Carlos Drummond de Andrade – Relógio do Rosário

Era tão claro o dia, mas a treva, do som baixando, em seu baixar me leva pelo âmago de tudo, e no mais fundo decifro o choro pânico do mundo, que se entrelaça no meu próprio choro, e compomos os dois um vasto coro. Oh dor individual, afrodisíaco sêlo gravado em plano dionisíaco, a desdobrar-se, … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Relógio do Rosário

Donizete Galvão – Não sabe

O amor que não sabe morrerpersiste no olhar do cãoabandonado que,ao menor gesto,abana o rabona espera do afago.Está no vaso de plantaesquecido no sobradosem moradores. O amor que não sabe morrernão pretende tocar o céu.Quer ficar aqui mesmo –pedestre, incauto e reles.Não ouve a ladainha dos mortos.Nem quer a extrema-unção.

Eugénio de Andrade – Despedida

Junho chegara ao fim, a magoada luz dos jacarandás, que me pousava nos ombros, era agora o que tinha para repartir contigo, e um coração desmantelado que só aos gatos servirá de abrigo

Daniel Filipe – A invenção do amor

Em todas as esquinas da cidadenas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarrosmesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio edetergentesna vitrine da pequena loja onde não entra ninguémno átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossaesperança de fugaum cartaz denuncia o … Continue lendo Daniel Filipe – A invenção do amor

Carlos Drummond de Andrade – Os mortos

Na ambígua intimidade que nos concedem podemos andar nus diante de seus retratos. Não reprovam nem sorriem como se neles a nudez fosse maior. Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui

Ana Martins Marques – Relâmpagos

O pensamento é um pornógrafo e quase só de palavras se faz o amor e no entanto não se embaraça o pensamento com os cabelos como os meus cabelos se embaraçavam nos seus   e não se misturam as palavras com as palavras como na boca a saliva se mistura com a saliva nem as … Continue lendo Ana Martins Marques – Relâmpagos

Antonio Cicero – O livro de sombras de Luciano Figueiredo

O livro de sombras de Luciano Figueiredo 1 Para onde vou, de onde vim? Não sei se me acho ou me extravio. Ariadne não fia o seu fio à frente, mas sim atrás de mim. Não será a saída um desvio e o caminho o verdadeiro fim ? 2 Não é hora de regressos Não … Continue lendo Antonio Cicero – O livro de sombras de Luciano Figueiredo

Sophia de Mello Breyner Andresen – Ausência

Num deserto sem águaNuma noite sem luaNum país sem nomeOu numa terra nua Por maior que seja o desesperoNenhuma ausência é mais funda do que a tua. Conheça outros livros de Sophia de Mello Breyner Andresen clicando aqui

Gastão Cruz – Pedro Hestnes

Passou a alguns metros de onde eu estava; não o via há anos e nem sei qual a última vez que com ele falara Não o reconheci de imediato e bastou essa dúvida para criar um hiato na linha dos olhares de repente cruzados dentro da tarde; receara decerto não ter sido por mim reconhecido … Continue lendo Gastão Cruz – Pedro Hestnes