Wendell Berry – Tudo de que precisamos está aqui

Gansos surgem bem acima de nós,
passam, e o céu se fecha. O abandono,
como no amor ou no sono, os mantém
no seu caminho, claro
na antiga fé: tudo de que precisamos
está aqui. E oramos, não
por uma terra ou um céu novos, mas para termos
calma no coração, e no olhar,
clareza. Tudo de que precisamos está aqui.

Trad.: Nelson Santander

What We Need Is Here

Geese appear high over us,
pass, and the sky closes. Abandon,
as in love or sleep, holds
them to their way, clear
in the ancient faith: what we need
is here. And we pray, not
for new earth or heaven, but to be
quiet in heart, and in eye,
clear. What we need is here.

Wendell Berry – O desejo de ser generoso

Tudo o que eu sirvo, morrerá, todos os meus deleites,
a carne acesa de minha carne, jardim e campo,
os lírios silenciosos que se encontram na floresta,
as florestas, a colina, a terra toda, tudo
arderá na maldade humana, ou encolherá
na própria velhice. Que o mundo me proporcione
o sono das trevas sem estrelas, para que eu possa conhecer
minha pequena luz, tirada de mim na semente
do início e do fim, para que eu possa me curvar
ao mistério e assumir minha posição na terra
como uma árvore em um campo, transitando sem pressa
ou arrependimento em direção ao que será, minha vida,
uma paciente descida voluntária em direção à relva.

Trad.: Nelson Santander

The Wish to Be Generous

All that I serve will die, all my delights,
the flesh kindled from my flesh, garden and field,
the silent lilies standing in the woods,
the woods, the hill, the whole earth, all
will burn in man’s evil, or dwindle
in its own age. Let the world bring on me
the sleep of darkness without stars, so I may know
my little light taken from me into the seed
of the beginning and the end, so I may bow
to mystery, and take my stand on the earth
like a tree in a field, passing without haste
or regret toward what will be, my life
a patient willing descent into the grass.

Wendell Berry – Questionário

1. Quanto veneno você está disposto
a consumir para o sucesso do livre
mercado e do comércio internacional? Por favor,
indique seus venenos preferidos.

2. Em nome do bem, quanto
mal você está disposto a praticar?
Preencha os campos abaixo
com os nomes de suas maldades e
atos de ódio favoritos.

3. Que sacrifícios você está disposto
a fazer pela cultura e pela civilização?
Por favor, liste os monumentos, santuários
e obras de arte que você
destruiria de bom grado.

4. Em nome do patriotismo e de nossa
bandeira, quanto de nossa amada
terra você está disposto a profanar?
Liste nos espaços a seguir
as montanhas, rios, cidades e fazendas
sem as quais você poderia passar mais facilmente.

5. Descreva sucintamente as ideias, ideais ou esperanças,
as fontes de energia, as questões de segurança
pelas quais você mataria uma criança.
Indique, por favor, as crianças que
você estaria disposto a matar.

Trad.: Nelson Santander

Questionnaire

1. How much poison are you willing
to eat for the success of the free
market and global trade? Please
name your preferred poisons.

2. For the sake of goodness, how much
evil are you willing to do?
Fill in the following blanks
with the names of your favorite
evils and acts of hatred.

3. What sacrifices are you prepared
to make for culture and civilization?
Please list the monuments, shrines,
and works of art you would
most willingly destroy.

4. In the name of patriotism and
the flag, how much of our beloved
land are you willing to desecrate?
List in the following spaces
the mountains, rivers, towns, farms
you could most readily do without.

5. State briefly the ideas, ideals, or hopes,
the energy sources, the kinds of security,
for which you would kill a child.
Name, please, the children whom
you would be willing to kill.

Wendell Berry – De “Sabbaths” (2001)

[…]

III

Peça ao mundo que revele sua quietude —
não o silêncio das máquinas quando estão paradas,
mas a verdadeira quietude pela qual canto dos pássaros,
árvores, Uvularias, caracóis, nuvens, tempestades
se tornam o que são, e nada mais.

