Eiléan Ní Chuilleanáin – Bessboro

Isso é o que eu herdei —
Nunca foi minha própria vida,
Mas o nome de uma casa que ouvi
E outros ouviram como uma advertência
Do que poderia acontecer a uma menina
Atrevida e apanhada pela má-sorte:
Um fragmento de um destino
Desolador, uma nota-marreta de medo —

Mas eu nunca vi o lugar.
Agora que estou no portão
E que o tempo já passou
É a ausência dele que chove,
Que perfura a costura
Do meu casacão, com agulhas
Pontiagudas, preenchendo o dia breve.

O portão de grades brancas está fechado,
A cerca branca perde-se de vista até
Onde passa a avenida, a chuva
Obscurece a distância, encobrindo todo som
E um semicerrado véu de névoa
Oculta elementos do conhecido:
Frontões e janelas altas e cegas.
A história se distanciou.

A chuva se incorpora ao gramado,
Soprada sobre o lago de marés
Passando pelo telhado isolado
E pelas árvores altas no parque;
Ela uiva em direção ao sul e ao oeste;
A terra é secreta como sempre:
O sangue que aqui foi semeado, floresceu,
E todas as sementes voaram para longe.

Trad.: Nelson Santander

O poema Bessboro, da poeta irlandesa Eiléan Ní Chuilleanáin, se refere ao lar para mães e bebês, atualmente conhecido como Bessborough Center, situado na cidade de Cork, onde cresceu a autora. O abrigo – para o qual mães solteiras eram secretamente enviadas para terem seus filhos, que, posteriormente, eram entregues em adoção – tem uma história controversa, iniciada nos anos 20, recheada de denúncias escabrosas: encarceramento forçado, registros falsificados de mortes, bebês e internas enterrados em sepulturas não identificadas e não registradas, abusos físico e emocionais, participação forçada em testes médicos, adoções ilícitas etc.. Para saber um pouco mais sobre a história do lugar, vale a leitura da matéria contida no link que segue, publicada na BBC News. Mas ao pesquisar na internet, dezenas de outras matérias assim podem ser encontradas.

https://www.bbc.co.uk/news/resources/idt-sh/the_girls_of_bessborough

Bessboro

This is what I inherit—
It was never my own life,
But a house’s name I heard
And others heard as warning
Of what might happen a girl
Daring and caught by ill-luck:
A fragment of desolate
Fact, a hammer-note of fear—

But I never saw the place.
Now that I stand at the gate
And that time is so long gone
It is their absence that rains,
That stabs right into the seams
Of my big coat, in pointed
Needles, crowding the short day.

The white barred gate is closed,
The white fence tracks out of sight
Where the avenue goes, rain
Veils distance, dimming all sound
And a halfdrawn lace of mist
Hides elements of the known:
Gables and high blind windows.
The story has moved away.

The rain darns into the grass,
Blown over the tidal lough
Past the isolated roof
And the tall trees in the park;
It gusts off to south and west;
Earth is secret as ever:
The blood that was sown here flowered
And all the seeds blew away.

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