Jorge Valdés Díaz-Vélez – A última vez de Casanova

Giacomo se envolve no crepúsculo do Florian

Perguntas-me, Lesbia, quantos dos teus beijos
seriam suficientes para me satisfazer.
Catulo

Enquanto beijo tua boca, doce
donzela na conquista, mordo
as comissuras de tua mãe
e os lábios que tuas irmãs
cedem ao peso do desejo;
beijo as próximas mulheres
distantes e ainda desconhecidas
por minha cobiça, aquelas
que um dia serão tu em outra
tu, que agora pressionas meus lábios
contra tua máscara de névoa,
e abres o negro veludo
onde minha angústia deposita,
com um grito úmido e abafado,
o rubi do meu coração
fumegante ao pé de teu reflexo.

Trad.: Nelson Santander

La última vez de Casanova

Giacomo se envuelve en el crepúsculo del Florian

Me preguntas cuántos besos tuyos, Lesbia,
me bastarían para estar satisfecho.
Cátulo

Mientras beso tu boca, dulce
doncella en la conquista, muerdo
las comisuras de tu madre
y los labios que tus hermanas
ceden al peso del deseo;
beso a las próximas mujeres
lejanas y desconocidas
aún por mi codicia, aquellas
que algún día serán tú en otra
tú, que ahora oprimes mis labios
contra tu máscara de niebla,
y abres el negro terciopelo
donde mi angustia deposita,
con un grito húmedo y sordo,
el rubí de mi corazón
humeante al pie de tu reflejo.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Matzhevá

/   Em um livro do meu pai, leio
a frase: «A ti, que me lês».
É o título de uma elegia
escrita há dois séculos, ou um sopro
de solitude que se elevou
ao leitor imaginário de 
fora dos círculos do tempo.
Essa linha guarda em cada sílaba
a fresca impressão de sua veemência:
ser uma semente indócil em algum dia
limítrofe ao de agora, garrafa
de aflição lançada por alguém
como qualquer um de nós.
É, junto com a tarde, um epitáfio,
um grito que vem de muito longe,
e que hoje, 29 de fevereiro
de 2000, faz estremecer minhas mãos.
Invoco-a em voz baixa, e ela me ilumina
como uma prece no cativeiro;
pronuncio-a a quem estiver me ouvindo
virar esta página com frio.

Trad.: Nelson Santander

Matzhevá

   En un libro de mi padre, leo
la frase: «A ti, que me estás leyendo».
Es el título de una elegía
escrita hace dos siglos, o un hálito
de la soledumbre que ha subido
al lector imaginario desde
fuera de los círculos del tiempo.
Esa línea guarda en cada sílaba
la fresca impresión de su vehemencia:
ser semilla indócil algún día
limítrofe al de ahora, botella
de quebranto lanzada por alguien
igual a cualquiera de nosotros.
Es, junto a la tarde, un epitafio,
un grito que llega de muy lejos,
y hoy, a 29 de febrero
de 2000, estremece mis manos.
La invoco en voz baja, me ilumina
como una oración en cautiverio;
la digo a quien estuviera oyéndome
doblar esta página con frío.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Formas migratórias

Formas Migratórias

para Katia Alemann

Aprendemos a amar a conta-gotas
essas pequenas pausas de que se veste
o temporal para inundar a solidão
do lado de fora, o ramo entre violeta
e ocre das tardes, o murmúrio
semântico do céu. Nesta ordem,
temos esmaecido a distância,
a longitude sem proporção, as linhas
que se relacionam com as coisas. Curtas
lacunas de ar, esses segundos quebram
o ambíguo conceito de equilíbrio
que na água subjaz e se sustenta
como outra voz dentro do fogo.
Quando clareia e a tarde se harmoniza
em sua límpida explosão em camadas,
aprendemos os mínimos rumores
de onde irrompem cinzas desmemórias.
Com eles, construímos este quarto
saturado de música e de vítreos
aromas de jasmim ou desconhecidos.
Conceitos e raízes que se aglomeram
e edificam uma oval sonora,
um ponto de chegada, outro pretexto
condenado a apalpar nossa garganta
para ouvir-nos dizer: amo esta chuva
quando ela cessa e podemos ouvi-la
abrigar um país debaixo da terra.

