Victoria Kennefick – Monte submarino

Da areia, você aponta onde ficava a loja,
os correios, o bar;
você me conta que caminhou até o vilarejo quando menino
para ficar nas esquinas, farejar o ar salgado.

Tocos se erguem da argila na maré baixa,
alinham-se como soldados derrotados, inclinam-se ao vento.
Eles já foram árvores, agora lembram apenas ramos,
esquecidos do verde vivo das folhas na primavera.

Um vilarejo debaixo d’água, sou uma estátua ao seu lado.
Perguntas nadam em minha boca como peixes:
o mar alcançará Shanagarry? Conseguiria escalar a nossa colina?
Eu o vejo cercar os nossos leitos, afogar-nos durante o sono.

Ballycotton repousa em uma plataforma rochosa,
observa os que caíram, prende a respiração –
o olho vermelho do farol pisca ciclopicamente.
Ondas lambem os penhascos, famintas por pedra.

Você me diz que os aldeões foram realocados,
que ninguém se perdeu. O que antes eram árvores discorda;
pequenas ondas se esgueiram em torno delas.
Você segura a minha mão; imóveis, observamos a maré subir.

Trad.: Nelson Santander

Seamount

On the sand you point out where the shop was,
the post office, the pub;
you tell me you walked to the village as a boy,
to stand at corners, sniff the salty air.

Stumps rise out of clay at low tide,
line up like broken soldiers, lean on the wind.
Once they were trees, now they only remember branches,
forget the sharp green of leaves in spring.

A village underwater, I am a statue beside you.
Questions swim round my mouth like fish:
Will the sea reach Shanagarry? Could it march up our hill?
I see it surround our beds, drown us in sleep.

Ballycotton perches on a rocky-ledge, peers
down at the fallen, holds its breath –
the red eye of the lighthouse winks cycloptically.
Waves suck at cliffs, starving for stone.

You tell me villagers relocated,
no one was lost. What once were trees disagree;
tiny waves sneak around them.
You hold my hand; still we watch the tide come in.

Paulo Henriques Britto – Soneto Inglês

A surpresa do amor — quando já não se
espera do mundo nada em especial,
e a evidência de que os anos vão se
acumulando sem nenhum sinal
de sentido já não dói nem comove —
quando em matéria de felicidade
não se deseja mais que uns nove
metros quadrados de privacidade
para abrigar os prazeres amenos
do sexo fácil e da literatura
difícil — eis que então, sem mais nem menos,
como quem não quer nada, surge a cura —
definitiva, radical, imensa —
do que nem parecia mais doença.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 29/12/2016

Daniel Filipe – Réquiem para um defunto vulgar

Antoninho morreu. Seu corpo resignado
é como um rio incolor, regressando à nascente
num silêncio de espanto e mistério revelado.
Está ali – estando ausente.

Jaz de corpo inteiro e fato preto.
Ele, da cabeça aos pés,
trivial e completo,
estátua de proa e moço de convés.

Jaz como se dormisse (pelo menos
é o que dizem as velhas carpideiras).
Jaz imóvel, sem gestos, sem acenos.
Jaz morto de todas as maneiras.

Jaz morto de cansaço, de pobreza, de fome
(sobretudo, de fome). Jaz morto sem remédio.
É apenas, sobre um papel azul, um nome.
De ser mais qualquer coisa, a morte impede-o.

Jaz alheio a tudo à sua volta,
à grita dos parentes, companheiros,
como um cavalo à rédea solta
ou no mar largo, os rápidos veleiros.

Jaz inútil, feio, pesado,
a colcha de crochet aconchega-o na cama.
Nunca esteve tão quente e animado.
Nunca foi tão menino de mama.

Os filhos olham-no e fazem contas cuidadosas:
padre, enterro, velório, certidão
de óbito… E discutem, com manhas de raposas,
os parcos bens e a possível divisão.

Entanto, sobre o leito que foi da vida de casado,
Antoninho jaz morto. Definitivamente.
Os parentes e amigos falam dele no passado.
A viúva serve copos de aguardente.

Paulo Henriques Britto – Crepuscular

1.
Chegamos tarde. (Era sempre maio,
sempre madrugada. Tudo era turvo.
Éramos em bando. Por medo. Ou tédio.

Havia um lobo à solta na cidade
aberta, e uma loucura provisória
era a nossa premissa, nossa promessa.

