Charles Simic – O altar

A estátua de plástico da Virgem
Em cima de uma penteadeira
Com um espelho enegrecido
De um salão de beleza de pesadelo.

Dois seixos do túmulo de um astro de rock,
Um pequeno e sorridente macaco de dar corda,
Uma concha, uma moeda egípcia de bronze,
E o canhoto vermelho de um ingresso de cinema.

Uma mancha de luz solar na emoldurada
Fotografia de comunhão de um menino
Com os olhos de alguém
Que irá se afogar em um lago naquele verão.

Um altar dignificando o deus do acaso.
O que é belo, ele adverte,
É encontrado acidentalmente e não procurado.
O que é belo facilmente se perde.

Trad.: Nelson Santander

The Altar

The plastic statue of the Virgin
On top of a bedroom dresser
With a blackened mirror
From a bad-dream grooming salon.

Two pebbles from the grave of a rock star,
A small, grinning wind-up monkey,
A seashell, bronze Egyptian coin,
And a red movie ticket stub.

A splotch of sunlight on the framed
Communion photograph of a boy
With the eyes of someone
Who will drown in a lake that summer.

An altar dignifying the god of chance.
What is beautiful, it cautions,
Is found accidentally and not sought after.
What is beautiful is easily lost.

X. J. Kennedy – O objetivo do tempo é evitar que tudo aconteça de uma só vez

Imagine que sua vida seja um telescópio dobrado
Atemporal, que desmoronou num piscar de olhos
Do ventre de sua mãe, você, berrando, cai
Em uma casa de repousos. Imagine que você destrói
Seu carro, seu casamento — uma criança devastando
Um campo de margaridas, estudante, adolescente espinhento
Com a amada, fechando às pressas o zíper das calças
Ao ouvir os passos de seus pais no andar de baixo — tudo de uma vez.

Einstein estava certo. Isso seria muito intenso.
Você precisa de uma chance de se exibir, de dar um recital
Enfadonho diante de uma plateia indiferente
Igualmente lenta tanto para achincalha-lo quanto para aplaudi-lo.
O tempo leva seu tempo desdobrando-se. Mas, mesmo assim,
Você irá se perguntar quando sua vida terminar: hein? O que aconteceu?

Trad.: Nelson Santander

“The Purpose of Time is to Prevent Everything from Happening at Once”

Suppose your life a folded telescope
Durationless, collapsed in just a flash
As from your mother’s womb you, bawling, drop
Into a nursing home. Suppose you crash
Your car, your marriage — toddler laying waste
A field of daisies, schoolkid, zit-faced teen
With lover zipping up your pants in haste
Hearing your parents’ tread downstairs — all one.

Einstein was right. That would be too intense.
You need a chance to preen, to give a dull
Recital before an indifferent audience
Equally slow in jeering you and clapping.
Time takes its time unraveling. But, still,
You’ll wonder when your life ends: Huh? What happened?

Ross Gay – Tristeza não é o meu nome

— depois de Gwendolyn Brooks

Não importa a atração pelo abismo. Pouco
importa o sono profundo e florido que o aguarda.
Há tempo para tudo. Veja,
ainda esta manhã um abutre
acenou com a cabeça vermelha e pardacenta para mim,
e eu olhei para ele, admirando
a foice do seu bico.
Então o vento soprou, e,
depois de dar uma ajeitada naquele ótimo traje de penas,
ele se levantou e partiu.
Exatamente assim. E, pra começar,
há, somente neste planeta, cerca de dois
milhões de lindas coisas que ocorrem naturalmente,
algumas com nomes tão generosos que chutam
o aço dos meus joelhos: agave, caqui,
bola-de-galho, o quiabo roxo que comprei por dois dólares
no mercado. Pense nisso. A longa noite,
o esqueleto no espelho, o homem atrás de mim
no ônibus, tomando notas, sim, sim.
Mas veja; minha sobrinha corre pelo campo
chamando meu nome. Meu vizinho canta como um anjo
e no final do meu quarteirão há uma quadra de basquete.
Eu me lembro. Minha cor é o verde. Eu estou na primavera.

Trad.: Nelson Santander

Sorrow Is Not My Name

—after Gwendolyn Brooks

No matter the pull toward brink. No
matter the florid, deep sleep awaits.
There is a time for everything. Look,
just this morning a vulture
nodded his red, grizzled head at me,
and I looked at him, admiring
the sickle of his beak.
Then the wind kicked up, and,
after arranging that good suit of feathers
he up and took off.
Just like that. And to boot,
there are, on this planet alone, something like two
million naturally occurring sweet things,
some with names so generous as to kick
the steel from my knees: agave, persimmon,
stick ball, the purple okra I bought for two bucks
at the market. Think of that. The long night,
the skeleton in the mirror, the man behind me
on the bus taking notes, yeah, yeah.
But look; my niece is running through a field
calling my name. My neighbor sings like an angel
and at the end of my block is a basketball court.
I remember. My color’s green. I’m spring.