Trad.: Nelson Santander

Formas migratorias

para Katia Alemann

Aprendimos a amar a cuentagotas
esas pequeñas pausas que el chubasco
viste para inundar puertas afuera
la soledad, la rama entre violeta
y ocre de las tardes, el murmullo
semántico del cielo. En este orden
hemos desdibujado la distancia,
la longitud sin proporción, las líneas
que relacionan a las cosas. Breves
lagunas de aire, esos segundos quiebran
el ambiguo concepto de equilibrio
que en el agua subyace y se sostiene
al igual que otra voz dentro del fuego.
Cuando escampa y la tarde se armoniza
en su limpia explosión de veladuras,
aprendemos los mínimos rumores
donde irrumpen cenizas desmemorias.
Con ellos construimos este cuarto
que está lleno de música y de vítreos
aromas de jazmín o extranjería.
Nociones y raigambres que se agolpan
y edifican un óvalo sonoro,
un punto de llegada, otro pretexto
condenado a palpar nuestra garganta
para oírnos decir: amo esta lluvia
cuando cesa y podemos escucharla
recoger un país bajo la tierra.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – A outra rosa

Ela beijou na rosa
(seu nome era um aguilhão
feminino e brutal)
a imagem de outra rosa

gravada em uma lousa
de mármore, cristalina.
A luz era mais fina
e, ao tato, tão airosa

quanto a flor que ardia
sem pausa em sua memória.
Em outro meio-dia,

a rosa era ilusória
promessa repartida;
e o beijo, a outra vida.

Trad.: Nelson Santander

La otra rosa

Ella besó en la rosa
(su nombre fue una espina
brutal y femenina)
la imagen de otra rosa

grabada en una losa
de mármol, cristalina.
La luz era más fina
y al tacto, tan hermosa

como la flor que ardía
sin pausa en su memoria.
En otro mediodía,

la rosa era ilusoria
promesa compartida;
y el beso, la otra vida.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Ex libris

Eu reli novamente aqueles versos
que falavam de amor e que lemos
na noite em que ardeu Troia e nos perdemos
no fundo de seus negros universos.

Ouvi em cada folha os macios
relevos de tua pele em que achamos
haver bebido ao sol em seus racemos
e ao mar que refletia em seus cicios

fartos nossa ascensão ao precipício.
Fareja-se a luz desses momentos
Ao toque de um vinco. Há um indício

por debaixo das linhas sublinhadas,
uma brisa de ti, teus dedos lentos
abertos em quinas despovoadas.

Trad.: Nelson Santander

Ex libris

He vuelto a releer aquellos versos
que hablaban del amor y que leímos
la noche que ardió Troya y nos perdimos
al fondo de sus negros universos.

He oído en cada página los tersos
acentos de tu piel donde creímos
haber bebido al sol en sus racimos
y al mar que reflejaba en sus diversos

murmullos nuestro ascenso al precipicio.
Se puede oler la luz de esos momentos
Al tacto de un doblez. Queda un indicio

debajo de las líneas subrayadas,
un hálito de ti, tus dedos lentos
abiertos en esquinas despobladas.

Jorge Valdés Días-Vélez – O olival

Não direi a oração que se pronuncia
em outras ocasiões como esta.
Eu vim para enterrar-te. E o meu silêncio
é o outro lugar para onde foste.
Porque não há mais verdade do que a tua memória
e nada a dizer que tu não saibas.
Talvez alguma imagem te restitua
a sombra original, a água de jarro
nos lábios de tua sede, talvez as flores
que incendiavam o quarto com luz pura,
a evocação teimosa de suas corolas
atrás de uma janela, entre as linhas
de Ungaretti ou Cernuda que esquecemos.
Mas tudo é real e é diferente
o ar que aqui respiro, tão fora
de tua respiração e suas raízes. Amanhã
irão ligar e com certeza
alguém dirá que não, que ainda não chegaste.
Seguirá o vale cinzento com suas oliveiras
secando ao sol como se nada
tivesse continuação, e será em vão
que perguntem por ti. Tu terás partido.

