso editorial do site, não à cronologia da vida, da escrita ou das edições de Gilbert. Os textos provêm de momentos e livros diferentes. A reunião permanece aberta porque outros poemas comprovadamente ligados a Michiko podem vir a integrá-la.

Essa abertura é importante. Uma elegia costuma sugerir um gesto posterior à morte: alguém se foi e o poema tenta falar a partir dessa ausência. Nos textos de Gilbert, contudo, a morte não ocupa toda a relação. Há poemas de convivência, cuidado, humor e desejo; há cenas em que Michiko ainda fala e outras em que a memória já não consegue fazê-la retornar com a mesma força. Chamá-los de poemas e elegias significa reconhecer essa variedade. A perda é central, mas não é a única medida da pessoa perdida.

Em “Noites e manhãs sem fim”, diferentes lugares e tempos se sobrepõem. Uma caminhada presente pode trazer consigo paisagens antigas, cidades distantes e a vida partilhada. Michiko não reaparece como fantasma isolado do mundo. Ela participa da forma como o presente é percebido. A memória não substitui aquilo que acabou; altera a experiência do que continua.

“Casados” concentra essa sobrevivência nas coisas pequenas. O cabelo na terra do abacateiro não oferece revelação sobrenatural. É apenas matéria — íntima, quase insignificante — e justamente por isso carrega tanto. O casamento não persiste como conceito. Persiste no que foi tocado, plantado e deixado para trás.

Gilbert desconfiava da ideia de transformar seus poemas sobre Michiko num livro de funeral ou de autocomiseração. Ao apresentar “Casados”, afirmou que desejava celebrar o casamento, aquilo que havia existido e ainda continuava existindo. Kochan, pequeno volume publicado em 1984, é a realização bibliográfica mais próxima dessa intenção; muitos poemas alcançariam circulação mais ampla depois, sobretudo em The Great Fires.

Celebrar o casamento, nesse contexto, não significa negar a morte. Significa recusar que ela monopolize retroativamente os onze anos anteriores. Michiko não se torna importante porque morreu. Sua morte torna mais difícil alcançar o que ela foi, mas não cria o valor do que existiu.

Em “Encontrando algo”, a doença já ocupa o quarto. A intimidade passa pela respiração enfraquecida, pela fome, pelo corpo que precisa ser levado até um recipiente improvisado. Há grandes janelas, paisagem e luz, mas nada disso afasta o poema da tarefa concreta de cuidar. O sublime e o doméstico não disputam espaço: a proximidade da morte torna ambos igualmente intensos.

A doença não aparece como destino capaz de explicar toda a relação. Também não enobrece automaticamente quem cuida. Gilbert permanece perto do desconforto, da improvisação e do espanto. O amor acontece ao tentar ouvir um som fraco, oferecer melancia, ajudar um corpo a atravessar o quarto. Cuidar é uma prática material antes de se tornar declaração.

Quando a morte chega, essa materialidade não desaparece. Em “Michiko morta”, o luto é comparado ao esforço de carregar uma caixa pesada. O homem muda a posição dos braços, dos dedos e do ombro quando os músculos se cansam. O peso não diminui; apenas passa de uma parte do corpo para outra.

A imagem retira o luto do campo das abstrações. Não há caminho ascendente, revelação ou encerramento. Há fadiga e adaptação. O sobrevivente aprende novas maneiras de sustentar aquilo que não pode colocar no chão.

O poema evita inclusive a facilidade da primeira pessoa. Ao falar de “um homem”, Gilbert cria uma pequena distância entre quem sofre e quem observa esse sofrimento. Essa distância não esfria a dor. Permite vê-la funcionando: músculos assumindo o trabalho uns dos outros, sangue deixando o braço, mãos voltando à posição inicial. O luto torna-se uma operação corporal interminável.

Em “Saudades de mim”, a perda muda de direção. Já não se trata apenas de sentir falta de Michiko. A morte dela também desorganizou a identidade de quem sobreviveu. O homem sente falta de si mesmo — daquele que existia quando ela ainda estava viva.

A imagem de uma pulseira grossa entre o relógio e o pulso torna visível essa desarticulação. O tempo continua sendo marcado, o corpo continua presente, mas algo impede que um se comunique plenamente com o outro. A morte não levou apenas uma pessoa; alterou o mecanismo pelo qual o sobrevivente reconhecia a própria vida.

Nenhum desses poemas, entretanto, transforma Michiko em solenidade permanente. “Sozinho” imagina que ela possa retornar como um dálmata. A hipótese é absurda, terna e inteiramente doméstica. O mais importante não seria compreender o mistério da volta, mas contar a ela as pequenas coisas ocorridas durante sua ausência.

O humor impede que o luto se converta em monumento. Michiko continua ligada à conversa, à curiosidade e à rotina. A possibilidade de retornar como animal não a rebaixa: devolve-lhe proximidade. O amor não exige uma aparição grandiosa. Bastaria que ela estivesse ali para ouvir.

Também em “Michiko Nogami (1946–1982)” a morta conserva uma voz. A lembrança de algo dito por ela — sua atenção às pétalas, ao modo como as coisas existem — impede que seja reduzida ao papel de esposa perdida. Uma frase, uma percepção, um gesto de humor podem guardar mais singularidade do que uma descrição biográfica completa.