Denise Levertov – Peregrinações no mundo paralelo

Vivemos nossas vidas de paixões humanas,
crueldades, sonhos, ideias,
crimes e o exercício da virtude
em e ao lado de um mundo privado
de nossas preocupações, isento
de nossas apreensões — embora afetado,
certamente, por nossas ações. Um mundo
paralelo ao nosso, embora a ele sobreposto.
Nós o chamamos de “Natureza”; apenas relutantemente
admitindo que somos “Natureza” também.
Sempre que perdemos o controle de nossas próprias obsessões,
de nosso egocentrismo, porque vagamos por um minuto,
uma hora até, de pura (quase pura)
reação a essa vida despreocupada:
nuvem, pássaro, raposa, o fluxo da luz, a peregrinação
dançante da água, a profunda imobilidade
de uma ephemerae encantada sobre uma vidraça iluminada,
vozes de animais, murmúrio mineral, vento
conversando com chuva, oceano com pedra, gaguejar
de fogo para o carvão — então algo atado
a nós, manco como um burro em seu pedaço
mastigado de cardo e grama, se liberta.
Ninguém sabe
exatamente onde estávamos quando fomos apanhados novamente
em nossa própria esfera (para onde devemos
retornar, de fato, para que nosso destino evolua)
— mas nós mudamos, um pouco.

Trad.: Nelson Santander

Sojourns in the parallel world

We live our lives of human passions,
cruelties, dreams, concepts,
crimes and the exercise of virtue
in and beside a world devoid
of our preoccupations, free
from apprehension—though affected,
certainly, by our actions. A world
parallel to our own though overlapping.
We call it “Nature”; only reluctantly
admitting ourselves to be “Nature” too.
Whenever we lose track of our own obsessions,
our self-concerns, because we drift for a minute,
an hour even, of pure (almost pure)
response to that insouciant life:
cloud, bird, fox, the flow of light, the dancing
pilgrimage of water, vast stillness
of spellbound ephemerae on a lit windowpane,
animal voices, mineral hum, wind
conversing with rain, ocean with rock, stuttering
of fire to coal—then something tethered
in us, hobbled like a donkey on its patch
of gnawed grass and thistles, breaks free.
No one discovers
just where we’ve been, when we’re caught up again
into our own sphere (where we must
return, indeed, to evolve our destinies)
—but we have changed, a little.

Maggie Smith – O primeiro outono

Eu sou sua guia aqui. Nas ruas crepusculares
da manhã, eu aponto e nomeio.
Veja os sicômoros, suas cascas manchadas,
pintadas-por-números. Veja as folhas
enferrujando e crepitando nas pontas.
Eu caminho pelo Schiller Park com você
no meu peito. As estrelas ardem
plenamente à luz do dia. Veja o lago, os patos,
os cães chapinhando atrás de seus valiosos gravetos.
Outono é quando as únicas coisas que você conhece,
porque eu as nomeei,
começam a morrer. Em breve, eu terei outra
estação para ofertar-lhe: geada amena
na janela e uma portinhola
que ali geme, gelo recobrindo galhos
cinzas e nus. A primeira vez que vir
algo morrer, você não saberá que ele pode
voltar. Estou desesperada para que você
ame o mundo porque eu o trouxe para cá.

Trad.: Nelson Santander

First Fall

I’m your guide here. In the evening-dark
morning streets, I point and name.
Look, the sycamores, their mottled,
paint-by-number bark. Look, the leaves
rusting and crisping at the edges.
I walk through Schiller Park with you
on my chest. Stars smolder well
into daylight. Look, the pond, the ducks,
the dogs paddling after their prized sticks.
Fall is when the only things you know
because I’ve named them
begin to end. Soon I’ll have another
season to offer you: frost soft
on the window and a porthole
sighed there, ice sleeving the bare
gray branches. The first time you see
something die, you won’t know it might
come back. I’m desperate for you
to love the world because I brought you here.

Joan Margarit – Manhã no cemitério de Montjuïc

Fui à montanha dos túmulos:
lá cheguei cruzando o ermo
da Can Tunis, coberto de seringas
e de plásticos pardacentos, onde tremem, errantes,
as estátuas de trapo dos drogados.
Corre o boato de que a Prefeitura
irá destruí-lo, cobrindo de concreto
os terrenos com mato em frente à enorme grade
do cemitério, erguida de frente para o mar.
Que má companhia será para os mortos:
os defuntos, seu muro e sua quietude
harmonizam melhor com esses drogados
que, soldados sem forças e perdidos,
deambulam depois da derrota.
À medida que subimos pela velha estrada do porto,
os barcos e os guindastes ficam menores,
enquanto o mar fica mais largo. Aqui, no alto,
estás a salvo das dores do mundo.

Trad.: Nelson Santander

N. do T. em 18/02/2021: a publicação da tradução que fiz deste poema já estava agendada há mais de 2 meses. O poema narra uma visita que o poeta faz ao túmulo de um ente querido – presumivelmente, o de sua filha, Joana, falecida em 2001, vítima do câncer. Há dois dias, depois de uma breve batalha contra o câncer (sempre ele), faleceu também o poeta. Não sei se ele foi enterrado no mesmo cemitério Montjuïc, onde repousa a amada filha. Mas me anima pensar que, onde quer que esteja neste momento, também ele está a salvo das dores do mundo.

