Eugénio de Andrade – O Sorriso

Creio que foi o sorriso, o sorriso foi quem abriu a porta. Era um sorriso com muita luz lá dentro, apetecia entrar nele, tirar a roupa, ficar nu dentro daquele sorriso. Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

Carlos Drummond de Andrade – Os Gregorianos

Um amigo que tem consciência exacerbada do tempo confia-me que, depois de certo ponto (ele não usa a palavra idade), a vida já não oferece acontecimentos, e sim comemorações. — Por mais que o sujeito faça, não consegue realmente mover-se. Fica parado diante de formas movediças, como naquele romance do Zé Lins do Rego, que … Continue lendo Carlos Drummond de Andrade – Os Gregorianos

Philip Larkin – Conversar na Cama

Conversar na cama devia ser mais fácil Dois deitados juntos — é desde há muito Um símbolo de duas pessoas sendo francas. Ainda que mais e mais tempo passe em silêncio. Lá fora, a intérmina inquietação do vento Amontoa e dispersa nuvens pelo céu. E cidades escuras se empilham no horizonte. Nada disso se importa … Continue lendo Philip Larkin – Conversar na Cama

Philip Larkin – Os Velhos Tolos

Que pensam eles que aconteceu, os velhos tolos, Para os pôr assim? Porventura supõem Que é mais crescido terem a boca aberta e a babar-se E mijarem-se a toda a hora e não se recordarem De quem os visitou hoje de manhã? Ou que é só quererem E volta tudo a ser como quando dançaram … Continue lendo Philip Larkin – Os Velhos Tolos

Philip Larkin – A Igreja Indo-se…

Quando estou certo de que nada está ocorrendo, Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta. Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dos Livrinhos; as juncadas secas, que se cortam Para o domingo; bronze e objetos a cobrir o Altar; um órgão impecável e pequeno; Silêncio tenso, de bolor, que … Continue lendo Philip Larkin – A Igreja Indo-se…

Jorge Luis Borges – Bloomsday

Num só dia do homem estão os dias do tempo, desde aquele inconcebível dia inicial do tempo, em que um terrível Deus prefixou os dias e agonias até o outro em que o rio ubíquo do tempo secular torne à nascente, que é o Eterno, e se apague no presente, no futuro, no ontem, no … Continue lendo Jorge Luis Borges – Bloomsday

T. S. Eliot – Os Homens Ocos

     "A penny for the Old Guy"      (Um pêni para o Velho Guy) I Nós somos os homens ocos Os homens empalhados Uns nos outros amparados O elmo cheio de nada. Ai de nós! Nossas vozes dessecadas, Quando juntos sussurramos, São quietas e inexpressas Como o vento na relva seca Ou pés de ratos sobre cacos … Continue lendo T. S. Eliot – Os Homens Ocos

Álvaro de Campos – Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado … Continue lendo Álvaro de Campos – Poema em Linha Reta