A memória, porém, não permanece obediente. Em “Infidelidade”, Michiko ainda reaparece no sonho, na comida, no jardim, no vento e nas cinzas levadas a Kamakura. Aos poucos, entretanto, essas aparições se tornam menos frequentes. O título desloca para o campo moral aquilo que poderia ser descrito apenas como esquecimento: deixar de pensar constantemente na morta parece uma forma de traição.

Gilbert não elimina o desconforto dessa ideia. A memória rareia, e isso dói justamente porque o vínculo foi profundo. Mas esquecer parcialmente não significa apagar o vivido. A fidelidade não pode consistir em manter a pessoa morta intacta dentro da consciência, imune ao trabalho do tempo.

Essa percepção torna “Infidelidade” um dos poemas mais difíceis do conjunto. O luto não é apenas a incapacidade de aceitar a ausência. É também o espanto de perceber que, um dia, a ausência já não ocupa o mesmo espaço. Aquilo que parecia impossível — passar horas, talvez dias, sem pensar na pessoa morta — começa a acontecer.

Não existe triunfo nessa mudança. Tampouco culpa capaz de revertê-la. A memória é viva porque se transforma, e sua transformação inclui perda de nitidez. Gilbert admite esse movimento sem convertê-lo em superação.

“Não a felicidade, mas a consequência da felicidade” amplia o problema. O coração aparece como algo parcialmente autônomo, quase uma segunda criatura dentro do corpo. Ele pode continuar preso à morte de Michiko e, ao mesmo tempo, mover-se em outra direção. Pode florescer quando o homem acreditava que sua estação havia terminado.

A fidelidade ao casamento não exige que o coração deixe de agir. Esse é um dos paradoxos mais delicados desses poemas: continuar vivendo pode parecer uma infidelidade, mas transformar a morte em proibição do futuro seria outra maneira de falsificar o amor. O que existiu não precisa aprisionar aquilo que ainda poderá existir.

Em “Envelhecer”, Michiko já não está em nenhuma parte do mundo físico. A cena estabelece uma afinidade inesperada com o “Poema só para Jaime Ovalle”, de Manuel Bandeira: nos dois poemas, um homem desperta antes de o dia se completar, prepara sozinho sua bebida matinal e, na intimidade quase desprovida de acontecimentos, deixa que a ausência o conduza a uma meditação sobre a vida e as mulheres amadas. Mas, onde Bandeira permanece sob uma chuva de resignação, humildemente entregue à lembrança, Gilbert introduz uma resistência: o velho toma o chá, come a pera, caminha, ouve a coruja e investiga se o coração ainda permanece ambicioso. A rotina poderia sugerir serenidade definitiva, mas o desejo continua ativo.

A ambição não apaga a morta. Também não declara o luto encerrado. Ela mostra que ausência e desejo podem ocupar a mesma vida sem se anularem. O sobrevivente não precisa escolher entre conservar o passado e permanecer aberto ao futuro.

“De pouco em pouco: da meia-noite às quatro da manhã” mantém, contudo, aquilo que o futuro não corrige. O homem recorda as horas finais no hospital e se arrepende de não ter abraçado a mulher durante o tempo em que talvez ainda houvesse nela alguma consciência. Nenhuma maturidade posterior repara esse gesto ausente. O desejo é carregar até a própria morte aquilo que restou daquela omissão.

Esse poema impede que a continuidade da vida seja confundida com pacificação. O coração pode desejar novamente e ainda conservar uma ferida sem solução. Gilbert não organiza a experiência como sequência de etapas vencidas. A convivência, a doença, a culpa, o humor, o esquecimento e o novo desejo coexistem.

Por isso, estes poemas não formam uma narrativa linear. Mesmo o bloco inicial publicado no site retorna à doença depois de passar pela morte e pelo luto; aproxima lembranças antigas de percepções muito posteriores. A ordem verdadeira não é a dos acontecimentos, mas a das diferentes maneiras pelas quais Michiko pode estar presente.

Ela está presente como cabelo entre raízes, como corpo que pede água ou melancia, como peso contra o peito. Está presente como voz, dálmata imaginado, cinzas no Japão e nome que aparece cada vez menos na consciência. Está presente também na ausência absoluta que não impede o coração de continuar ambicioso.

Nenhuma dessas formas é definitiva. A pessoa amada não permanece igual depois de morrer porque também não permaneceu igual enquanto viveu. Foi companheira, escultora, esposa, doente, interlocutora, corpo e memória. Os poemas não procuram escolher uma dessas Michikos como a verdadeira. Conservam o movimento entre elas.

Esta página permanece aberta pelo mesmo motivo. Novos poemas poderão acrescentar outros tempos, objetos e maneiras de lembrar, sem completar uma história que não possui forma final. O luto não é um livro que se fecha quando todos os capítulos foram reunidos.

Lembrar e esquecer não são necessariamente gestos opostos. Desejar de novo não desmente o amor anterior. Continuar vivendo não significa colocar no chão a caixa carregada durante tantos anos. Talvez signifique apenas mudar mais uma vez a posição das mãos.

Michiko não retorna inteira. Retorna como cabelo, fala, peso, animal, cinza, falta e intervalo. Cada retorno modifica aquilo que parecia preservado. E é nessa mobilidade — não num monumento — que sua presença continua.