Mês: julho 2020
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Ernesto Pérez Vallejo – Com vista para dentro

Não sou o melhor homem que já conheceste,nem metade do bom que ainda te falta descobrir por aí,nem sequer tenho estudos, e minha voztreme diante de qualquer um que me olha nos olhos.Minha tristeza pesa mais aos domingos,mas na verdade é meu estado mais corriqueiro.Às vezes, tenho crises de ansiedade,às vezes, de raiva;tenho uns vinte…
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Jeffrey Harrison – Nossa outra irmã

Nossa outra irmã para EllenA coisa mais cruel que fiz à minha irmã mais novanão foi disparar um dardo caseiro em seu joelho,onde ficou pendurado por um ofegante momentoantes de cair, mas sim contar que tínhamosoutra irmã, mais velha, que havia ido embora.Quais foram meus motivos não consigo lembrar: um capricho,ou talvez uma necessidade de…
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Robert Creeley – O fim

Quando percebo o que as pessoas pensam de mim fico imerso em minha solidão. O cinza chapéu previamente adquirido enjoa. Não tenho mais nenhum propósito identificável. Uma sensação de estar sendo sufocado penetra em minha garganta. Trad.: Nelson Santander The End When I know what people think of me I am plunged into my loneliness.…
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David Mourão-Ferreira – Herança

Ouvir, ouvir de noite uma ambulância, E desejar que estejas a morrer; Fechar a porta à minha própria infância; Amigos, conhecidos, nem os ver; Quebrar nas mãos o aro da esperança; Mas de mim para mim depois dizer: “Calma! Quem nada espera tudo alcança…”; E guardar o revólver; e beber, A sós, o vinho que…
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Konstantinos Kaváfis – Vozes

Vozes queridas, vozes ideais daqueles que morreram ou daqueles que estão perdidos para nós, como se mortos. Eles nos falam em sonho, algumas vezes; outras vezes, em pensamento as escutamos. E, quando soam, por um instante eis que retornam os sons da poesia primeva em nossa vida, qual música distante que se perde noite afora.…
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Jorge Valdés Díaz-Vélez – O fotógrafo e a modelo

O tempo que foi sempre teu inimigo se deteve em tua imagem. Já és aquela garota do calendário, a princesa sem fábulas, o anjo que consigo pendurar em qualquer nuvem. De ouro e trigo a luz encaracolada em tua cabeça, a areia que acaba onde começa a linha de teu sexo. Estás comigo e não…
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Adriano Nunes – Cantar é preciso

para Antonio Cicero Cantar é preciso, Ainda que seja O vazio, o nada, A tristeza, a perda, O que quer que até Alcance a cabeça. Cantar e cantar, Mesmo que depois O existir se perca Na eterna estranheza Da cantiga, para Que o agora exerça A sua potência De luz, porque já Pouquíssimo importa Senão…
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Doug Dorph – Planeta esquecido

Peço à minha filha que diga os nomes dos planetas.“Vênus… Marte… e Plunis!”, ela responde.Quando eu tinha seis ou sete anos, meu paime acordou no meio da noite.Descemos até o playground e deitamosde costas no concreto, olhando para cimaà espera das estrelas cadentes que a TV prometera. Não me lembro de nenhuma estrela cadente. Lembrode…
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Juan Vicente Piqueras – Lázaro se recusa a ressuscitar

Um dia ouvi vozes que vinham de fora.Finalmente!, vozes de fora, pensei – vozes de outrosque levam a luz dentro de si e a revelam,que vem até mim do ar, e não de mim. Vozes que ao se aproximarem, viraram sussurros.Passos que pararam diante da minha porta.Alguém disse: Aqui jaz, como se lesse.Os demais ficaram…
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Joan Margarit – Último trem

Último tremCrematório de Collserola Se visses a chuva que envernizao verde escuro e espesso do jardim.Teu vagão solitário está chegandoà sala espaçosa, sem adornos,mobiliário, ou luminárias,da Estación de Francia da morte.Só se escuta o murmúrio do motorque arrasta o pesoda infância e da juventude– de teu anônimo tempo, já perdido,que nunca mais será reclamado –,rumo…