Mês: dezembro 2016
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Paulo Henriques Britto – Madrigal

Desista: não vai dar certo. O mundo é o mesmo de sempre, desejo é uma coisa cega. Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam, os pés vão aonde não sabem. As cartas estão marcadas: vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo, desejo é uma porta aberta. Desista,…
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Paulo Henriques Britto – Cuidado Poeta…

Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma. Depois de um certo número de páginas anjos não pousam mais nas entrelinhas. E até a lucidez, essa moderna, também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado, não se resolve com um só lance de dados. Não basta a precisão do gesto…
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Paulo Henriques Britto – Soneto Inglês

A surpresa do amor — quando já não se espera do mundo nada em especial, e a evidência de que os anos vão se acumulando sem nenhum sinal de sentido já não dói nem comove — quando em matéria de felicidade não se deseja mais que uns nove metros quadrados de privacidade para abrigar os…
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Paulo Henriques Britto – Crepuscular

1. Chegamos tarde. (Era sempre maio, sempre madrugada. Tudo era turvo. Éramos em bando. Por medo. Ou tédio. Havia um lobo à solta na cidade aberta, e uma loucura provisória era a nossa premissa, nossa promessa. Era preciso estar o tempo todo atento, em transe, em trânsito, no assédio a um ou outro flanco do…
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Paulo Henriques Britto – Memento Mori II

Luz frágil que brota no breu e num rápido relance dá forma e cor e corpo às coisas todas, luz que se apega o pouco que pode às aparências, acredita piamente no sonho de substância que secretam, luta com todas as parcas forças contra o conforto de apagar-se enfim por trás de duas implacáveis pálpebras.
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Paulo Henriques Britto – Memento Mori I

Nenhum sinal da solidão se vê lá onde o amor corrói a carne a fundo. Dentro da pele, no entanto, você é só você contra o mundo. Esta felicidade que abastece seu organismo, feito um combustível, é volátil. Tudo que sobe desce. Tudo que dói é possível.
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Paulo Henriques Britto – Acalanto

Noite após noite, exaustos, lado a lado,digerindo o dia, além das palavrase aquém do sono, nos simplificamos, despidos de projetos e passados,fartos de voz e verticalidade,contentes de ser só corpos na cama; e o mais das vezes, antes do mergulhona morte corriqueira e provisóriade uma dormida, nos satisfazemos em constatar, com uma ponta de orgulho,a…
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Paulo Henriques Britto – De “Três Epifanias Triviais”

As coisas que te cercam, até onde alcança tua vista, tão passivas em sua opacidade, que te impedem de enxergar o (inexistente) horizonte, que justamente por não serem vivas se prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção, essas coisas que você usa e esquece assim que larga na primeira mesa —…
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Cecília Meireles – De que são feitos os dias?

De que são feitos os dias? – De pequenos desejos, vagarosas saudades, silenciosas lembranças. Entre mágoas sombrias, momentâneos lampejos: vagas felicidades, inactuais esperanças. De loucuras, de crimes, de pecados, de glórias – do medo que encadeia todas essas mudanças. Dentro deles vivemos, dentro deles choramos, em duros desenlaces e em sinistras alianças…
