Lisel Mueller – Há manhãs

Mesmo agora, em que o enredo
pede que eu me torne pedra,
o sol intervém. Em algumas manhãs
de verão eu saio
e o céu se abre
e se derrama sobre mim
como se eu fosse um santo
prestes a morrer. Mas o enredo
pede que eu viva,
seja comum, diga nada
a ninguém. Dentro de casa
os espelhos queimam quando eu passo.

Trad.: Nelson Santander

There Are Mornings

Even now, when the plot
calls for me to turn to stone,
the sun intervenes. Some mornings
in summer I step outside
and the sky opens
and pours itself into me
as if I were a saint
about to die. But the plot
calls for me to live,
be ordinary, say nothing
to anyone. Inside the house
the mirrors burn when I pass.

Lisel Mueller – De passagem

Com que rapidez o mel filtrado
da luz da tarde
flui para a escuridão

e o fechado broto livra-se
de seu singular mistério
a fim de desabrochar:

como se o que existe, exista
para poder perder-se
e tornar-se precioso.

Trad.: Nelson Santander

In Passing

How swiftly the strained honey
of afternoon light
flows into darkness

and the closed bud shrugs off
its special mystery
in order to break into blossom:

as if what exists, exists
so that it can be lost
and become precious.

Lisel Mueller – Desenhos de criança


O sol pode estar visível ou não
(pode estar atrás de você,
o expectador dessas imagens)
mas o céu é sempre azul
se é dia. Se não,
as estrelas estão quase ao seu alcance;
inclinadas, elas chegam até você,
na iminência de cair.
Nunca é nascer ou pôr do sol;
não há nenhum olho ensanguentado
espiando você no horizonte.
É claramente dia ou noite,
é brilhante ou totalmente escuro,
é aqui e nunca lá.


No princípio, você só precisava da
sua cabeça, uma lua boiando no espaço
e quatro galhos nus;
e quando seu corpo foi adicionado,
era leve e fino no começo,
não a capela sombria
da qual, mais tarde, você tentou escapar.
Você vivia em um mundo não newtoniano,
seus braços cresciam dos seus ombros,
seus pés não tocavam o chão,
seus cabelos escorriam,
você ainda estava voando.


A casa é menor do que você se lembrava,
tem janelas mas não tem porta.
Uma chaminé se assenta no telhado de duas águas,
uma espiral de fumaça o tranquiliza.
Mas a casa tem apenas duas dimensões,
como uma máscara sem rosto;
as pessoas que ali vivem ficam do lado de fora
como se o tempo fosse sempre verão —
não há nada atrás da parede
exceto um espaço de onde o vento sopra,
mas isso você não pode ver.

Trad.: Nelson Santander

Drawings by children


The sun may be visible or not
(it may be behind you,
the viewer of these pictures)
but the sky is always blue
if it is day. If not
the stars come almost within your grasp;
crooked, they reach out to you,
on the verge of falling.
It is never sunrise or sunset;
there is no bloody eye
spying on you across the horizon.
It is clearly day or night,
it is bright or totally dark,
it is here and never there.


In the beginning, you only needed
your head, a moon swimming in space,
and four bare branches;
and when your body was added,
it was light and thin at first,
not yet the dark chapel
from which, later, you tried to escape.
You lived in a non-Newtonian world,
your arms grew up from your shoulders,
your feet did not touch the ground,
your hair was streaming,
you were still flying.


The house is smaller than you remembered,
it has windows but no door.
A chimney sits on the gable roof,
a curl of smoke reassures you.
But the house has only two dimensions,
like a mask without its face;
the people who live there stand outside
as though time were always summer —
there is nothing behind the wall
except a space where the wind whistles,
but you cannot see that.

Lisel Mueller – Coisas

O que aconteceu é que nos sentimos solitários
vivendo entre as coisas,
por isso demos ao relógio um rosto,
à cadeira um encosto,
à mesa quatro pernas robustas
que jamais sofrerão fadiga.

Calçamos nossos sapatos que têm línguas
tão macias quanto as nossas
e penduramos linguetas dentro dos sinos
para podermos ouvir
sua linguagem emocional,

e porque adoramos perfis elegantes
a jarra recebeu boca,
a garrafa um longo e fino gargalo.

Mesmo o que estava além de nós
foi reformulado à nossa imagem;
demos ao país um coração,
ao temporal um olho,
à caverna uma boca
para que pudéssemos passar em segurança.

Trad.: Nelson Santander

What happened is, we grew lonely 
living among the things,
so we gave the clock a face,
the chair a back,
the table four stout legs
which will never suffer fatigue.
We fitted our shoes with tongues
as smooth as our own
and hung tongues inside bells
so we could listen
to their emotional language,
and because we loved graceful profiles
the pitcher received a lip,
the bottle a long, slender neck.
Even what was beyond us
was recast in our image;
we gave the country a heart,
the storm an eye,
the cave a mouth
so we could pass into safety.

