Herberto Helder – de “Poemas Canhotos”

em boa verdade houve tempo em que tive uma ou duas artes poéticas, agora não tenho nada: sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica e traço meia dúzia de linhas: as vezes apenas duas ou três linhas; outras, vinte ou trinta: houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei a encher umas quantas … Continue lendo Herberto Helder – de “Poemas Canhotos”

Goliarda Sapienza – Para minha mãe

Quando eu voltar será noite fechada Quando eu voltar as coisas estarão quietas Ninguém vai me esperar naquele leito de terra Ninguém vai me acolher naquele silêncio de terra Ninguém vai me consolar por todas as partes já mortas que carrego em mim com resignada impotência Ninguém vai me consolar pelos instantes perdidos pelos sons … Continue lendo Goliarda Sapienza – Para minha mãe

Mário Cesariny – Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te encontro em todas as ruas te perco conheço tão bem o teu corpo sonhei tanto a tua figura que é de olhos fechados que eu ando a limitar a tua altura e bebo a água e sorvo o ar que te atravessou a cintura tanto tão perto tão real que … Continue lendo Mário Cesariny – Em todas as ruas te encontro

Walt Whitman – Canção de mim mesmo, 48

48 Eu disse que a alma não é mais do que o corpo, e disse que o corpo não é mais do que a alma, e nada, nem Deus, é maior para um ser do que esse ser para si mesmo, e quem quer que ande um estádio sem solidariedade caminha para seu próprio funeral … Continue lendo Walt Whitman – Canção de mim mesmo, 48

Joan Margarit – Ela

É tempo de não esperar por ninguém. Passa o amor, fugaz e silencioso, como, na distância, um trem noturno. Não resta ninguém. É hora de voltar ao desolado reino do absurdo, ao sentimento de culpa, ao medo vulgar de perder o que estava, já, perdido. Ao inútil e sórdido tempo moral. É hora já de … Continue lendo Joan Margarit – Ela

Paulo Henriques Britto – Lacrimæ rerum

É o lamento das coisas, a desdita da matéria. Não tem nada a ver conosco, com nossa breve miséria, nosso orgulho de organismo. É uma questão de moléculas, que antecede a biologia por coisa de muitos séculos. Diante dessa dor arcana nosso entendimento pasma. Nem tudo está a vosso alcance, ó seres de protoplasma.

Philip Roth – Patrimônio (excerto 2)

Ele morreu três semanas depois. Durante uma provação de doze horas, que começou pouco antes da meia-noite de 24 doutubro de 1989 e terminou logo após o meio-dia, ele lutou por cada sorvo de ar com uma erupção impressionante, uma derradeira exibição da tenacidade férrea que havia demonstrado ao longo da vida. Algo digno de … Continue lendo Philip Roth – Patrimônio (excerto 2)

Fernando Assis Pacheco – R., 1992

Quando os anos passarem sobre esse teu desgosto vais ver que te curaste não de vez mas um pouco pois o que a gente busca nas dobras do amor é a cura para a morte que não tem consolo e por falar em f'ridas até as que mais doem acabam por fechar só ela vence … Continue lendo Fernando Assis Pacheco – R., 1992

Vasco Gato – Fera Oculta

       com a Inês        para o Rodrigo I Durante essa tua natação de fera oculta há um papiro que se desdobra na minha boca e nunca o futuro teve o sabor de palavras tão sobejamente pronunciadas família rapaz umbigo palavras com que se poderia redigir tão pouca coisa se não fosse a reinvenção da tua chegada … Continue lendo Vasco Gato – Fera Oculta

José Manuel Caballero Bonald – Transfiguração do perdido

A música convoca as imagens degradadas do tempo. De onde estão me chamando, de qual penumbra, quando retornam para mim?           Nada me pertence senão aquilo que perdi. Máscara do passado, a memória conflui para um fundo difuso de alegrias em que tudo soçobra e se reduz a nada, onde está minha verdade tornando-se mais crédula. … Continue lendo José Manuel Caballero Bonald – Transfiguração do perdido