Mañana en el cementerio de Montjuïc

He ido a la montaña de las tumbas:
he llegado hasta allí cruzando el yermo
de Can Tunis, nevado de jeringas
y de plásticos grises, donde tiemblan, errantes,
las estatuas de trapo de los yonquis.
Corre el rumor de que el Ayuntamiento
lo arrasará, cubriendo de hormigón
los campos de hierbajos ante la enorme reja
del cementerio, alzado frente al mar.
Qué mala compañía será para los muertos:
los difuntos, su muro y su quietud
armonizan mejor con esos yonquis
que, soldados sin fuerzas y perdidos,
deambulan después de la derrota.
Al subir por el viejo camino frente al puerto
los barcos y las grúas van empequeñeciéndose,
mientras se ensancha el mar. Aquí, en lo alto,
estás salvada del dolor del mundo.

Louis MacNeice – A luz do sol no jardim

A luz do sol no jardim
Endurece e esmorece,
Não podemos enjaular o minuto
Em suas malhas de ouro;
Quando tudo é proclamado
Não podemos implorar por perdão.

Nossa liberdade, como soldados a soldo,
Avança em direção ao seu fim;
A mundo compele, nele
Baixam sonetos e pássaros;
E em breve, meu amigo,
Não teremos tempo para danças.

O céu estava bom para voar,
Desafiar os sinos da igreja
E todas as sereias malignas
De ferro e o que elas dizem:
A terra compele,
Estamos morrendo, Egito, morrendo

E sem esperar por perdão,
Outra vez endurecidos de coração,
Mas feliz por termos estado debaixo de
Chuvas e trovoadas com você,
E grato também
Pela luz do sol no jardim.

Trad.: Nelson Santander

The sunlight on the garden

The sunlight on the garden
Hardens and grows cold,
We cannot cage the minute
Within its nets of gold;
When all is told
We cannot beg for pardon.

Our freedom as free lances
Advances towards its end;
The earth compels, upon it
Sonnets and birds descend;
And soon, my friend,
We shall have no time for dances.

The sky was good for flying
Defying the church bells
And every evil iron
Siren and what it tells:
The earth compels,
We are dying, Egypt, dying

And not expecting pardon,
Hardened in heart anew,
But glad to have sat under
Thunder and rain with you,
And grateful too
For sunlight on the garden.

Mary Oliver – Os usos da tristeza

(enquanto dormia, sonhei este poema)

Alguém que amei uma vez me deu
uma caixa cheia de escuridão.

Levei anos para entender
que isto, também, foi uma dádiva.

Trad.: Nelson Santander

The uses of sorrow

(In my sleep I dreamed this poem)

Someone I loved once gave me
a box full of darkness.

It took me years to understand
that this, too, was a gift.

Lêdo Ivo – Achamento e duração dos mortos

És o cemitério.
Os mortos não jazem
debaixo da terra.

Não estão ocultos
num lençol de relva
mas sob tua pele.

Tuas veias são
ruas onde os mortos
passeiam fagueiros,

e em férias percorrem,
turistas do eterno,
os museus do éter.

E nas terras velhas
de tua memória
almas veraneiam.

Meu filho, viver
é comerciar
no balcão dos mortos.

É achar no chão
o botão caído
de um casaco antigo.

Os defuntos vivem
fora dos seus ossos,
ocultos nas lágrimas

dos vivos que choram
ou mesmo no orvalho
do ramo de flor.

Mortos continuam
vivos, quando amados.
Viver é guardá-los

do verme que os come,
da erva que os encobre,
do nada infinito.

Fechado o ataúde,
seguras as alças,
o morto se evade.

Em verdade um morto
nunca é enterrado.
Volta com os vivos

de seu próprio enterro,
deixando na cova
o pó de novembro.

Por isso acordamos
nas noites escuras
cercados de mortos.

O pai morto dá
conselhos miúdos
ao seu filho aflito.

E a mãe morta vem
embalar, na noite,
o filho barbado.

(O menino eterno
que qualquer mãe morta
carrega consigo.)

Nesse minifúndio
que é a tua memória
figuras peremptas

te falam no vento:
tua parentela
desfila, andarenga.

Sê fiel, meu filho,
à tua prosápia.
Pratica teus mortos

(como o marinheiro
respira a onda nua
na entrada da barra).

Enquanto viveres
cubra-te a caliça
de todos os mortos.

Ouve o que te digo:
está morto o vivo
que esquece os seus mortos

e os sepulta em si,
empareda-os, vivos,
numa íntima cova.

Uma vida eterna
sucede, na terra,
de pai para filho.

Mais do que no sangue,
na vaga semblança
ou no sobrenome,

o pai continua
compincha da vida
no filho varão.

No filho legal
que torna domingo
o dia longínquo

e dá vida à morte.
Sendo filho, é o pai
quando era menino.