[…]

V

O vento do outono está aqui.
Está em toda parte. Move
todas as folhas de todas as
árvores. É o único movimento
do rio. As folhas verdes
se cansam de sua cor.
Agora a noite também está no ar.
Os brilhantes falcões do dia
se retiram. As corujas despertaram.
Pequenas criaturas morrem porque
criaturas maiores estão famintas.
Quão superior a esta
humana confusão de crença
e ganância, sangue e fogo.

VI

A questão diante de mim, agora que
estou velho, não é como é estar morto,
o que sei por suficiente prática,
mas como é estar vivo, como contam
estas desgastadas colinas, e alguns quadros
de Paul Cézanne, e esta humilde
curruíra cantando, que pensa estar viva
para sempre, neste instante, e pode estar.

Trad.: Nelson Santander

From “Sabbaths” (2001)

[…]

III

Ask the world to reveal its quietude —
not the silence of machines when they are still,
but the true quiet by which birdsongs,
trees, bellworts, snails, clouds, storms
become what they are, and are nothing else.

[…]

V

The wind of the fall is here.
It is everywhere. It moves
every leaf of every
tree. It is the only motion
of the river. Green leaves
grow weary of their color.
Now evening too is in the air.
The bright hawks of the day
subside. The owls waken.
Small creatures die because
larger creatures are hungry.
How superior to this
human confusion of greed
and creed, blood and fire.

VI

The question before me, now that I
am old, is not how to be dead,
which I know from enough practice,
but how to be alive, as these worn
hills still tell, and some paintings
of Paul Cézanne, and this mere
singing wren, who thinks he’s alive
forever, this instant, and may be.

Wendell Berry – Antes de escurecer

Da varanda ao entardecer eu vi
um martim-pescador selvagem em um voo
que ele só poderia estar realizando por prazer.

Ele veio pelo rio, chapinhando
contra o rosto turvo da água
como uma pedra saltitante, passando

adiante longe da vista. E ainda assim
eu podia ouvir o chapinhar
cada vez mais distante

à medida que escurecia. Ele voltou
pelo mesmo caminho, escuro como sua sombra,
subitamente, além dos salgueiros.

O chapinhar continuou quase inaudível.
Estava escuro então. A noite
o havia acomodado em algum lugar.

— no lugar para onde ele estava indo
ou de onde, conduzido por sua alegria,
ele viera.

Trad.: Nelson Santander

Before dark

From the porch at dusk I watched
a kingfisher wild in flight
he could only have made for joy.

He came down the river, splashing
against the water’s dimming face
like a skipped rock, passing

on down out of sight. And still
I could hear the splashes
farther and farther away

as it grew darker. He came back
the same way, dusky as his shadow,
sudden beyond the willows.

The splashes went on out of hearing.
It was dark then. Somewhere
the night had accommodated him

— at the place he was headed for
or where, led by his delight,
he came.

Wendell Berry – A Paz das Coisas Selvagens

Quando as dores do mundo crescem em mim
e eu desperto na noite a um mínimo ruído
temendo pelo que poderá ser de minha vida e das de meus filhos,
eu saio e me deito onde o pato carolino
descansa em sua beleza na água, e a garça se alimenta.
Eu penetro na paz das coisas selvagens
que não tributa suas vidas com premeditações
de tristeza. Eu me coloco na presença da água parada.
E eu sinto acima de mim as estrelas cegas
esperando com suas luzes. Por um tempo
eu descanso na graça do mundo, e me sinto livre.

Trad.: Nelson Santander

The Peace of the Wild Things

When despair for the world grows in me
and I wake in the night at the least sound
in fear of what my life and my children’s lives may be,
I go and lie down where the wood drake
rests in his beauty on the water, and the great heron feeds.
I come into the peace of wild things
who do not tax their lives with forethought
of grief. I come into the presence of still water.
And I feel above me the day-blind stars
waiting with their light. For a time
I rest in the grace of the world, and am free.