W. S. Merwin – Juventude

Durante toda a juventude estive procurando por você
sem saber o que eu procurava

ou de como chama-la acho que eu nem
mesmo sabia o que estava procurando como

poderia reconhece-la quando a visse como fiz
vezes sem conta quando você apareceu para mim

como apareceu nua oferecendo-se
inteiramente naquele momento e deixou-

me respira-la toca-la prova-la sabendo
não mais do que eu sabia e somente quando

comecei a pensar em perde-la é que eu a
reconheci quando você já era

parte lembrança parte a distância que resta
minha nas maneiras em que aprendi a sentir sua falta

do que não conseguimos reter as estrelas são feitas

Trad.: Nelson Santander

Youth

Through all of youth I was looking for you
without knowing what I was looking for

or what to call you I think I did not
even know I was looking how would I

have known you when I saw you as I did
time after time when you appeared to me

as you did naked offering yourself
entirely at that moment and you let

me breathe you touch you taste you knowing
no more than I did and only when I

began to think of losing you did I
recognize you when you were already

part memory part distance remaining
mine in the ways that I learn to miss you

from what we cannot hold the stars are made

Jane Kenyon – A pera

Há um momento na meia idade
em que você fica entediado, irritado
por sua mente medíocre, assustado.

Neste dia, o sol
arde forte e brilhante,
deixando-o mais desolado.

Acontece sutilmente, como quando uma pera
apodrece de dentro para fora,
e você talvez não perceba
até que as coisas tenham ido longe demais.

Trad.: Nelson Santander

The Pear

There is a moment in middle age
when you grow bored, angered
by your middling mind, afraid.

That day the sun
burns hot and bright,
making you more desolate.

It happens subtly, as when a pear
spoils from the inside out,
and you may not be aware
until things have gone too far.

Eavan Boland – E alma

Minha mãe morreu em um verão —
o mais úmido nos registros do Estado.
Safras apodreciam no oeste.
Toalhas de mesa xadrez dissolviam-se nos jardins.
Cadeiras de praia vazias recolhiam a chuva.
Enquanto eu me dirigia até ela
no trânsito, por entre lilases que gotejavam sombriamente
atrás das casas
e nas calçadas, para prestar-lhe
a última homenagem de uma filha, pensei em algo
que lembrei de
ter ouvido uma vez, que o corpo é, ou
diz-se ser, quase todo feito de
água e ao virar para o sul, ao qual
pertence nossa cidade,
na qual
todo santo dia os elementos começam
uma jornada uns em direção aos outros que nunca,
dado o nosso clima,
falha —
o oceano visível nas bordas recortadas por ele,
a cor da nuvem alcançando a atmosfera,
o Liffey* armazenando um e convocando a outra,
o sal saudando a falta disso no North Wall** e,
como se isso não fosse o suficiente, tudo
terminando quase todas as noites
no centro de nossas conversas —
costa canal oceano rio corrente e agora
mãe e eu seguimos em frente e, embora
a mente não seja confiável no luto, no
aguaceiro próximo quase parecia
que eles poderiam ser a sombra um do outro
do mesmo modo que o corpo é
de cada qual, mas agora
eles estavam novamente em movimento — a névoa na neblina,
a neblina na maresia e ambos no esmalte oleoso
que jazia nas grades
da casa onde ela estava morrendo
quando entrei.

Trad.: Nelson Santander

* O Liffey é um rio no leste da Irlanda que atravessa o centro de Dublin até sua foz na baía de Dublin.