Lisel Mueller – Românticos


Johannes Brahms e Clara Schumann

Os biógrafos modernos se preocupam
em “o quão longe” foi sua terna amizade.
Eles se perguntam o que exatamente significa
quando ele escreve que pensa nela constantemente,
seu anjo da guarda, amada amiga.
Os biógrafos modernos fazem a
rude e irrelevante indagação
de nossa era como se o evento
de dois corpos entrelaçados
estabelecesse a medida do amor,
esquecendo o quão suavemente Eros caminhava
no século dezenove, e como uma mão
estendida por muito tempo ou um olhar ancorado
nos olhos de alguém podia desalojar um coração,
e as nuances de expressões não conhecidas
por nossa linguagem igualitária
podiam fazer o redolente ar
tremer e brilhar com o calor
da possibilidade. Toda vez que eu ouço
os Interlúdios, tristes
e pródigos em sua ternura,
imagino os dois
sentados em um jardim
entre rosas tardias
e escuras cascatas de folhas,
deixando a paisagem falar por eles,
não nos deixando nada para ouvir.

Trad.: Nelson Santander


Johannes Brahms and Clara Schumann

The modern biographers worry
“how far it went,” their tender friendship.
They wonder just what it means
when he writes he thinks of her constantly,
his guardian angel, beloved friend.
The modern biographers ask
the rude, irrelevant question
of our age, as if the event
of two bodies meshing together
establishes the degree of love,
forgetting how softly Eros walked
in the nineteenth-century, how a hand
held overlong or a gaze anchored
in someone’s eyes could unseat a heart,
and nuances of address not known
in our egalitarian language
could make the redolent air
tremble and shimmer with the heat
of possibility. Each time I hear
the Intermezzi, sad
and lavish in their tenderness,
I imagine the two of them
sitting in a garden
among late-blooming roses
and dark cascades of leaves,
letting the landscape speak for them,
leaving us nothing to overhear.

Lisel Mueller – Imortalidade

No castelo da Bela Adormecida
o relógio bate cem anos
e a garota na torre volta ao mundo.
O mesmo ocorre com os criados na cozinha,
que nem sequer esfregam os olhos.
A mão direita do cozinheiro, levantada
há exatamente um século,
completa seu arco descendente
até a orelha esquerda do ajudante de cozinha;
as tensas cordas vocais do garoto
libertam finalmente
o sofrido lamento aprisionado,
e a mosca, capturada no meio de um salto
acima da torta de morango,
cumpre sua missão permanente
e mergulha no doce e vermelho esmalte.

Quando criança, eu tinha um livro
com uma gravura dessa cena.
Eu era muito jovem para perceber
como o medo persiste, e como
o ódio que provoca o medo persiste,
que sua trajetória não pode ser alterada
ou rompida, apenas interrompida.
Minha atenção estava na mosca;
no fato de que este corpo leve
com suas asas transparentes
e o tempo de vida de um dia humano
ainda ansiava por sua cota particular
de doçura, um século depois.

Trad.: Nelson Santander


In Sleeping Beauty’s castle
the clock strikes one hundred years
and the girl in the tower returns to the world.
So do the servants in the kitchen,
who don’t even rub their eyes.
The cook’s right hand, lifted
an exact century ago,
completes its downward arc
to the kitchen boy’s left ear;
the boy’s tensed vocal cords
finally let go
the trapped, enduring whimper,
and the fly, arrested mid-plunge
above the strawberry pie,
fulfills its abiding mission
and dives into the sweet, red glaze.

As a child I had a book
with a picture of that scene.
I was too young to notice
how fear persists, and how
the anger that causes fear persists,
that its trajectory can’t be changed
or broken, only interrupted.
My attention was on the fly;
that this slight body
with its transparent wings
and lifespan of one human day
still craved its particular share
of sweetness, a century later.

Lisel Mueller – Quando me perguntam

Quando me perguntam
como comecei a escrever poesia,
eu falo da indiferença da natureza.

Foi logo depois que minha mãe faleceu,
um brilhante dia de junho
no qual tudo florescia.

Sentei-me em um banco de pedra acinzentado
em um jardim carinhosamente cultivado,
mas os lírios eram tão surdos
quanto os bêbados adormecidos
e as rosas encurvadas para dentro.
Nada estava enlutado ou quebrado,
nem uma folha caiu
e o sol ressoava infindos comerciais
de férias de verão.

Sentei-me em um banco de pedra acinzentado
cercado das ingênuas faces
das rosas e das não-me-toques brancas
e depositei minha dor
na boca da linguagem,
a única coisa que sofreria comigo.

Trad.: Nelson Santander

When I am asked

When I am asked
how I began writing poems,
I talk about the indifference of nature.

It was soon after my mother died,
a brilliant June day,
everything blooming.

I sat on a gray stone bench
in a lovingly planted garden,
but the day lilies were as deaf
as the ears of drunken sleepers
and the roses curved inward.
Nothing was black or broken
and not a leaf fell
and the sun blared endless commercials
for summer holidays.

I sat on a gray stone bench
ringed with the ingenue faces
of pink and white impatiens
and placed my grief
in the mouth of language,
the only thing that would grieve with me.