Era preciso estar o tempo todo
atento, em transe, em trânsito, no assédio
a um ou outro flanco do lobo,

fugindo de junho, perseguindo o agora,
correndo o risco de ser só um rascunho.
Éramos em branco. Por um triz. Por ora.)

2.
Chegamos tarde, é claro. Como todos.
Chegamos tarde, e nosso tempo é pouco,
o tempo exato de dizer: é tarde.

Todas as sílabas imagináveis
soaram. Nada ficou por cantar,
nem mesmo o não-ter-mais-o-que-cantar,

o não-poder-cantar, já tão cantado
que se estiolou no infinito banal
de espelhos frente a frente a refletir-se,

restando da palavra só o resumo
da pálida intenção, indisfarçada,
de não dizer, dizendo, coisa alguma.

3.
E assim, os delicados desesperam
do imperativo de concatenar
nomes e coisas, como se o perigo

vivesse num vestígio do sentido,
na derradeira pedra sobre pedra
de um prédio alvo de atentados tantos,

e negam mesmo a possibilidade
de não negar tudo — sem se dar conta
de que, se fosse à vera a negação

e nela houvesse fundo e coerência,
não haveria língua em que a expressar
que não a algaravia do silêncio.

4.
Dúvida, porém, não há: língua é língua,
e clavicórdio, clavicórdio é.
Assim como a canção do clavicórdio

não é a mesma música do vento,
e o vento não é pássaro ou cigarra
que canta, sem que o saiba, o verão,

palavra é mais que o babujar do vento,
que o monocórdio de cigarra ou pássaro,
mais mesmo que o mais sábio clavicórdio.

Mais mágica que música, afinal,
a inflacionar o mundo de fantasmas.
Desses fantasmas se faz o real.

5.
Toda palavra já foi dita. Isso é
sabido. E há que ser dita outra vez.
E outra. E cada vez é outra. E a mesma.

Nenhum de nós vai reinventar a roda.
E no entanto cada um a re-
inventa, para si. E roda. E canta.

Chegamos muito tarde, e não provamos
o doce absinto e ópio dos começos.
E no entanto, chegada a nossa vez,

recomeçamos. Palavras tardias,
mas com vertiginosa lucidez —
o ácido saber de nossos dias.

6.
No fim de tudo, restam as palavras.
Na solidão do corpo, no saber-se
apenas pasto para o esquecimento,

há sempre a semente de alguma ilíada
mínima, promessa de permanência
no mármore etéreo de uma sílaba,

mesmo sendo mero sopro, captado
na frágil arquitetura do papel,
alvenaria de ar. Restará

a palavra que deixarmos no fim da
nossa história. Que a julguem os outros,
que chegarão depois. Mais tarde ainda.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 28/12/2016

Joan Margarit – Amar é onde

Sentado em um trem olho a paisagem
e de repente, fugaz, passa um vinhedo
como o relâmpago de uma verdade.
Seria um erro descer do trem
porque então a vinha já não haveria.
Amar é onde, algo sempre o evoca:
um telhado ao longe, o palco desprovido
(no chão, uma rosa) de um maestro,
os músicos que hoje tocam sozinhos.
Teu quarto ao amanhecer.
E, naturalmente, os pássaros que cantam
naquele cemitério em uma manhã de junho.
Amar é um lugar.
Sobrevive na parte mais profunda: é de onde viemos.
E também o lugar onde perdura a vida.

Trad.: Nelson Santander

Amar es Dónde

Sentado en un tren miro el paisaje
y de pronto, fugaz, pasa un viñedo
como el relámpago de una verdad.
Sería un error bajar del tren
porque entonces la viña desaparecería.
Amar es dónde, algo lo evoca siempre:
un terrado a lo lejos, la tarima vacía
(en el suelo una rosa) de un director de orquesta,
los músicos que hoy están tocando solos.
Tu habitación al clarear el día.
Y, claro está, los pájaros que cantan
en aquel cementerio una mañana de junio.
Amar es un lugar.
Perdura en lo más hondo: es de dónde venimos.
Y también el lugar donde queda la vida.

