Ursula K. Le Guin – Como me parece

No vasto abismo antes do tempo, o eu
não existe, e a alma se mistura
com a névoa, a rocha e a luz. No tempo certo,
a alma atrai o nebuloso eu para o ser.
Então, lentamente, o tempo petrifica o eu
enquanto ilumina a alma,
até que a alma perde o controle do eu
e ambos se libertam e podem retornar
à vastidão e dissolver-se em luz,
a duradoura luz depois do tempo.

Trad.: Nelson Santander

How it seems to me

In the vast abyss before time, self
is not, and soul commingles
with mist, and rock, and light. In time,
soul brings the misty self to be.
Then slow time hardens self to stone
while ever lightening the soul,
till soul can loose its hold of self
and both are free and can return
to vastness and dissolve in light,
the long light after time.

Ursula K. Le Guin – Hino ao tempo

O Tempo diz “Que haja”
e instantaneamente, a todo instante,
existe espaço e o esplendor
de cada galáxia brilhante.

E olhos contemplando o céu cintilante.
E a dança dos mosquitos, tremulante.
E a extensão do mar.
E a morte, e o azar.

O tempo deixa espaço
para ir e voltar para casa
e no ventre do tempo
tudo começa e acaba.

Tempo é ser e ser é tempo
é tudo o mesmo elemento,
o brilho, a visão,
a abundante escuridão.

Trad.: Nelson Santander

Hymn to time

Time says “Let there be”
every moment and instantly
there is space and the radiance
of each bright galaxy.

And eyes beholding radiance.
And the gnats’ flickering dance.
And the seas’ expanse.
And death, and chance.

Time makes room
for going and coming home
and in time’s womb
begins all ending.

Time is being and being
time, it is all one thing,
the shining, the seeing,
the dark abounding.