Théodore Fraenckel – Meditação do fim de Agosto

Mal as árvores se abatem, o que resta da floresta? Resistirá a madeira a ser moldada pelo acréscimo de formas que lhe vem da literatura? E no entanto a natureza nada tem de humano e dela não se pode dizer que prescinde de crescer e se aquieta nos limites de uma forma que a torna … Continue lendo Théodore Fraenckel – Meditação do fim de Agosto

Henry Scott Holland – [A morte não é nada]

A morte não é nada. Ela não conta. Eu apenas passei para a sala vizinha. Nada aconteceu. Tudo permanece exatamente como sempre foi. Eu sou eu, e você é você, e a velha vida que vivemos carinhosamente juntos permanece intocada, inalterada. O que quer que tenhamos sido um para o outro, ainda o somos. Chame-me … Continue lendo Henry Scott Holland – [A morte não é nada]

José Paulo Paes – Glauco

Nas duas vezes que voltei a Curitiba não o encontrei. Numa tinha viajado para o Rio na outra tinha viajado para a morte. E nem havia mais onde encontrá-lo: o Belas Artes fechara a redação de O Dia sumira-se no ar as pensões eram terrenos baldios. Desarvorado me sentei à mesa de uma confeitaria na … Continue lendo José Paulo Paes – Glauco

Ruy Belo – Uma vez que já tudo se perdeu

Que o medo não te tolha a tua mão Nenhuma ocasião vale o temor Ergue a cabeça dignamente irmão falo-te em nome seja de quem for No princípio de tudo o coração como o fogo alastrava em redor Uma nuvem qualquer toldou então céus de canção promessa e amor Mas tudo é apenas o que … Continue lendo Ruy Belo – Uma vez que já tudo se perdeu

Mário de Sá-Carneiro – Além-Tédio

Nada me expira já, nada me vive – Nem a tristeza nem as horas belas. De as não ter e de nunca vir a tê-las, Fartam-me até as coisas que não tive. Como eu quisera, enfim d'alma esquecida, Dormir em paz num leito de hospital… Cansei dentro de mim, cansei a vida De tanto a … Continue lendo Mário de Sá-Carneiro – Além-Tédio

A. M. Pires Cabral — Confesso que voei

1 Mas, se nestas seis décadas e meia eu fui capaz de algum voo — concedo: semelhante ao das galinhas, isto é, rudimentar, desgracioso, com muitíssimo dispêndio de energia para pouca ascensão, breve e apenas em desespero de causa; em todo o caso uma forma de voo pelo qual me sustentei no ar em horas … Continue lendo A. M. Pires Cabral — Confesso que voei

Tristan Corbière – Paisagem má

Praias de ossos. A onda estertora Seus dobres, som a som, na areia. Palude pálido. O luar devora Grandes vermes – é a sua ceia. Torpor de peste: somente a febre Coze… O duende danado dorme. A erva que fede vomita a lebre, Bruxa medrosa que se some. A lavadeira branca junta os Trapos surrados … Continue lendo Tristan Corbière – Paisagem má

Ivan Junqueira – O que sabemos

É quase nada o que sabemos de nós, do que somos, do frêmito que nos empurra, débeis duendes, à cena ambígua da existência. De onde viemos? Para onde vamos? Quem nos moldou à sua esplêndida imagem, se a mão não lhe vemos? Será mesmo que o fez, consciente do risco que estava correndo, da imperdoável … Continue lendo Ivan Junqueira – O que sabemos

Goethe – Aos leitores amigos

Poetas não podem calar-se, Querem às turbas mostrar-se. Há-de haver louvores, censuras! Quem vai confessar-se em prosa? Mas abrimo-nos sub rosa No calmo bosque das Musas. Quanto errei, quanto vivi, Quanto aspirei e sofri, Só flores num ramo – aí estão; E a velhice e a juventude, E o erro e a virtude Ficam bem … Continue lendo Goethe – Aos leitores amigos

Margaret Atwood – O momento

O momento em que, depois de muitos anos de trabalho duro e de uma longa jornada, encontras-te no centro do teu quarto, casa, meio acre, milha quadrada, ilha, país, sabendo por fim como lá chegaste, e dizes: tudo isso me pertence, é o mesmo momento em que as árvores desatam seus braços macios ao teu … Continue lendo Margaret Atwood – O momento