Eugénio de Andrade – Com o tempo aproximar-se-ão os rios…

Com o tempo aproximar-se-ão os rios e os montes, com o tempo acabará por te vir comer à mão e fazer ninho na tua cama o silêncio.

Joan Margarit – Banheiro

Cuido para que não caias ao banhar-te, e ao secar-te as costas sigo suavemente a grande cicatriz da espinha. O futuro está sempre na janela. Tua vida é este pequeno espaço de tua cama e tua música, este céu de umas poucas pessoas e uma casa. E pela primeira vez já não estarei contigo. Não … Continue lendo Joan Margarit – Banheiro

Manuel António Pina – Todas as palavras

As que procurei em vão, principalmente as que estiveram muito perto, como uma respiração, e não reconheci, ou desistiram e partiram para sempre, deixando no poema uma espécie de mágoa como uma marca de água impresente; as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te nem foram capazes de dizer-me; as que calei por serem muito … Continue lendo Manuel António Pina – Todas as palavras

Heinrich Heine – Chegou a morte

Chegou a morte – agora vou Dizer o que o orgulho não Me permitiu: meu coração Tão só por ti pulsou, pulsou. Já estou fechado no ataúde, Descem-me à cova. A calmaria Me abraça enfim, mas tu, Maria, Por mim irás, muito amiúde, Chorar, e pra quê, afinal? Consola-te, este é o destino Humano: o … Continue lendo Heinrich Heine – Chegou a morte

Jorge Luis Borges – O cego

I Foi despojado do diverso mundo, Dos rostos, que ainda são o que eram antes, Das ruas próximas, hoje distantes, E do côncavo azul, ontem profundo. Dos livros lhe restou só o que deixa A memória, essa fórmula do olvido Que o formato retém, não o sentido, E que apenas os títulos enfeixa. O desnível … Continue lendo Jorge Luis Borges – O cego

Joseph Stroud – Lázaro em Varanasi

Em uma pira no flamejante Ghat um cadáver senta-se lentamente entre as chamas. Como se lembrasse de algo importante. Como se olhasse ao redor uma vez mais. Como se tivesse finalmente algo a dizer. Como se houvesse uma maneira de sair disso. Trad.: Nelson Santander Lazarus In Varanasi From a pyre on the burning ghat … Continue lendo Joseph Stroud – Lázaro em Varanasi

Joseph Stroud – Lendo Kaváfis sozinho na cama

Eu, também, me lembro do passado, meu quarto iluminado por velas, e da noite em que ela entrou e tocou meu rosto com seu rosto, com boca e língua e lábios, do pomar à noite, do odor das frutas, seus seios - lembra, corpo? - aquele quarto, lembra? - nossos gritos, as velas bruxuleantes? Trad.: … Continue lendo Joseph Stroud – Lendo Kaváfis sozinho na cama

Konstantinos Kaváfis – Lembra, corpo…

Lembra, corpo, não só o quanto foste amado, não só os leitos onde repousaste, mas também os desejos que brilharam por ti em outros olhos, claramente, e que tornaram a voz trêmula - e que algum obstáculo casual fez malograr. Agora que isso tudo perdeu-se no passado, é quase como se a tais desejos te … Continue lendo Konstantinos Kaváfis – Lembra, corpo…

Pedro Mexia – “O fogo, o ferro, o futuro”

Eras um sustento, eras um segredo, uma feroz tentativa. Eras a roupa do corpo feito estandarte a caminho de casa e as tuas mãos metade das minhas. Eras um fascínio, eras um fracasso, eras a chama que nunca te queimou, o sul, o sufoco, a madrugada. Eras um tumulto de éguas e galgos, a minha … Continue lendo Pedro Mexia – “O fogo, o ferro, o futuro”