Juan Vicente Piqueras – Papoulas

No antigo campo de batalha onde morreram milhares de meninos cresce novamente o trigo, salpicado aqui e ali de ardentes papoulas. E dois amantes, que terão mais ou menos a idade dos soldados que aqui então morreram, hoje fazem amor no semeado. Deitam o trigo. Calcam as papoulas. Trad.: Nelson Santander Amapolas Sobre el antiguo … Continue lendo Juan Vicente Piqueras – Papoulas

Louise Glück – Outubro

1. É inverno outra vez, faz frio outra vez, Frank não escorregou no gelo, ele não se curou, não se plantaram as sementes da primavera a noite não terminou, o gelo derretido não inundou as calhas estreitas meu corpo não foi resgatado, não era seguro não se formou a cicatriz, invisível sobre a lesão terror … Continue lendo Louise Glück – Outubro

Raquel Lanseros – A propósito de Eros

De todas as terrenas servidões que aprisionam meu afã neste cárcere confesso-me devedora da carne e de todos os seus íntimos vaivéns que me fazem mais feliz        e menos livre. Às vezes, porém, a escravidão se mostra soberana e me sinto senhora do destino.   Porque sei amar, porque provei da fruta   e nunca maldisse o … Continue lendo Raquel Lanseros – A propósito de Eros

Jorge Valdés Díaz-Vélez – O material do relâmpago

Calculaste em detalhes cada passo, sutil, há muitos séculos. Finalmente teu marido viajou e as crianças foram dormir com os avós. Estás agora sozinha e eufórica voltaste-te a se maquiar e vestiste-te de preto rigoroso e perfumaste tua mínima porção de lingerie. Estás tremendo, dizes a ti mesma, mas nada te fará voltar atrás. Olhas … Continue lendo Jorge Valdés Díaz-Vélez – O material do relâmpago

Carlos Drummond de Andrade – Dentaduras duplas

Dentaduras duplas! Inda não sou bem velho para merecer-vos... Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas. (Coroas sem reino, os reinos protéticos de onde proviestes quando produzirão a tripla dentadura, dentadura múltipla, a serra mecânica, sempre desejada, jamais possuída, que acabará com o tédio da boca, a boca que beija, a boca … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Dentaduras duplas

T. S. Eliot – A Viagem dos Magos

 “Foi um frio que nos colheu Na pior quadra do ano Para uma viagem, e longa era a viagem: Os caminhos enlameados e o tempo adverso Em pleno coração do inverno.” E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis, Jaziam em meio à neve derretida. Foram momentos em que recordamos Os palácios estivais sobre … Continue lendo T. S. Eliot – A Viagem dos Magos

Blas de Otero – Ímpeto

Mas nem tudo há de ser ruína e vazio E nem tudo escombro ou descongelação. Por cima deste ombro levo o céu, e por cima deste outro, um vasto rio de entusiasmo. E meu corpo no meio, árvore luzente gritando do chão. E, entre raízes mortais, sofreguidão, meu coração desperto, raio sombrio. Somente o anseio … Continue lendo Blas de Otero – Ímpeto

Mary Oliver – O quarto signo do zodíaco

1. Porque eu deveria ter ficado surpresa? Caçadores percorrem a floresta sem um som. O caçador, armado com seu rifle, a raposa com seus pés de seda, a serpente em seu império de músculos — todos se movem em silêncio, famintos, cuidadosos, atentos. Exatamente como o câncer entrou na floresta do meu corpo, sem um … Continue lendo Mary Oliver – O quarto signo do zodíaco

Robert Hayden – Aqueles domingos de inverno

Também aos domingos meu pai acordava cedo e vestia suas roupas no frio azul escuro, depois, com as mãos rachadas doloridas do trabalho no tempo durante a semana, ele fazia os fogos empilhados arderem. Ninguém nunca o agradeceu. Eu acordava e ouvia o frio se partindo em fragmentos. Quando as salas ficavam aquecidas, ele me … Continue lendo Robert Hayden – Aqueles domingos de inverno

Marisa de la Peña – O tempo que nos resta

"Somos o tempo que nos resta" J. M. Caballero Bonald. É isso o que somos: o tempo que nos resta, o último batimento interrompido, a palavra não dita, o deserto cruzado, e o caminho sem nome que deixamos para trás. Somos o abandono, a intempérie, as luzes apagadas, e as portas, fechadas para sempre, ao … Continue lendo Marisa de la Peña – O tempo que nos resta