Nikki Giovanni – Permissões

Eu matei uma aranha
Não uma reclusa marrom assassina
Nem mesmo uma viúva negra
E, pra falar a verdade,
Foi apenas um tipo
Pequeno de aranha frágil
Que deveria ter fugido
Quando peguei o livro
Mas ela não o fez
E ela me assustou
E eu a esmaguei

Eu não acho que
Esteja autorizada a

Matar qualquer coisa

Só porque estou

Com medo

Trad.: Nelson Santander

Allowables

I killed a spider
Not a murderous brown recluse
Nor even a black widow
And if the truth were told this
Was only a small
Sort of papery spider
Who should have run
When I picked up the book
But she didn’t
And she scared me
And I smashed her

I don’t think
I’m allowed

To kill something

Because I am

Frightened

Rudy Francisco – Compaixão

Ela me pede para matar a aranha.
Em vez disso, empunho as armas
mais pacíficas que consigo encontrar.

Eu pego um guardanapo e uma xícara.
Capturo a aranha, coloco-a para fora
e deixo-a ir embora.

Se alguma vez eu for apanhado no lugar errado
na hora errada, apenas por estar vivo
e não incomodar ninguém,

Espero ser acolhido
com o mesmo tipo
de compaixão.

Trad.: Nelson Santander

Mercy

She asks me to kill the spider.
Instead, I get the most
peaceful weapons I can find.

I take a cup and a napkin.
I catch the spider, put it outside
and allow it to walk away.

If I am ever caught in the wrong place
at the wrong time, just being alive
and not bothering anyone,

I hope I am greeted
with the same kind
of mercy.

Linda Pastan – A filha

Triste por saber que Linda Pastan – uma das minhas poetas norteamericanas favoritas – nos deixou. Ela deixa um legado imensurável à literatura americana, tendo sido uma das mais importantes e influentes poetisas de sua geração.

Com sua escrita lírica e intensa, Linda Pastan capturou a essência da vida cotidiana e da alma humana, explorando temas como amor, perda, solidão e significado da vida. Suas obras são elogios à simplicidade e à beleza da vida. Vai fazer uma falta enorme.

A filha

Gostaria de ter tido outra chance
com o meu pai, desempenhado
um papel diferente
no drama da minha infância.

Perguntas sem respostas assombram,
mas perguntas nunca feitas apodrecem.
Sua cidade se desenrola em preto e branco granulados:
trote de um cavalo de leiteiro,

aquele cortiço fede, tem fome.
Como foi para ele, uma criança, nadar
em uma nova e estranha língua, tentando não se afogar?
Foi isso que produziu seus silêncios,

suas raivas? Mas o que produziu minhas lágrimas
a portas fechadas, minhas malcriações,
minhas rejeições? Eu vivia uma vida simples,
embora a vida para mim parecesse maçante, não simples.

Velhas mágoas se manifestam
em sonhos acordados ou adormecidos.
Hamlet tinha seu fantasma. Eu tenho apenas
um túmulo silencioso, muito distante para visitar.

Trad.: Nelson Santander

The Daughter

I wish I had another chance
with my father, had played
a different role
in the drama of my childhood.

Questions unanswered haunt,
but questions never asked fester.
His city unreels in grainy black and white:
clop of a milkman’s horse,

that tenement reek, hunger.
What was it like for him, a child, swimming
in a strange new language, trying not to drown?
Did that produce his silences,

his angers? But what produced my tears
behind closed doors, my rudeness,
my refusals? I lived a simpler life,
though life to me seemed dull, not simple.

Old sorrows play out
in waking or sleeping dreams.
Hamlet had his ghost. I only have
a silent grave, too far away to visit.

César Cantoni – Álbum de Família

Morreu meu pai, morreram meus avós,
morreram meus tios de sangue e por afinidade.
Uma família inteira de ferreiros,
marceneiros, curtidores, pedreiros,
jaz agora sem forças embaixo da terra.

E eu, o mais inútil de todos,
o que não sabe fazer nada com as mãos,
logrei sobreviver impunemente
para chorar diante de uma foto
o melhor do meu sangue.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 06/02/2018

César Cantoni – Album de Familia

Murió mi padre, murieron mis abuelos,
murieron mis tíos carnales y políticos.
Una familia entera de herreros,
ebanistas, curtidores, albañiles,
yace ahora sin fuerzas bajo tierra.

Y yo, el más inútil de todos,
el que no sabe hacer nada con las manos,
he logrado sobrevivir impunemente
para llorar delante de una foto
lo mejor de mi sangre.

Pat Schneider – A paciência das coisas comuns

É um tipo de amor, não acha?
Como a caneca retém o chá,
Como a cadeira se mantém robusta e sólida,
Como o chão recebe a sola dos sapatos
Ou os dedos. Como as solas dos pés sabem
Onde devem estar.
Eu tenho pensado na paciência
Das coisas comuns, em como as roupas
Esperam respeitosamente nos guarda-roupas
E o sabão seca discretamente no prato,
E as toalhas sorvem a umidade
da pele das costas.
E na adorável repetição dos degraus.
E o que é mais generoso do que uma janela?

Trad.: Nelson Santander

The Patience of Ordinary Things

It is a kind of love, is it not?
How the cup holds the tea,
How the chair stands sturdy and foursquare,
How the floor receives the bottoms of shoes
Or toes. How soles of feet know
Where they’re supposed to be.
I’ve been thinking about the patience
Of ordinary things, how clothes
Wait respectfully in closets
And soap dries quietly in the dish,
And towels drink the wet
From the skin of the back.
And the lovely repetition of stairs.
And what is more generous than a window?

