Matthew Sweeney – Crucificação

Eu cozinhava uma beterraba quando a campainha tocou.
‘Quem será a essa hora?’, murmurei, marchando
para a porta. Quando a abri, o sol brilhava
tanto que só vi silhuetas, mas discerni
que pairava sobre tudo uma grande cruz preta.
Havia dois homens, um com cara de bode,
o outro um sujeito enorme com um cigarro
na boca e suor no rosto de carregar a cruz.
O primeiro homem sorria, sacudindo seu saco de pregos
e acariciando o martelo em seu cinto. ‘Viemos
para efetuar a sua crucificação.’ Vendo minha reação,
ele sorriu, ‘Não se preocupe, está tudo pago.’
O outro homem havia posto a cruz no chão, e
analisava o gramado para encontrar o melhor local.
“Posso perguntar quem pagou por isso?’, gaguejei. ‘Certamente
houve um grande engano.’ Seguiu-se uma gargalhada.
‘Não houve engano, senhor. Foi precisamente o seu bom eu
quem ordenou o acontecimento. Veja aqui,’ disse ele,
empurrando um formulário de compra assinado na minha cara.
Meu nome estava correto, mas era uma falsificação. Eu apontei
isto, sem sucesso, então gritei que bastava.
‘Por favor, saia daqui imediatamente e peça ao
seu palhaço gigante para não esquecer a cruz.’ Fechei
a porta com força, empurrei uma poltrona contra ela,
e sentei-me, depois de pegar minha faca maior e mais afiada.
Estava com o celular preparado para chamar a polícia, mas
pensei ter ouvido os dois se arrastando corredor afora,
e uma olhada pelo olho mágico confirmou essa hipótese.
Voltei para a cozinha para verificar minha beterraba.
Havia quase secado e a água estava vermelha.

Trad.: Nelson Santander

Crucifixion

I was boiling a beetroot when the doorbell rang.
‘Who the hell is this?’, I muttered, marching
to the door. When I opened it the sun was so
bright I only saw silhouettes, but that was enough
for looming over everything was a big black cross.
There were two men, one with the face of a goat,
the other a huge fellow with a fag in his mouth
and sweat on his face from carrying the cross.
The first man grinned, shaking his bag of nails
and patting the hammer in his belt. ‘We’ve come
to carry out your crucifixion.’ Seeing my reaction
he laughed, ‘Don’t worry it’s all been paid for.’
The other man had set the cross down, and was
checking out the lawn for the best location.
“Can I ask who’s paid for it?’ I stuttered. ‘Surely
there’s been a huge mistake.’ A laugh ensued.
‘No mistake, sir. It was your good self exactly
who ordered the happening. See here,’ he said,
shoving a signed order form into my face. It was
my name all right, but it was a forgery. I pointed
this out, to no avail, so I shouted that was enough.
‘Kindly leave this premises immediately, and ask
your giant clown not to forget his cross.’ I slammed
the door, then wheeled an armchair up against it,
and sat in this, after getting my biggest sharp knife.
I had my mobile primed to call the police, but I
thought I heard the two lumbering down the path,
and a look through the spyhole confirmed this.
I went back to the kitchen to check my beetroot.
It had nearly boiled dry and the water was red.