Louis Jenkins – O casal

Eles já não dormem tão bem comoquando eram jovens. Ele fica desperto pensandoem coisas que aconteceram anos atrás, virandodesconfortavelmente de vez em quando, puxando ocobertor. Ela se preocupa com dinheiro. Primeiro ume depois o outro ficam ambos acordados durante a noite,em turnos como se estivessem de guarda, embora não consigamver muito no escuro e esteja … Continue lendo Louis Jenkins – O casal

Ada Limón – O ano dos pintassilgos

Eram dois pendendo e pairando próximosda poça de lama e do cardo almiscarado.Esvoaçando de um poste partidopara outro, banhando-se no reflexo da água da chuvacomo se fosse um espelho para algum outro universoonde as coisas fossem mais aceitáveis, mais fáceisdo que no lugar onde eu vivia. Eu os observaria:o exibido macho brilhante, a mirradafêmea, em … Continue lendo Ada Limón – O ano dos pintassilgos

Wendell Berry – Tudo de que precisamos está aqui

Gansos surgem bem acima de nós,passam, e o céu se fecha. O abandono,como no amor ou no sono, os mantémno seu caminho, clarona antiga fé: tudo de que precisamosestá aqui. E oramos, nãopor uma terra ou um céu novos, mas para termoscalma no coração, e no olhar,clareza. Tudo de que precisamos está aqui. Trad.: Nelson … Continue lendo Wendell Berry – Tudo de que precisamos está aqui

Lisel Mueller – Coisas

O que aconteceu é que nos sentimos solitáriosvivendo entre as coisas,por isso demos ao relógio um rosto,à cadeira um encosto,à mesa quatro pernas robustasque jamais sofrerão fadiga. Calçamos nossos sapatos que têm línguastão macias quanto as nossase penduramos linguetas dentro dos sinospara podermos ouvirsua linguagem emocional, e porque adoramos perfis elegantesa jarra recebeu boca,a garrafa … Continue lendo Lisel Mueller – Coisas

Noël Coward – Nada está perdido

No fundo do nosso sub-consciente, somos informados,Repousam todas as nossas memórias, todas as notasDe todas as canções que já ouvimos,E o que disseram os que amamos, cada frase pronunciada,Tristezas e perdas que desde então o tempo tem consolado,Piadas de família, caquéticas anedotasCada souvenir sentimental e cadaSímbolo de tudo o que já vimos e vivemos,Cada palavra … Continue lendo Noël Coward – Nada está perdido

Claudia Rankine – Intempérie

Em um pedaço do papel no arquivo está escritoesqueci minha sombrinha. Acontece queem uma pandemia todos, não só o filósofo,estamos sem uma. Nós batalhamos na seca de informaçõesretidas por investidores privilegiados. Gota a gota. Protegendoo rosto? Sim. Distanciamento social? Sete palmossob a terra por condições subjacentes. Pretos.Apenas nós e os azuis ajoelhados em um pescoçocom … Continue lendo Claudia Rankine – Intempérie

R S Thomas – Charneca

É bela e calma;                 o ar rarefeitocomo o interior de uma catedral esperando uma presença. É também onde                  ocorre o tartaranhão,materializando-se do nada, neve- suave, mas com garras de fogo,                   … Continue lendo R S Thomas – Charneca

Jane Hirshfield – Hoje, outro universo

O arborista determinou:senescência         pragas        cancroacelerado pela seca|                                    mas, em qualquer caso,não podável       não tratável       não passível de escoras. E assim. O ramo de onde gritam o gavião-miúdo e … Continue lendo Jane Hirshfield – Hoje, outro universo

Galway Kinnell – Aquela noite silenciosa

Eu voltarei àquela noite silenciosaem que nos deitamos juntos e conversamos em vozes baixas, silenciosas,enquanto do lado de fora caíam lentos fragmentos de nevesuave, silenciando ao se aproximar do solo,com um incêndio no quarto, onde séculosde árvores evolaram-se em contínuas almas-ausentando-se,sem um estalido, até a luz da manhã.Só dormimos quando o que se apressava mais … Continue lendo Galway Kinnell – Aquela noite silenciosa

Barbara Crooker – No meio

de uma vida que é tão complicada quanto a de todo mundo,batalhando por equilíbrio, equilibrando o tempo.O relógio de lareira que foi do meu avôparou às 9:20; não tivemos tempode conserta-lo. O pêndulo de bronze está imóvel,os sinos não soam. Um dia eu olho pela janela,verde verão, no outro, as folhas já caírame um céu … Continue lendo Barbara Crooker – No meio