Adilia Lopes – Absolver (com algumas coisas de Helberto Hélder)

"Mas Maria guardava todas essas coisas, conferindo-as em seu coração" Lc 2,19 Chama-se sexo a uma parte do corpo como se todo o corpo as mãos os pés a cabeça não fossem também sexo o pênis a vagina os testículos as maminhas são frágeis vulneráveis estão expostos à crueldade são flores ou musgos posso estar … Continue lendo Adilia Lopes – Absolver (com algumas coisas de Helberto Hélder)

Mário Chamie – Cervo, Servo

1. E vem: som em torno, rumorações de margem, várzea vagido entre o mato de onde o mato cerca       rinha menor de vinda. Refém: já muxoxo, convocações de talos, talhos rangidos entre o pasto de onde o pasto fecha       largo maior de lida. Também: alto vôo, movemenções de asas, … Continue lendo Mário Chamie – Cervo, Servo

Elizabeth Bishop – A Arte de Perder

A arte de perder não é nenhum mistério; Tantas coisas contêm em si o acidente De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente. A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca mais rápido, com mais critério: Lugares, nomes, … Continue lendo Elizabeth Bishop – A Arte de Perder

Paulo Henriques Britto – de “Dez Sonetoides Mancos”

VI Nada de mergulhos. É na superfície que o real, minúsculo plâncton, se trai. Sentidos, sentimentos e outros moluscos não passam pela finíssima peneira do funcional. E o sofrimento, ai, esse nefando pinguim de louça sobre o que deveria ser, na quiti- nete do eu, uma austera geladeira… Que ninguém nos ouça: guarda esse escafandro, … Continue lendo Paulo Henriques Britto – de “Dez Sonetoides Mancos”

Berthold Brecht – Prazeres

O primeiro olhar da janela de manhã O velho livro de novo encontrado Rostos animados Neve, o mudar das estações O jornal O cão A dialéctica Tomar duche, nadar Velha música Sapatos cómodos Compreender Música nova Escrever, plantar Viajar, cantar Ser amável. Trad.: Paulo César de Souza

Vinícius de Moraes – O Verbo no Infinito

Ser criado, gerar-se, transformar O amor em carne e a carne em amor; nascer Respirar, e chorar, e adormecer E se nutrir para poder chorar Para poder nutrir-se; e despertar Um dia à luz e ver, ao mundo e ouvir E começar a amar e então sorrir E então sorrir para poder chorar. E crescer, … Continue lendo Vinícius de Moraes – O Verbo no Infinito

Manuel Bandeira – Renúncia

Chora de manso e no íntimo... Procura Curtir sem queixa o mal que te crucia: O mundo é sem piedade e até riria Da tua inconsolável amargura. Só a dor enobrece e é grande e é pura. Aprende a amá-la que a amarás um dia. Então ela será tua alegria, E será, ela só, tua … Continue lendo Manuel Bandeira – Renúncia

Carlos Drumond de Andrade – Encontro

Meu pai perdi no tempo e ganho em sonho. Se a noite me atribui poder de fuga, sinto logo meu pai e nele ponho o olhar, lendo-lhe a face, ruga a ruga. Está morto, que importa? Inda madruga e seu rosto, nem triste nem risonho, é o rosto, antigo, o mesmo. E não enxuga suor … Continue lendo Carlos Drumond de Andrade – Encontro

Giusseppe Ungaretti – Céu Claro

Bosque de Courton, julho de 1918 Depois de tanta névoa uma a uma se desvelam as estrelas Respiro o frescor que me deixa a cor do céu Me reconheço imagem passageira Presa de um ciclo imortal

Sylvia Plath – A Redoma de Vidro (excerto)

“Eu vi minha vida estendendo seus galhos em minha frente como a figueira verde da história. Da ponta de cada ramo, como um figo roxo e grande, um maravilhoso futuro acenava e piscava. Um figo era um marido e um lar feliz e filhos, e outro figo era uma famosa poetisa e outro figo era … Continue lendo Sylvia Plath – A Redoma de Vidro (excerto)