Daniel Jonas – Ossétia

Ou como uma foto de Karpukhin
a Madonna ampara com o braço um
dos lados do triângulo
e deixa um derradeiro beijo escorrer por ele
até à cabeça morta
do seu menino no catre.

Uma cena difícil: a contenção
das sombras, do chiaroscuro,
o profundo luto quando a luta
cedeu a sua luz.

De preto ela
emoldurando a palidez do seu querido,
o crânio envolto numa ligadura,
halo de mártires.

O inconsolável.

O fotojornalismo
tem fortes influências da renascença.
Algo de terror.
Algo de Leonardo.

Miguel Martins – Para o meu pai

Muito poucos foram os dias cuja acidez não tragaste do princípio ao fim,
vinho branco retintado pela morte dos teus sonhos, um a um,
e uma bola de fogo a crescer-te no estômago, uma inteireza brutal,
virada do avesso, como se uma queda tão lenta, tão evidentemente
queda, tão claramente desesperada do futuro, pudesse ser exemplo
para quem nem sequer ouve os tiros e as fábricas de fabricar cadáveres,
ufanos da sua própria falta de desejo. Eu sei, não o duvides, António:
não podias ter vivido de outro modo e, mesmo assim, a vida ficará,
para sempre, a dever-te a maior parte dos teus anos, talvez todos,
menos algumas horas de olhos ancorados entre Jersey e Granville
(onde nunca foste), menos alguns passeios entre a mística flora
intestinal do mundo, menos algumas tardes entre as coxas ardentes
de uma qualquer beirã, cujo nome recordas, e a quem foi dado o dom
de ser mais natural que a pureza dos padres. Apenas por isso escrevo,
agora, este poema e, se quiser pensar, o que não quero, talvez conclua
que já só por ti sujo os dedos de papel: é para tentar pagar-te um pouco
dessa dívida, para imaginar-te a sorrir de olhos fechados,
como quando à memória te acudia o nome de uma gueixa que leras
entre lençóis frios, no tempo em que ainda tinhas fé na madrugada.

Ricardo Silvestrin – Sacos

Estamos repletos de inutilidades,
suas, minhas,
inutilidades de família,
de valor inestimável.

Quinquilharias, ninharias,
boiando no pó, atiradas em caixas,
envelopes rasgados, gavetas.

Ninguém se arrisca a botar fora
esses tesouros de um reino perdido
entre os guardados.

Em quantos sacos de lixo,
sacos grandes de cem litros,
vai caber todo o passado?

Adquira outras obras de Ricardo Silvestrin clicando aqui

Lisel Mueller – Desenhos de criança

1

O sol pode estar visível ou não
(pode estar atrás de você,
o expectador dessas imagens)
mas o céu é sempre azul
se é dia. Se não,
as estrelas estão quase ao seu alcance;
inclinadas, elas chegam até você,
na iminência de cair.
Nunca é nascer ou pôr do sol;
não há nenhum olho ensanguentado
espiando você no horizonte.
É claramente dia ou noite,
é brilhante ou totalmente escuro,
é aqui e nunca lá.

2

No princípio, você só precisava da
sua cabeça, uma lua boiando no espaço
e quatro galhos nus;
e quando seu corpo foi adicionado,
era leve e fino no começo,
não a capela sombria
da qual, mais tarde, você tentou escapar.
Você vivia em um mundo não newtoniano,
seus braços cresciam dos seus ombros,
seus pés não tocavam o chão,
seus cabelos escorriam,
você ainda estava voando.

3

A casa é menor do que você se lembrava,
tem janelas mas não tem porta.
Uma chaminé se assenta no telhado de duas águas,
uma espiral de fumaça o tranquiliza.
Mas a casa tem apenas duas dimensões,
como uma máscara sem rosto;
as pessoas que ali vivem ficam do lado de fora
como se o tempo fosse sempre verão —
não há nada atrás da parede
exceto um espaço de onde o vento sopra,
mas isso você não pode ver.

Trad.: Nelson Santander

Drawings by children

1

The sun may be visible or not
(it may be behind you,
the viewer of these pictures)
but the sky is always blue
if it is day. If not
the stars come almost within your grasp;
crooked, they reach out to you,
on the verge of falling.
It is never sunrise or sunset;
there is no bloody eye
spying on you across the horizon.
It is clearly day or night,
it is bright or totally dark,
it is here and never there.

2

In the beginning, you only needed
your head, a moon swimming in space,
and four bare branches;
and when your body was added,
it was light and thin at first,
not yet the dark chapel
from which, later, you tried to escape.
You lived in a non-Newtonian world,
your arms grew up from your shoulders,
your feet did not touch the ground,
your hair was streaming,
you were still flying.

3

The house is smaller than you remembered,
it has windows but no door.
A chimney sits on the gable roof,
a curl of smoke reassures you.
But the house has only two dimensions,
like a mask without its face;
the people who live there stand outside
as though time were always summer —
there is nothing behind the wall
except a space where the wind whistles,
but you cannot see that.

Carlos Drummond de Andrade – Relógio do Rosário

Era tão claro o dia, mas a treva,
do som baixando, em seu baixar me leva

pelo âmago de tudo, e no mais fundo
decifro o choro pânico do mundo,

que se entrelaça no meu próprio choro,
e compomos os dois um vasto coro.

Oh dor individual, afrodisíaco
sêlo gravado em plano dionisíaco,

a desdobrar-se, tal um fogo incerto,
em qualquer um mostrando o ser deserto,

dor primeira e geral, esparramada,
nutrindo-se do sal do próprio nada,

convertendo-se, turva e minuciosa,
em mil pequena dor, qual mais raivosa,

prelibando o momento bom de doer,
a invocá-lo, se custa a aparecer,

dor de tudo e de todos, dor sem nome,
ativa mesmo se a memória some,

dor do rei e da roca, dor da cousa
indistinta e universa, onde repousa

tão habitual e rica de pungência
como um fruto maduro, uma vivência,

dor dos bichos, oclusa nos focinhos,
nas caudas titilantes, nos arminhos,

dor do espaço e do caos e das esferas,
do tempo que há de vir, das velhas eras!

Não é pois todo amor alvo divino,
e mais aguda seta que o destino?

Não é motor de tudo e nossa única
fonte de luz, na luz de sua túnica?

O amor elide a face… Ele murmura
algo que foge, e é brisa e fala impura.

O amor não nos explica. E nada basta,
nada é de natureza assim tão casta

que não macule ou perca sua essência
ao contacto furioso da existência.

Nem existir é mais que um exercício
de pesquisar de vida um vago indício,

a provar a nós mesmos que, vivendo,
estamos para doer, estamos doendo.

Mas, na dourada praça do Rosário,
foi-se, no som, a sombra. O columbário

já cinza se concentra, pó de tumbas,
já se permite azul, risco de pombas.

Donizete Galvão – Não sabe

O amor que não sabe morrer
persiste no olhar do cão
abandonado que,
ao menor gesto,
abana o rabo
na espera do afago.
Está no vaso de planta
esquecido no sobrado
sem moradores.

O amor que não sabe morrer
não pretende tocar o céu.
Quer ficar aqui mesmo –
pedestre, incauto e reles.
Não ouve a ladainha dos mortos.
Nem quer a extrema-unção.