** Nort Wall: bairro situado do lado norte de Dublin, ao longo do rio Liffey.

And Soul

My mother died one summer—
the wettest in the records of the state.
Crops rotted in the west.
Checked tablecloths dissolved in back gardens.
Empty deck chairs collected rain.
As I took my way to her
through traffic, through lilacs dripping blackly
behind houses
and on curbsides, to pay her
the last tribute of a daughter, I thought of something
I remembered
I heard once, that the body is, or is
said to be, almost all
water and as I turned southward, that ours is
a city of it,
one in which
every single day the elements begin
a journey towards each other that will never,
given our weather,
fail—
the ocean visible in the edges cut by it,
cloud color reaching into air,
the Liffey storing one and summoning the other,
salt greeting the lack of it at the North Wall and,
as if that wasn’t enough, all of it
ending up almost every evening
inside our speech—
coast canal ocean river stream and now
mother and I drove on and although
the mind is unreliable in grief, at
the next cloudburst it almost seemed
they could be shades of each other,
the way the body is
of every one of them and now
they were on the move again—fog into mist,
mist into sea spray and both into the oily glaze
that lay on the railings of
the house she was dying in
as I went inside.

Francisco Brines – Últimos dias

Na herdade ele confina a memória
e o corpo que declina. Tudo morre
sobre este mundo vivo; e a laranjeira,
e o voo do pombo, são traspassados
por um raio outonal de azul.
Acompanham-lhe os livros; as caminhadas
trazem até ele o odor de rosas abertas,
e o suave abatimento dos dias.
Ele ardeu na solidão, e agora escuta
a primavera viva dos melros.
Dias há em que foge de casa,
e no sul, próximo às águas, onde habitam
os jovens, ele se hospeda. Aprecia-lhes
a nudez, suas risadas, a ilusão
que depositam na vida. E eles tocam
nele uma estranheza, seu olhar
vivo, a abolição do entusiasmo.
A Cidade dos Jovens não dorme,
é fogo e é silêncio enquanto o hóspede
se prepara para retornar. Em sua alcova,
retomará a lenta despedida
da vida. Com rosas, e pombos,
e o único desejo que ainda o tenta:
seu próximo retorno à Cidade.
Uma noite, tenta um poema
pessoal, embora vago, como se escrito
por ele, quando jovem, pressentindo
os dias venturosos da velhice.
E é o último engano de sua vida.

Trad.: Nelson Santander

Días Finales


En la heredad recluye la memoria
y el cuerpo que declina. Todo muere
sobre este mundo vivo; y el naranjo,
y el vuelo del palomo, es traspasado
por un rayo otoñal desde el azul.
Se acompaña de libros; los paseos
llevan a él olor de abiertas rosas,
y el suave abatimiento de los días.
Ardió en la soledad, y ahora escucha
la primavera viva de los mirlos.
Algunos días huye de la casa,
y al sur, junto a las aguas, donde habitan
los jóvenes se hospeda. Agradece
su desnudez, sus risas, el engaño
que tienen de la vida. Y ellos tocan
en él una extrañeza, su mirada
viva, la abolición del entusiasmo.
La Ciudad de los Jóvenes no duerme,
es fuego y es silencio, cuando el huésped
se dispone al regreso. En su alcoba
recobrará la lenta despedida
de la vida. Con rosas, y palomos,
y el único deseo que aún le tienta:
su próximo regreso a la Ciudad.
Alguna noche intenta algún poema
personal, aunque vago, como escrito
por él, cuando era joven, presintiendo
los días venturosos de vejez.
Y es el último engaño de su vida

Suzannah Evans – Um plano de contingência

E se estivermos separados quando chegar o asteroide
ou a tempestade magnética que colapsará a energia?

Talvez você esteja então esperando por um trem enquanto a luz do sol
se extingue, bem acima dos painéis de vidro do telhado.

Eu estarei no trabalho. Perderemos nossas linhas telefônicas
e o sistema da porta de entrada ficará maluco.

Comerei da máquina automática,
beberei da estante de troféus

e dormirei no tapete de nylon com meus colegas,
nós todos três semanas sujos. Fique onde está –

descerei de rapel oito andares em uma corda
fabricadas com o estoque de enfeites de festa,

saqueados da M&S, roubarei uma bicicleta e seguirei pela M1
a quarenta milhas de silêncio e carros abandonados

para que possamos testemunhar o colapso da civilização
em um piquenique com latas de luxo

para que eu possa, no telhado, repousar em seus braços,
nossos rostos sujos iluminados pelos incêndios.

