Linda Pastan – Dor

Mais fiel
do que um amante ou marido
ela se apega a ti,
dando a si própria o teu sobrenome
como se uma cerimônia tivesse acontecido.

À noite, viras e reviras
procurando pela única
posição suportável,
mas mesmo que finalmente consigas dormir,
ela acorda antes de ti.

Como é pesada,
desalojando com seu volume
toda tua energia vital.
Antes tu parecias não pesar nada,
teus braços poderiam ter sido asas.

Agora cada dedo adiciona uma medida;
tu és puxada para baixo pelo peso
de teu próprio cabelo.
E se tua vida desaparecesse antes de ti,
não correrias atrás dela.

Trad.: Nelson Santander

Pain

More faithful
than lover or husband
it cleaves to you,
calling itself by your name
as if there had been a ceremony.

At night you turn and turn
searching for the one
bearable position,
but though you may finally sleep
it wakens ahead of you.

How heavy it is,
displacing with its volume
your very breath.
Before, you seemed to weigh nothing,
your arms might have been wings.

Now each finger adds its measure;
you are pulled down by the weight
of your own hair.
And if your life should disappear ahead of you
you would not run after it.

Linda Pastan – Estou aprendendo a abandonar o mundo

Estou aprendendo a abandonar o mundo
antes que ele acabe me abandonando.
Já desisti da lua
e da neve, fechando minhas cortinas
contra as reivindicações do branco.
E o mundo levou
meu pai, meus amigos.
Abandonei as linhas melódicas das colinas,
passando para uma paisagem plana, desafinada.
E todas as noites eu desisto do meu corpo,
membro por membro, em movimentos ascendentes
através dos ossos, em direção ao coração.
Mas a manhã chega com os pequenos
adiamentos do café e do canto dos pássaros.
Uma árvore do lado de fora da janela,
que há momentos era simplesmente sombra
recupera seus galhos, ramo
por ramo frondoso.
E enquanto eu retomo o meu corpo,
o sol pousa seu morno focinho em meu colo
como se quisesse fazer as pazes.

Trad.: Nelson Santander

I am learning to abandon the world

I am learning to abandon the world
before it can abandon me.
Already I have given up the moon
and snow, closing my shades
against the claims of white.
And the world has taken
my father, my friends.
I have given up melodic lines of hills,
moving to a flat, tuneless landscape.
And every night I give my body up
limb by limb, working upwards
across bone, towards the heart.
But morning comes with small
reprieves of coffee and birdsong.
A tree outside the window
which was simply shadow moments ago
takes back its branches twig
by leafy twig.
And as I take my body back
the sun lays its warm muzzle on my lap
as if to make amends.

Linda Pastan – Considere o espaço entre as estrelas

Considere o espaço branco
entre as palavras em uma página, não só
as margens em torno delas.
Ou o espaço entre pensamentos:
os instantes em que a mente está inventando
exatamente o que pensa
e a boca espera
para ser preenchida com linguagem.
Considere o espaço
entre os amantes após uma discussão,
o lençol branco, uma fria metáfora
entre eles.
Agora imagine o breve espaço
antes da morte entrar, chapéu na mão:
estes evanescentes anos, repletos de luz.

Trad.: Nelson Santander

Consider the Space Between Stars

Consider the white space
between words on a page, not just
the margins around them.
Or the space between thoughts:
instants when the mind is inventing
exactly what it thinks
and the mouth waits
to be filled with language.
Consider the space
between lovers after a quarrel,
the white sheet a cold metaphor
between them.
Now picture the brief space
before death enters, hat in hand:
these vanishing years, filled with light.

Linda Pastan – As Íris de Monet

Estas flores
sonharam em voltar
à cor pura –
os verdes
de indivisas águas,
os verdes
informes dos prados
assim como Deus disse:
Façam-se as
Íris.

Trad.: Nelson Santander

Monet’s Irises

These flowers
have dreamed themselves
back into pure color—
the greens
of undivided water,
the formless
greens of meadow
just as God said:
Let there be
Irises.

Linda Pastan – Elegia

Nosso último corniso inclina-se
sobre o solo da floresta

oferecendo frutos
aos pássaros, aos esquilos.

É uma relíquia
dos dias em que os cornisos

floresciam — renda natada em abril,
leite derramado em maio —

sua beleza delicada
mas banal.

Quando eu dava como certo
que o mundo permaneceria

como era, e eu
permaneceria com ele.

Trad.: Nelson Santander

Elegy

Our final dogwood leans
over the forest floor

offering berries
to the birds, the squirrels.

It’s a relic
of the days when dogwoods

flourished—creamy lace in April,
spilled milk in May—

their beauty delicate
but commonplace.

When I took for granted
that the world would remain

as it was, and I
would remain with it.

Linda Pastan – Chove sobre a casa de Anne Frank

Chove sobre a casa
de Anne Frank
e sobre os turistas
amontoados sob a sombra
de seus guarda-chuvas,
sobre os perfeitamente silenciosos
turistas que prefeririam estar
em outro lugar
mas que aqui esperam em escadas
tão íngremes pelas quais eles devem subir
para alguma ocasião
no alto do sótão vazio,
no banheiro pitoresco,
no esqueleto
de uma cozinha
ou no mapa —
cada uma de suas setas
uma farpa de arame —
com todas as datas, as expulsões,
os contornos proibidos
dos continentes.
E em Amsterdam chove
sobre o Van Gogh Museum
onde nos apressaremos
para ver como alguém mais
foi capaz de encontrar o puro
centro de luz
dentro do círculo sombrio
de seus demônios.

Trad.: Nelson Santander

It is raining on the house of Anne Frank

It is raining on the house
of Anne Frank
and on the tourists
herded together under the shadow
of their umbrellas,
on the perfectly silent
tourists who would rather be
somewhere else
but who wait here on stairs
so steep they must rise
to some occasion
high in the empty loft,
in the quaint toilet,
in the skeleton
of a kitchen
or on the map—
each of its arrows
a barb of wire—
with all the dates, the expulsions,
the forbidding shapes
of continents.
And across Amsterdam it is raining
on the Van Gogh Museum
where we will hurry next
to see how someone else
could find the pure
center of light
within the dark circle
of his demons.