Categoria: Poesia em Língua Portuguesa
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Manuel Bandeira – A morte absoluta

“A Morte Absoluta”, um poema de Manuel Bandeira em que o eu lírico aspira à dissolução sem vestígios, à erradicação total do ser — não como fuga, mas como êxtase do esquecimento, apagamento do eco e transcendência do próprio nome.
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Ana Martins Marques – Há estes dias em que pressentimos na casa…

Há estes dias em que pressentimos na casaa ruína da casae no corpoa morte do corpoe no amoro fim do amorestes diasem que tomar o ônibus é no entanto perdê-loe chegar a tempo é já chegar demasiado tardenão são coisas que se expliquemapenas são dias em que de repente sabemoso que sempre soubemos e todos…
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Ferreira Gullar – Nova Concepção da Morte

Como ia morrer, foi-lhe dado o avisona carne, como sempre ocorre aos seres vivos; um aviso, um sinal, que não lhe veio de fora,mas do fundo do corpo, onde a morte mora, ou, dizendo melhor, onde ela circulacomo a eletricidade ou o medo, na medula dos ossos e em cada enzima, que veicula,no processo da…
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Ferreira Gullar – Filhos

A meu filho Marcos Daqui escuteiquando eleschegaram rindoe correndoentraramna salae logoinvadiram tambémo escritório(onde eu trabalhava)num alvoroçoe rindo e correndose foramcom sua alegriase foramSó entãome pergunteipor quenão lhes deramaioratençãose há tantose tantosanosnão os via criançasjá queagoraestão os trêscom maisde trinta anos. REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 28/03/2016
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Luís Filipe Parrado – Depois do amor

“Depois do Amor”, um poema de Luís Filipe Parrado em que a memória do outro se entranha na pele como um aroma que nem a água consegue apagar.
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Cassiano Ricardo – As Andorinhas de Antonio Nobre

—Nos—fios—tensos —da—pauta—de me-tal —as— an/do/ri/nhas—gri-tam —por—fal/ta/—de u-ma—cl’a-ve—de—sol REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 26/03/2016
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Cassiano Ricardo – Dedicatória

I Ao claro tempo, ao tempodas metamorfoses,não havia horizontena alegria do sere do acontecer. Havia a graça aéreacom que as coisas brincavamde ser e de não ser,no jardim da matéria. Hoje uma coisa passaa ser outra coisa;nascem anjos sem asadentro do dicionário;um monstro, um dragãoem lugar de um canário.Não pela alegriada metamorfose.Mas por deformaçãode cada…
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Cassiano Ricardo – O hipopótamo

Não adianta o rio lhe ofertar um espelho,se ele não sabe de quem é a imagemque o espelho reflete. Se ele pensa que a suaimagem n’água é a de um outro hipopótamo. A paisagem por volta tem algo de bíblicopois é a água da criação, ainda viva,como no primeiro dia. As árvores folhudasguardam segredos a…
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Carlos Drummond de Andrade – Declaração em Juízo

Peço desculpas de sero sobrevivente.Não por longo tempo, é claro.Tranqüilizem-se.Mas devo confessar, reconhecerque sou sobrevivente.Se é triste/cômicoficar sentado na platéiaquando o espetáculo acaboue fecha-se o teatro,mais triste/grotesco é permanecer no palco,ator único, sem papel,quando o público já virou as costase somente baratascirculam no farelo. Reparem: não tenho culpa.Não fiz nada para sersobrevivente.Não roguei aos altos…