Páladas – da Antologia Palatina, 10.45

Caso te lembres, humano, de como o teu pai ao gerá-lo  te semeou, cessarás com toda tua arrogância. Só que Platão sonhador te implantou ilusões de grandeza,  ao te chamar de imortal, planta provinda do céu. Vindo do barro, por que pensas grande? Por essa maneira,  age somente quem quer dar-se aparência solene. Eis a … Continue lendo Páladas – da Antologia Palatina, 10.45

Maria Mercedes Carranza – Kavafiana

O desejo aparece de repente, em qualquer sítio, a propósito de nada. Na cozinha, caminhando pela rua. Basta um olhar, um aceno, um roçar. Mas dois corpos têm também o seu amanhecer e o seu acaso, a sua rotina de amor e de sonhos, de gestos sabidos até ao cansaço. Dispersam-se os risos, deformam-se. Há … Continue lendo Maria Mercedes Carranza – Kavafiana

Amalia Bautista – A pesagem do coração

Que ninguém por tua culpa tenha passado fome, tenha sentido medo ou frio. Que ninguém tenha deixado de viver por tua culpa, nem temido a morte, nem desejado morrer. Que nenhuma pessoa tenha dito o teu nome com pavor ou olhado o teu rosto com desprezo. Que os outros te chorem quando partires. Assim o … Continue lendo Amalia Bautista – A pesagem do coração

Jules Laforgue – Penúltima palavra

O Espaço? – A vida Ida Sem traço. O amor? – Seu preço: Desprezo E dor. O sonho? – Infindo, É lindo (Suponho). Que vou Fazer Do ser Que sou? Isto, Aquilo, Aqui, Ali. Trad.: Augusto de Campos   Avant-dernier mot L'Espace? – Mon Coeur Y meurt Sans traces... La Femme? – J'en sors, La … Continue lendo Jules Laforgue – Penúltima palavra

Tristan Corbière – Epitáfio

Epitáfio Salvo os amorosos principiantes ou findos que querem principiar pelo fim há tantas coisas que findam pelo princípio que o princípio principia a findar por estar no fim o fim disso é que os amorosos e outros findarão por principiar a reprincipiar por esse princípio que terá findo por não ser mais que o … Continue lendo Tristan Corbière – Epitáfio

Ivan Junqueira – O tempo que me resta

Qual o tempo que me resta? Poderei medi-lo em pétalas de alguma flor que fenece, a última da sua espécie? Poderei fazê-lo em décimos de um segundo que parece durar mais do que uma década ou quem sabe todo um século? O que é o tempo? Uma névoa que na ampulheta escorrega, ou algo que … Continue lendo Ivan Junqueira – O tempo que me resta

Jack Kerouac – Richmond Hill Tree Poem

Amontoadas, amarelas folhas de novembro De uma distinta árvore nua e envergonhadamente castrada fazem um minúsculo e manso PLICK ao se roçar umas nas outras preparando-se para morrer - Quando vejo uma folha cair Eu sempre digo adeus. Richmond Hill Tree Poem A cluster of yellow November leaves in an otherwise bare and sheepish castrated … Continue lendo Jack Kerouac – Richmond Hill Tree Poem

Amalia Bautista – S.O.S.

Protege-me do medo e das sombras defende-me de todas as tristezas, exila de minha vida o desconsolo, se puderes, com teu amor, se não com o fim do mundo ou com a minha morte. Trad.: Nelson Santander S.O.S Protégeme del miedo y de las sombras, defiéndeme de todas las tristezas, destierra de mi vida el … Continue lendo Amalia Bautista – S.O.S.

Eugénia de Vasconcellos – Lembra

Digo-te isto para que saibas quem és, às vezes, esquecemos, confundimos, desconseguimos e ao fim, desacreditamos, colam-se-nos os fantasmas dos vivos e as memórias dos mortos e da voz faz-se um fio à míngua de palavras - e onde a palavra não chega, o pensamento não cria o ato e morre-se, morre-se, morre-se um dia … Continue lendo Eugénia de Vasconcellos – Lembra

Tarso de Melo – Hoje

Amanhã vai chover mais forte, todos nós já sabemos. E é estranha a calma dos rios Os guarda-chuvas seguem fechados, os meteorologistas fingem não ter nada com isso, o barro não demonstra qualquer apreensão, o vento lambe as roupas secas no varal, nenhuma janela ainda se fechou. A água vai vir, forte, como sempre, engolindo … Continue lendo Tarso de Melo – Hoje