Trad.: Nelson Santander

A Contingency Plan


What if we’re apart when the asteroid comes,
or the magnetic storm that shuts off the power?

You could be waiting for a train as the sun’s bulb
flickers out, high above the glass-panelled roof.

I’ll be at work. We’ll lose the phone lines,
the door-entry system will go haywire.

I will eat from the vending machine,
drink from the competition cupboard

and sleep on nylon carpet with my colleagues
all of us three-weeks unwashed. Stay where you are –

I’ll abseil down eight floors on a rope
fashioned from the supply of festive tinsel,

loot M&S, steal a bike and make for the M1
forty miles of silence and abandoned cars

so we can witness the collapse of civilisation
with a picnic of high-end tins

so I can lie in your arms on a rooftop,
our dirty faces lit by fires.

Donald Hall – Afirmação

Envelhecer é perder tudo.
Velhice, todos a conhecemos.
Mesmo quando somos jovens,
às vezes a vislumbramos, e acenamos-lhe com a cabeça
quando perdemos um avô.
Depois remamos durante anos na lagoa
dos verões plenos, ignorantes e satisfeitos. Mas um casamento,
que começou sem causar danos, se dispersa
em destroços na praia
e um amigo da escola cai
duro em uma costa rochosa.
Se um novo amor nos leva para
além da meia idade, nossas esposas
morrerão mais fortes e bonitas.
Novas mulheres vêm e vão. Todas se vão.
A bela amante que se anuncia
temporária
é temporária. A audaciosa mulher
– meia idade frente à nossa velhice –
se afunda em uma ansiedade que não consegue suportar.
Outro amigo de décadas se afasta
com palavras que poluem trinta anos.
Vamos sufocar sob a lama na beira da lagoa
e afirmar que é apropriado
e delicioso perder tudo.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: achei mais do que conveniente publicar a tradução que fiz deste poema no dia de hoje, em que faço aniversário. Também eu já deixei de remar há algum tempo na lagoa dos verões plenos. E também tenho perdido amigos para a morte e para a vida, como acontece com todos que alcançam a provecta idade. Ainda não cheguei lá, mas pressinto que muito em breve também adentrarei a fase em que estarei pronto e sereno para aceitar que envelhecer bem é estar preparado para perder tudo.

Quando esse dia chegar, espero que também seja delicioso, como no poema, e que eu esteja sereno como Landor em seu famoso “Epitáfio”, que um dia traduzi assim:

Não lutei com ninguém; nada valia a lida.
Amei a natureza, e, tanto quanto, a arte;
As mãos, estas aqueci no fogo da vida
Que naufraga; estou pronto para o desate.

Walter Savage Landor – Epitáfio

Affirmation

To grow old is to lose everything.
Aging, everybody knows it.
Even when we are young,
we glimpse it sometimes, and nod our heads
when a grandfather dies.
Then we row for years on the midsummer
pond, ignorant and content. But a marriage,
that began without harm, scatters
into debris on the shore,
and a friend from school drops
cold on a rocky strand.
If a new love carries us
past middle age, our wife will die
at her strongest and most beautiful.
New women come and go. All go.
The pretty lover who announces
that she is temporary
is temporary. The bold woman,
middle-aged against our old age,
sinks under an anxiety she cannot withstand.
Another friend of decades estranges himself
in words that pollute thirty years.
Let us stifle under mud at the pond’s edge
and affirm that it is fitting
and delicious to lose everything.

