Anabel Torres – Quando meu corpo e minha cabeça

Quando meu corpo e minha cabeça
começaram a arder e a provocar incêndios,
minha mãe, como bombeiro enlouquecido,
me perseguia por toda a casa.

Apontava contra mim, implacável
o poderoso jorro de seu medo
e tratava de me enterrar.

Assim cresci.

Meu pai era diferente.

Defendia diante de mim, por igual, e com igual veemência e convicção
as vantagens do gelo e do fogo.

Quando meus incêndios chegavam
a seu máximo ponto de fusão
se afastava, discreto.

Se fracassavam,
me sugeria novos lugares.
Me dava pistas sobre alguns incêndios que ele havia provocado.
Me falava das maravilhas da sombra
ou me trazia fósforos.

Se estava longe, mandava longas cartas,
celebrando a vida, a palavra,
nossa comum piromania.

E sempre acrescentava esse p.s.:
“Anabel, o dólar é estritamente para sorvetes ou fósforos”.

Quando meu pai temia por minha segurança
– e sem dúvida temia, pois conhecia não só meu amor pelo fogo
mas minha propensão às queimaduras –
o fazia sozinho, em sua casa.

Minha mãe, criada em San Benito, residente
do purgatório
bela
como um cesto de tangerinas
quando não era seu dia de turno,
com seu sorriso de cerejeiras e pássaro em seus dias livres,
ao morrer me amou por sobre todas as coisas:
não permitiu que eu herdasse sua mangueira.
Devolveu-a à sua família,
à casa de onde veio intacta.

Meu pai, ao morrer, há três anos, continuou morrendo.
Logrou tão dificilmente morrer, que inclusive
desde então
já saiu ileso de alguns atentados.

Amava tanto a vida. Era tão vigoroso
frente ao frio.
Era tão rico em incêndios.

Trad.: Carlito Azevedo

Cuando mi cuerpo y mi cabeza

Cuando mi cuerpo y mi cabeza
empezaron a arder y a hacer incendios,
mi madre, como un bombero enloquecido
me perseguía por toda la casa.

Apuntaba hacia mí, implacable,
el potente chorro de su miedo
y trataba de tumbarme.

Así crecí.

Mi padre fue distinto.

Defendió ante mí, por igual, y con igual vehemencia y convicción
las ventajas del hielo y el fuego.

Cuando mis incendios llegaban
a su máximo punto de fusión
se apartaba, discreto.

Si fracasaban,
me sugería nuevos sitios.
Me daba claves sobre algunos incendios que él había
hecho propios.
Me hablaba de las maravillas de la sombra
o me traía fósforos.

Si estaba lejos, mandaba largas cartas,
celebrando la vida, la palabra,
nuestra común piromanía.

Y siempre agregaba esta postdata:
‘Anabel, el dólar es estrictamente para helados
o fósforos’.

Cuando mi padre temía por mi seguridad
– y debió temer, pues conocía no sólo mi gusto por el fuego
sino mi propensión a las quemaduras –
lo hacía solo, en su casa.

Mi madre, criada en San Benito, residente
del purgatorio,
hermosa
como un reguero de mandarinas
cuando no estaba de turno,
con su risa de cerezos y pájaro en sus días libres,
al morir me amó por encima de todas las cosas:
No permitió que yo heredara su manguera.
La devolvió a su familia,
a la casa de donde era intacta.

Mi padre, al morir hace tres años, siguió muriendo.
Logró tan difícilmente morir, que incluso
desde entonces
ha salido ileso de algunos atentados.

Amaba tanto la vida. Era tan vigoroso
frente al frío.
Era tan rico en incendios.

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