Charles Simic – Medo

O medo passa de homem para homem
Inconscientemente,
Como uma folha passa o seu estremecimento
Para outra.

De repente, a árvore toda está tremendo,
E não há nenhum sinal do vento.

Trad.: Nelson Santander

Fear

Fear passes from man to man
Unknowing,
As one leaf passes its shudder
To another.

All at once the whole tree is trembling,
And there is no sign of the wind.

Charles Simic – Igreja de madeira

É só uma choupana fechada com uma torre
Sob o céu de um verão escaldante
Em uma estrada secundária percorrida raramente
Onde as sombras de árvores grandes
Roçam-se tranquilamente como forcas enfileiradas,
E corvos privados de carniça
Grasnam uns com os outros sobre dias melhores.

A congregação talvez ainda esteja em oração.
Das fotos salpicadas, famílias de fazendeiros
Enfileiradas com suas cabeças inclinadas
Como se ouvissem seus passos se aproximando.
Tão lentamente que você deve estar se perguntando
Como é que estamos aqui num minuto
E, no seguinte, desaparecemos para sempre?

Experimente a porta fechada e bata uma vez.
Os corvos ficarão fora de visão.
Acima de você, o campanário inclinado
Ainda sentindo o impacto da última tormenta.
E depois o silêncio da tarde…
Mesmo o descrente deve sentir a sua força.

Trad.: Nelson Santander

Wooden Church

It’s just a boarded-up shack with a tower
Under the blazing summer sky
On a back road seldom travelled
Where the shadows of tall trees
Graze peacefully like a row of gallows,
And crows with no carrion in sight
Caw to each other of better days.

The congregation may still be at prayer.
Farm folk from fly-specked photos
Standing in rows with their heads bowed
As if listening to your approaching steps.
So slow they are, you must be asking yourself
How come we are here one minute
And in the very next gone for ever?

Try the locked door, then knock once.
The crows will stay out of sight.
High above you, there is the leaning belfry
Still feeling the blow of the last storm.
And then the silence of the afternoon . . .
Even the unbeliever must feel its force.

Charles Simic – O altar

A estátua de plástico da Virgem
Em cima de uma penteadeira
Com um espelho enegrecido
De um salão de beleza de pesadelo.

Dois seixos do túmulo de um astro de rock,
Um pequeno e sorridente macaco de dar corda,
Uma concha, uma moeda egípcia de bronze,
E o canhoto vermelho de um ingresso de cinema.

Uma mancha de luz solar na emoldurada
Fotografia de comunhão de um menino
Com os olhos de alguém
Que irá se afogar em um lago naquele verão.

Um altar dignificando o deus do acaso.
O que é belo, ele adverte,
É encontrado acidentalmente e não procurado.
O que é belo facilmente se perde.

Trad.: Nelson Santander

The Altar

The plastic statue of the Virgin
On top of a bedroom dresser
With a blackened mirror
From a bad-dream grooming salon.

Two pebbles from the grave of a rock star,
A small, grinning wind-up monkey,
A seashell, bronze Egyptian coin,
And a red movie ticket stub.

A splotch of sunlight on the framed
Communion photograph of a boy
With the eyes of someone
Who will drown in a lake that summer.

An altar dignifying the god of chance.
What is beautiful, it cautions,
Is found accidentally and not sought after.
What is beautiful is easily lost.

Charles Simic – O dicionário

Talvez haja uma palavra em algum lugar
para descrever o mundo esta manhã,
uma palavra para o modo como a primeira luz
se deleita em perseguir as sombras
pelas entradas e vitrines das lojas.

E outra palavra para o modo como ela se detém
sobre um par de óculos de aros finos
que alguém deixou cair na calçada
na noite passada e cambaleou às cegas
falando consigo mesmo ou começando a cantar.

Trad.: Nelson Santander

The dictionary

Maybe there is a word in it somewhere
to describe the world this morning,
a word for the way the early light
takes delight in chasing the darkness
out of store windows and doorways.

Another word for the way it lingers
over a pair of wire-rimmed glasses
someone let drop on the sidewalk
last night and staggered off blindly
talking to himself or breaking into song.

Aqui: https://www.newyorker.com/magazine/2013/07/01/the-dictionary

Charles Simic – Na Biblioteca

                  Para Octavio

Há um livro chamado
“Um Dicionário dos Anjos”.
Não foi aberto por ninguém em cinquenta anos,
Eu sei, porque quando o fiz
As capas rangeram, as páginas
desintegraram-se. Nele descobri
Que os anjos já foram tão abundantes
Quanto moscas. O céu ao entardecer
Costumava ficar repleto deles.
Você precisava agitar ambos os braços
Apenas para mante-los afastados.
Agora o sol está brilhando
Através de altas janelas.
A biblioteca é um lugar tranquilo.
Anjos e deuses amontoados
em sombrios tomos fechados.
O grande segredo está
Em alguma estante pela qual
Miss Jones passa em sua ronda diária.
Ela é muito alta, então mantém
Sua cabeça inclinada como se estivesse escutando.
Os livros estão sussurrando.
Eu não ouço nada, mas ela sim.

Trad.: Nelson Santander

Charles Simic – In Library

There’s a book called
“A Dictionary of Angels.”
No one has opened it in fifty years,
I know, because when I did,
The covers creaked, the pages
Crumbled. There I discovered
The angels were once as plentiful
As species of flies. The sky at dusk
Used to be thick with them.
You had to wave both arms
Just to keep them away.
Now the sun is shining
Through the tall windows.
The library is a quiet place.
Angels and gods huddled
In dark unopened books.
The great secret lies
On some shelf Miss Jones
Passes every day on her rounds.
She’s very tall, so she keeps
Her head tipped as if listening.
The books are whispering.
I hear nothing, but she does.