Patricia Hampl – É assim que a memória funciona

Você está desembarcando de um trem.Uma noite úmida e vazia, o cheiro de cinzas.Uma rajada de vapor vinda da locomotiva rodopiaao redor da bainha do seu sobretudo, ao redorda mão que segura a valise de couro marrom,a mão que, há pouco, penteou para tráso cabelo e em seguida ajeitou o fedoradefronte a um espelho com … Continue lendo Patricia Hampl – É assim que a memória funciona

Howard Nemerov – Figuras de pensamento

Colocar a espiral logarítmica naConcha e no papel, e vê-las se encaixar,Observar a mesma ideia funcionarNa subida do piloto de caça, ajustando a mira Em seu alvo, preparando a matança,E no voo de certos insetos estrábicosQue não conseguem ver que voam para a morteMas têm que lançar nela seu olhar de esguelhaE dirigir-se, mas girando, … Continue lendo Howard Nemerov – Figuras de pensamento

Javier Salvago – Nada, nada importa

Se os anos ensinam alguma coisaé a pouca importânciaque tudo tem.Tudo,cedo ou tarde, passa.O amor, que vaicomo veio. A vagajuventude, com seus sonhos,suas grandes esperanças.Dias de vinho e de rosas,tempos de abundânciado coração. O brilho.A beleza. A vontadede levar a vidaadiante. As presunçosasilusões— estrelasque subitamente se apagame nos deixam em umanoite escura da alma —.A … Continue lendo Javier Salvago – Nada, nada importa

Joan Margarit – Noturno em Solivella

Vens da visita que fizeste ao vinhedo, à noite.Detiveste o trator entre as cercas de arameonde se embalam, verdes e densas, as videiras,e escutaste a terra à tua volta.O restaurante te dá dinheiro,mas de madrugada, com ele já fechado,fazendo um café para ti no balcão,pensas o quanto gostas de, à noite, visitarsozinho os arames do … Continue lendo Joan Margarit – Noturno em Solivella

William Blake – A mosca

Pequena Mosca, Teus jogos de estio Minha irrefletida Mão os destruiu. Pois como tu, Mosca não sou eu? E não és tu Homem como eu? Eu canto e danço e Bebo, até que vem Mão cega arrancar-me As asas também. Se é o pensamento Vida, sopro forte, E a ausência do Pensamento morte, Então eu … Continue lendo William Blake – A mosca

Antonio Carlos Secchin – [Não, não era ainda a era da passagem]

Não, não era ainda a era da passagem do nada ao nada, e do nada ao seu restante.  Viver era tanger o instante, era linguagem de se inventar o visível, e era bastante. Falar é tatear o nome do que se afasta. Além da terra, há só o sonho de perdê-la. Além do céu, o mesmo céu, que se alastra num … Continue lendo Antonio Carlos Secchin – [Não, não era ainda a era da passagem]

Linda Pastan – Chove sobre a casa de Anne Frank

Chove sobre a casade Anne Franke sobre os turistasamontoados sob a sombrade seus guarda-chuvas,sobre os perfeitamente silenciososturistas que prefeririam estarem outro lugarmas que aqui esperam em escadastão íngremes pelas quais eles devem subirpara alguma ocasiãono alto do sótão vazio,no banheiro pitoresco,no esqueletode uma cozinhaou no mapa —cada uma de suas setasuma farpa de arame —com … Continue lendo Linda Pastan – Chove sobre a casa de Anne Frank

Robert Morgan – Outono branco

Ela sempre gostou de ler, inclusivena infância, durante a Guerra da Secessão,e depois desenvolveu o hábito de ficar acordadajunto ao lampião perto da lareira depois que,concluída a faxina, o marido e os filhos iam dormir.Ela alimentou o vício nos anos durosda Reconstrução e mesmo depois queo seu marido morreu e ela foi forçada a prover … Continue lendo Robert Morgan – Outono branco

Mary Oliver – Quando estou entre as árvores

Quando estou entre as árvores,especialmente entre os salgueiros e os espinheiros-da-virgínia,mas também entre as faias, os carvalhos e os pinheiros,elas emitem tantos sinais de alegria.Eu quase diria que elas me salvam, e diariamente.Estou tão distante de minhas expectativas sobre mim mesma,nas quais eu reúno bondade, e discernimento,e nunca me apresso no mundo,mas caminho lentamente, e … Continue lendo Mary Oliver – Quando estou entre as árvores

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Formas migratórias

Formas Migratórias para Katia Alemann Aprendemos a amar a conta-gotasessas pequenas pausas de que se vesteo temporal para inundar a solidãodo lado de fora, o ramo entre violeta e ocre das tardes, o murmúriosemântico do céu. Nesta ordem,temos esmaecido a distância,a longitude sem proporção, as linhasque se relacionam com as coisas. Curtaslacunas de ar, esses … Continue lendo Jorge Valdés Díaz-Vélez – Formas migratórias