El olivar

No diré la oración que se pronuncia
en otras ocasiones como ésta.
Yo he venido a enterrarte. Y mi silencio
es el otro lugar a donde has ido.
Porque no hay más verdad que tu memoria
y nada por decir que no conozcas.
Acaso alguna imagen te devuelva
la sombra original, agua de jarro
en labios de tu sed, tal vez las flores
que incendiaban la estancia con luz pura,
la terca evocación de sus corolas
detrás de un ventanal, entre las líneas
de Ungaretti o Cernuda que olvidamos.
Pero todo es real y es diferente
el aire que respiro aquí, tan fuera
de tu aliento y sus raíces. Mañana
llamarán por teléfono y seguro
alguien dirá que no, que no has llegado.
Seguirá el valle gris con sus olivos
resecándose al sol como si nada
tuviera sucesión, y será en vano
que pregunten por ti. Tú habrás partido.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – O fotógrafo e a modelo

O tempo que foi sempre teu inimigo
se deteve em tua imagem. Já és aquela
garota do calendário, a princesa
sem fábulas, o anjo que consigo

pendurar em qualquer nuvem. De ouro e trigo
a luz encaracolada em tua cabeça,
a areia que acaba onde começa
a linha de teu sexo. Estás comigo

e não tens tristezas nem pesares
nem compromissos por honrar. Apenas repousas
imóvel no quadro, entre palmeiras
de plástico e congeladas mariposas

roubadas do Cântico dos Cânticos.
Não sabes que não morreste. Se soubesses…

Trad.: Nelson Santander

El fotógrafo y la modelo

El tiempo que fue siempre tu enemigo
se detuvo en tu imagen. Ya eres esa
chica de calendario, la princesa
sin fábulas, el ángel que consigo

colgar de cualquier nube. De oro y trigo
la luz ensortijada en tu cabeza,
la arena que se acaba en donde empieza
la línea de tu sexo. Estás conmigo

y no tienes tristezas ni pesares
ni citas por cumplir. Sólo reposas
inmóvil en el cuadro, entre palmeras
de plástico y heladas mariposas

robadas del Cantar de los cantares.
No sabes que no has muerto. Si supieras.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Cruzeiro do Sul

Ardem as folhas do outono
na umidade crepuscular
de Buenos Aires. Contra um parque
dividido por três colinas,
a opacidade de sua beleza
procura nas folhagens o olhar
que acompanhou a luz. As lâmpadas
douradas mantêm suas memórias
e acendem sombras no gramado.

Ao entardecer, se organizam
o horizonte de troncos
e o suave tato dos olhos
para construir-se outro cômodo
para os pássaros. Em silêncio
sobes as ruas e regressas
ao canto da noite. Permanece
em teus lábios o murmúrio
que, ao abandono, pronunciaste,
a sobra de palavras
deixadas na solidão
de um quarto acolhedor, já escuro.

Áspero em sua constelação,
o Cruzeiro do Sul abre suas pontas
enquanto aguardo tua chegada
porque não és tu quem voltaste
a resplandecer junto ao eco,
mas tuas pegadas fundas, tênues
fragmentos de um espelho em chamas
que te viu entrar cegamente
nas membranas do desejo.

Trad.: Nelson Santander

Cruz del sur

Arden las hojas del otoño
en la humedad crepuscular
de Buenos Aires. Contra un parque
dividido por tres colinas,
la opacidad de su belleza
busca en follajes la mirada
que acompañó la luz. Las lámparas
doradas guardan sus memorias
y encienden sombras en el césped.

Al atardecer se disponen
el horizonte de cortezas
y el suave tacto de los ojos
para construirse otra estancia
con los pájaros. En silencio
subes las calles y regresas
al canto de la noche. Queda
entre tus labios el murmullo
que al abandono pronunciaste,
la rozadura de palabras
dejadas en la soledad
de un cuarto cálido, ya oscuro.