Camille T. Dungy – Deixe-me

Deixe-me dizer-lhe, América, esta última coisa.
Eu nunca vou deixar de sonhar o seu sonho.
Eu tive um amante uma vez. Se é que podemos chama-lo assim.
Dirigi-me até o apartamento dele em uma cidade distante,
como aquela ursa perdida que vagueou até o nosso beco
no verão em que a fumaça das montanhas em chamas
alterou nosso ar. Não sei o que foi feito dela.
Eu fui para tantos apartamentos naquele dia.
América, essa é a última coisa que vou dizer.
Ele estocara, para o nosso fim de semana juntos,
a comida que sabia que eu gostava. Comida tailandesa
vegetariana, um pouco de feijão preto com batata doce apimentada,
sorvete de coco, um saco de pipoca caramelizada.
Muito Malbec. Ele queria me agradar,
mas bebeu até eu me transformar em uma idiota
por não estar com medo. Eu havia bebido muito também.
Era muito tarde para eu dirigir até algum lugar seguro.
Eu o observei manusear um tijolo como se fosse joga-lo
na minha cabeça. Isso talvez seja uma metáfora. Isso
talvez tenha acontecido. América, com você às vezes
é difícil perceber a diferença. Tudo o que eu pude fazer
foi me trancar dentro do minúsculo quarto dele. Pressionei
um baú contra a porta e escutei enquanto ele jogava
seu corpo contra a madeira. Escutei enquanto ele rasgava
o travesseiro que eu havia costurado para ele. Ele havia sido bom para mim,
mas aquilo era como esperar que as paredes se incendiassem.
Já ouviu falar disso, América? Em um grande incêndio,
algumas casas queimam de dentro pra fora. Uma fagulha
presa nos beirais se infiltrará pelas frestas, queimará
o isolamento, a estrutura, até que tudo
na casa sucumba às chamas. De manhã
encontrei-o no sofá. Pernas muito longas, braços caídos
sobre o tapete, nós dos dedos feridos no mesmo padrão
de um buraco no drywall. Todas as garrafas de vinho
vazias. Cada recipiente de comida aberto, consumido,
ou destruído. “Eu não queria que você comesse,”
ele sussurrou. Se ele não podia consumir o meu corpo,
a comida que ele me dera teria que servir.
Você já viu uma pessoa caminhando pelas ruínas
de uma casa incendiada? Por favor, acredite em mim, eu não estou
fazendo pouco de tal sofrimento, América.
Talvez o sonho que eu ainda não consigo superar é o de que,
até agora, eu consegui sair viva.

Trad.: Nelson Santander

Let me

Let me tell you, America, this one last thing.
I will never be finished dreaming about you.
I had a lover once. If you could call him that.
I drove to his apartment in a faraway town,
like the lost bear who wandered to our cul-de-sac
that summer smoke from the burning mountain
altered our air. I don’t know what became of her.
I drove to so many apartments in the day.
America, this is really the very last thing.
He’d stocked up, for our weekend together,
on food he knew I would like. Vegetarian
pad Thai, some black-bean-and-sweet-potato chili,
coconut ice cream, a bag of caramel popcorn.
Loads of Malbec. He wanted to make me happy,
but he drank until I would have been a fool
not to be afraid. I’d been drinking plenty, too.
It was too late to drive myself anywhere safe.
I watched him finger a brick as if to throw it
at my head. Maybe that’s a metaphor. Maybe
that’s what happened. America, sometimes it’s hard
to tell the difference with you. All I could do
was lock myself inside his small bedroom. I pushed
a chest against the door and listened as he threw
his body at the wood. Listened as he tore apart
the pillow I had sewn him. He’d been good to me,
but this was like waiting for the walls to ignite.
You’ve heard that, America? In a firestorm
some houses burn from the inside out. An ember
caught in the eaves, wormed through the chinking, will flare up
in the insulation, on the frame, until everything
in the house succumbs to the blaze. In the morning,
I found him on the couch. Legs too long, arms spilling
to the carpet, knuckles bruised in the same pattern
as a hole in the drywall. Every wine bottle
empty. Each container of food opened, eaten,
or destroyed. “I didn’t want you to have this,”
he whispered. If he could not consume my body,
the food he’d given me to eat would have to do.
Have you ever seen a person walk through the ruins
of a burnt-out home? Please believe me, I am not
making light of such suffering, America.
Maybe the dream I still can’t get over is that,
so far, I have made it out alive.