Paulo Henriques Britto – Memento Mori II

Luz frágil que brota no breu
e num rápido relance dá forma
e cor e corpo às coisas todas,

luz que se apega o pouco que pode
às aparências, acredita piamente
no sonho de substância que secretam,

luta com todas as parcas forças
contra o conforto de apagar-se enfim
por trás de duas implacáveis pálpebras.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 27/12/2016

Laura Gilpin – O bezerro de duas cabeças

Amanhã, quando os garotos da fazenda encontrarem esta
aberração da natureza, eles embrulharão seu corpo
em jornal e o levarão para o museu.

Mas esta noite ele está vivo e no campo
ao norte, com sua mãe. É uma noite
perfeita de verão: a lua crescente sobre
o pomar, o vento na grama. E
quando ele olha para o céu, há
duas vezes mais estrelas do que de costume.

Trad.: Nelson Santander

Two-Headed Calf

Tomorrow when the farm boys find this
freak of nature, they will wrap his body
in newspaper and carry him to the museum.

But tonight he is alive and in the north
field with his mother. It is a perfect
summer evening: the moon rising over
the orchard, the wind in the grass. And
as he stares into the sky, there are
twice as many stars as usual.

Bye Adam Ellis

Paulo Henriques Britto – Memento Mori I

Nenhum sinal da solidão se vê
lá onde o amor corrói a carne a fundo.
Dentro da pele, no entanto, você
é só você contra o mundo.

Esta felicidade que abastece
seu organismo, feito um combustível,
é volátil. Tudo que sobe desce.
Tudo que dói é possível.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/12/2022

Gabrielle Calvocoressi – Sinto a sua falta. Gostaria de dar um passeio com você.

Não importa se você acabou de chegar em seu esqueleto.
Adoraria dar um passeio com você. Sinto a sua falta.
Adoraria preparar um camarão saganaki para você.
Como você costumava me fazer quando estava viva.
Adoraria alimenta-la. Sentarmo-nos com uma fumegante
tigela de pilaf. Pequenos tomates tostados
cobertos de pimenta e noz-moscada. Sinto a sua falta.
Adoraria caminhar até os correios com você.
Traga o cão fantasma. Passaremos pela cachoeira
e você poderá me contar sobre o além.
Eu queria. Queria que você voltasse por um tempo.
Não precisa nem mesmo trazer sua epiderme. Eu saberei que é
você. E sei que você me reconhecerá, apesar de tudo. Estou
maior agora. Mais grisalha. Eu lhe mostrarei o meu jardim.
Eu gostaria de me jogar na pilha de folhas que você rastelou, mas e se você
também quiser se jogar? Eu rastelarei para você. Sinto falta
de você parada olhando para o rio com seu rastelo
na mão. Sinto falta de você na sua jaqueta azul bufante.
Elas estão na moda agora. Posso lhe dar uma nova
se você passar por aqui. Eu sei que lhe disse
que estaria tudo bem se você partisse. Sei que lhe disse
que estaria tudo bem se você me deixasse. Por que você acreditou em mim?
Você sempre acreditou em mim. Queria que você
voltasse para que pudéssemos falar sobre a verdade.
Sinto a sua falta. Queria que você entrasse pela minha
porta e me encarasse do espelho. Venha pela
tubulação.

Trad.: Nelson Santander

Miss you. Would like to take a walk with you.

Do not care if  you just arrive in your skeleton.
Would love to take a walk with you. Miss you.
Would love to make you shrimp saganaki.
Like you used to make me when you were alive.
Love to feed you. Sit over steaming
bowls of pilaf. Little roasted tomatoes
covered in pepper and nutmeg. Miss you.
Would love to walk to the post office with you.
Bring the ghost dog. We’ll walk past the waterfall
and you can tell me about the after.
Wish you. Wish you would come back for a while.
Don’t even need to bring your skin sack. I’ll know
you. I know you will know me even though. I’m
bigger now. Grayer. I’ll show you my garden.
I’d like to hop in the leaf pile you raked but if you
want to jump in? I’ll rake it for you. Miss you
standing looking out at the river with your rake
in your hand. Miss you in your puffy blue jacket.
They’re hip now. I can bring you a new one
if you’ll only come by. Know I told you
it was okay to go. Know I told you
it was okay to leave me. Why’d you believe me?
You always believed me. Wish you would
come back so we could talk about truth.
Miss you. Wish you would walk through my
door. Stare out from the mirror. Come through
the pipes.

Paulo Henriques Britto – Acalanto

Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, e um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
no aconchego de um outro corpo morno.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/12/2016