César Cantoni – O mais digno em nós

Eu sempre achei que os ossos, com seu brilho mineral
de pedra polida pela chuva, são o que de mais digno há em nós:
sobrevivem longamente à putrefação indecorosa da carne
e não têm a malícia nem a maldade da alma.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 26/01/2018

César Cantoni – Lo más digno de nosotros

Siempre pensé que los huesos, con su destello mineral
de piedra pulida por la lluvia, son lo más digno de nosotros:
sobreviven largamente a la putrefacción indecorosa de la carne
y no tienen la astucia ni la maldad del alma.

Ruth Lepson – No dia da audiência do nosso divórcio

No dia da audiência do nosso divórcio

você me convidou para almoçar em uma cantina.
Nunca tínhamos sido tão gentis um com o outro.
Quando você disse que eu ainda era uma desleixada, nós rimos.
Depois do almoço, ficamos no estacionamento.
Você disse: você tem a última palavra,
mas eu respondi, Não, estou cansada de ser
aquela que resume tudo.
Você tem a última palavra.

Mas você não conseguiu pensar em nenhuma.
Então você se encaminhou para o nosso carro prateado,
e eu para o vermelho.
Já se passaram três anos.
E mesmo isso é só uma história agora.
Ultimamente, não sinto mais como se vivesse com você.
Mas eu me lembro de nossa amabilidade naquele dia,
quando já não importava mais.

Trad.: Nelson Santander

The Day Of Our Divorce Hearing

you treated me to lunch, a spaghetti place.
We had never been so kind to each other.
When you said I’m still a slob, we laughed.
After lunch, we stood in the parking lot.
You said, you have the last word,
but I said, No, I’m tired of being
the one who sums things up.
You get the last word.

But you couldn’t think of one.
So off you went to our silver car,
I to our red one.
It’s three years later.
And even that’s just a story now.
Lately I don’t feel as if I lived with you.
But I remember our kindness that day,
when it no longer mattered.

Mario Benedetti – Angelus

Quem imaginaria que este seria o destino?

Vejo a chuva através de letras invertidas
Uma parede com manchas que parecem dignitários
Os tetos dos ônibus brilhantes como peixes
E essa melancolia que impregna as buzinas

Aqui não há céu,
Aqui não há horizonte.

Há uma mesa grande para todos os braços
E uma cadeira que gira quando quero fugir.
Outro dia que se vai e a isto ele estava destinado.

É raro ter tempo para sentir-se triste:
Há sempre uma encomenda, um telefonema, uma campanhia tocando
E claro, é proibido chorar sobre os livros
Porque não pega bem manchar a tinta.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 24/01/2018

Mario Benedetti – Angelus

Quién me iba a decir que el destino era esto

Ver la lluvia a través de letras invertidas,
Un paredón con manchas que parecen prohombres,
El techo de los ómnibus brillantes como peces
Y esa melancolía que impregna las bocinas.

Aquí no hay cielo,
Aquí no hay horizonte.

Hay una mesa grande para todos los brazos
Y una silla que gira cuando quiero escaparme.
Otro día se acaba y el destino era esto.

Es raro que uno tenga tiempo de verse triste:
Siempre suena una orden, un teléfono, un timbre,
Y claro, está prohibido llorar sobre los libros
Porque no queda bien que la tinta se corra.

Kwame Opoku-Duku – Eles irão lhe perguntar onde dói mais

Bendita seja a amargura
em sua essência, aquela luz calma
que fica cada vez mais calma,
como o murmúrio abafado que escapa
de seus lábios enquanto você dorme.
Eles irão lhe perguntar, criança,
o que você sabe sobre o sofrimento.
Eles irão lhe perguntar onde dói
mais quando a dor se transforma,
como o comprimento de onda da luz
no céu noturno, quando os gritos
de seus ancestrais ressoam para você
do oceano, e quando suas palavras
vibram em seu diafragma
como um apático enxame sem rainha.
Você pode, criança, sentir-se
para sempre de uma certa maneira, mas
deve levantar-se todas as manhãs e ver
o sol nascer do oceano.
Lembre-se de amar a sua amada,
lembre-se da bondade e
e retidão do vermelho intenso
contra a sua pele, da cor do oceano
em suas unhas dos pés. Lembre-se dos ancestrais
que louvaram os deuses ao avistarem a terra.
Um dia, criança, você se juntará
a eles, em uma praia de Accra,
onde ofertará libações
por aqueles que ainda não chegaram.
Até lá, fique com seus braços
levantados para o céu. E embora
os cupins possam devora-lo por dentro,
ore para se transformar em uma árvore sábia e velha,
pela dignidade de venerar apenas
o sol e as chuvas. Ore para se tornar
um jardim, para saber distinguir o que nos nutre
daquilo que nos mantém vivos.

Trad.: Nelson Santander

They’ll Ask You Where It Hurts the Most

Blessed be the bitterness
at your core, that quiet light
growing quieter still,
like the dull moan that escapes
your lips while you dream.
They’ll ask you, child,
what you know of suffering.
They’ll ask you where it hurts
the most, when the pain changes
like wavelengths of light
in the evening sky, when the cries
of the ancestors ring out to you
from the ocean, when their words
vibrate in your diaphragm
like a listless, queenless hive.
You may forever, child,
feel a type of way, but you
must get up every morning and watch
the sun rise from the ocean.
Remember to love your lover,
remember the goodness
and righteousness of deep red
against her skin, the color of the ocean
on her toenails. Remember the ancestors
who praised the gods at the sight of land.
One day, child, you will join
them, on a beach in Accra,
where you will pour out libations
for those who have yet to come.
Until then, stand with your arms
stretched toward the sky. And though
termites may eat you from within,
pray to grow into a wise, old tree,
for the dignity to praise alone
the sun and rains. Pray to become
a garden, to distinguish what nourishes
us from what is keeping us alive.