Mary Oliver – O martim-pescador

O martim-pescador surge da onda negra
como uma flor azul, em seu bico
ele carrega uma folha prateada. Acredito ser este
o mundo mais bonito – desde que você não se importe
de morrer um pouco, como pode, em toda vida, haver um dia
que não tenha sua gota de felicidade?
Há mais peixes do que folhas
em mil árvores, e, de toda forma, o martim-pescador
não veio ao mundo para pensar nisso, ou em qualquer outra coisa.
Quando a onda se fecha sobre sua cabeça azul, a água
permanece água – a fome é a única história
que ele já ouviu em toda sua vida na qual pode confiar.
Não digo que ele esteja certo. Nem,
tampouco, errado. Religiosamente, ele engole a folha prateada
com seu rio vermelho dividido, e com um grito áspero e agradável
que não poderia me despertar do meu corpo pensativo
se minha vida dependesse disso, ele se desloca de volta
para o mar brilhante para fazer a mesma coisa, para faze-lo
(como eu desejo fazer alguma coisa, qualquer coisa) perfeitamente.

Trad.: Nelson Santander

The kingfisher

The kingfisher rises out of the black wave
like a blue flower, in his beak
he carries a silver leaf. I think this is
the prettiest world – so long as you don’t mind
a little dying, how could there be a day in your whole life
that doesn’t have its splash of happiness?
There are more fish than there are leaves
on a thousand trees, and anyway the kingfisher
wasn’t born to think about it, or anything else.
When the wave snaps shut over his blue head, the water
remains water – hunger is the only story
he has ever heard in his life that he could believe.
I don’t say he’s right. Neither
do I say he’s wrong. Religiously he swallows the silver leaf
with its broken red river, and with a rough and easy cry
I couldn’t rouse out of my thoughtful body
if my life depended on it, he swings back
over the bright sea to do the same thing, to do it
(as I long to do something, anything) perfectly.

Juan Vicente Piqueras – Palmeiras

Nascemos da sede. Somos palmeiras
que crescem à força de perder
seus ramos. Nossos troncos são feridas,
cicatrizes que o vento e a luz dissipam,
quando o tempo, o que faz e o que passa,
ocupa o coração e dele faz um ninho
de perdas, erige
nele seu templo, sua áspera coluna.

Por isso as palmeiras são alegres
como os que sabem sofrer em solidão
e balançam-se ao ar, varrem as nuvens
e entregam em suas copas
cânticos à luz, fontes de fogo,
leques a deus, adeus a tudo.
Estremecem como testemunhas de um milagre
que só elas conhecem.

Somos como a sede das palmeiras,
e cada ferida aberta contra a luz
nos torna mais altos, mais alegres.
Nossos troncos são perdas. Trono é a
nossa dor. É ruim
sofrer, mas é preciso ter sofrido
para sentir, como em um ninho de sangue,
o assombro dos sobreviventes
gratos ao ar e explodir
de regozijo no meio do deserto.

Trad.: Nelson Santander

Palmeras

Nacemos de la sed. Somos palmeras
que van creciendo a fuerza de perder
sus ramas. Nuestros troncos son heridas,
cicatrices que el viento y la luz cierran,
cuando el tiempo, el que hace y el que pasa,
ocupa el corazón y lo hace nido
de pérdidas, erige
en él su templo, su áspera columna.

Por eso las palmeras son alegres
como los que han sabido sufrir en soledad
y se mecen al aire, barren nubes
y entregan en sus copas
salomas a la luz, fuentes de fuego,
abanicos a dios, adiós a todo.
Tiemblan como testigos de un milagro
que sólo ellas conocen.

Somos como la sed de las palmeras,
y cada herida abierta hacia la luz
nos va haciendo más altos, más alegres.
Nuestros troncos son pérdidas. Es trono
nuestro dolor. Es malo
sufrir pero es preciso haber sufrido
para sentir, como un nido en la sangre,
el asombro de los supervivientes
al aire agradecidos y estallar
de alta alegría en medio del desierto.