Áspera en su constelación,
la Cruz del Sur abre sus puntas
mientras aguardo tu llegada
porque no eres tú quien ha vuelto
a resplandecer junto al eco,
sino tus huellas hondas, tenues
fragmentos de un espejo en llamas
que te observó al entrar a ciegas
en las membranas del deseo.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Canção de fevereiro

Canção de fevereiro

no peito do céu, palpitando
Jaime Gil de Biedma

Leve e triste, a tarde se retira
contigo até o crepúsculo e as horas
começam a doer nas dobras distantes
do lençol. Subitamente
a noite regressou e é difícil
não pensar em teus efêmeros lábios
ou nas altas regiões do teu corpo
glorificando em telas de algodão.
Agora que não estás, olho para trás
para o raio que divide tuas pestanas
e o arrepio de tuas costas
moldando-me os braços, o sorriso
do teu sexo na vertigem dos lábios,
o instante fluvial de tua alegria.
Ao longe respira o mar, eleva
a superfície suave seu encerramento
sob um relento de líquidos cristais.
A noite sem tua pele cresce mais profundamente
pelas ruas onde asperges a chuva.
Em silêncio te recordo, garota,
com as últimas brasas que se apagam
contra o peito do céu, palpitando.

Trad.: Nelson Santander

Canción de febrero

sobre el pecho del cielo, palpitando
Jaime Gil de Biedma

Leve y triste la tarde se retira
contigo hacia el crepúsculo y las horas
empiezan a doler en los distantes
repliegues de la sábana. De pronto
la noche ha regresado y es difícil
no pensar en tu boca momentánea
o en las altas comarcas de tu cuerpo
en lienzos de algodón en alabanza.
Ahora que no estás, vuelvo a mirar
el rayo que dividen tus pestañas
y el estremecimiento de tu espalda
moldeándome los brazos, la sonrisa
de tu sexo en los vértigos del labio,
el instante fluvial de tu alegría.
A lo lejos respira el mar, asciende
la blanda superficie su clausura
bajo un raso de líquidos cristales.
La noche sin tu piel crece más honda
por las calles donde asperjas la lluvia.
En silencio te recuerdo, muchacha,
con las últimas brasas que se apagan
contra el pecho del cielo, palpitando.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Ishmar

            para Martha Iga

A maneira de pentear-te nua
diante do espelho úmido do banheiro,
de prender na palma teus cabelos
para fazer correr a água e de agachar-te
no meio de palavras que não entendo;
o ato de secar tua pele, a forma
de sentir com os dedos uma ruga
que ontem não estava, ou de passar a toalha
pela pátina escura de tua púbis;
o modo de olhar para ti contigo
tão perto e tão distante, concentrada
em uma intimidade que a mim me exclui,
são gestos cotidianos de surpresa,
ritos que eu desconheço ao observar
as mesmas cerimônias que renovas
ao calor de teu corpo e que dividem
um segundo em partículas: espaços
onde a vida expressa seu possível
significado e que se afirmam ao pentear-te
nua nas manhãs, como um fruto
que contemplo pela primeira vez.

Trad.: Nelson Santander

Ishmar

            para Martha Iga

La manera de peinarte desnuda
ante el espejo húmedo del baño,
de apresar en la palma tu cabello
para escurrir el agua y agacharte
en medio de palabras que no entiendo;
el acto de secar tu piel, la forma
de sentir con las yemas una arruga
que ayer no estaba, o de pasar la toalla
por la pátina oscura de tu pubis;
el modo de mirarte a ti contigo
tan cerca y tan lejana, concentrada
en una intimidad que a mí me excluye,
son gestos cotidianos de sorpresa,
ritos que desconozco al observar
las mismas ceremonias que renuevas
al calor de tu cuerpo y que dividen
un segundo en partículas: espacios
donde la vida expresa su sentido
posible y que se afirman al peinarte
desnuda en las mañanas, como un fruto
que yo contemplo por primera vez.