Stephen Dunn – O não dito

Uma noite, ambos precisaram de coisas diferentes
do mesmo tipo; ela, de consolo; ele, ser consolado.
Assim, depois de um jantar regado a vinho,
quando eles chegaram em casa separados
no mesmo carro, cada um já havia falhado com
o outro com o que parecia
um insuportável atraso do que sentiam lhes ser devido.
Consolo significava para ela ser compreendida
tão bem que você o daria antes mesmo que ela pedisse.
Para ele, consolação era uma rede
de compromissos: diga o que quiser
desde que aceite o que eu quero dizer.
No quarto, eles se despiram e se vestiram
e foram para a cama. O silêncio é o que preenche
um túnel depois que uma locomotiva o atravessa.
Dias depois, o mais carente finalmente falou.
“O que tem na TV hoje à noite?” disse ele desta vez,
e ela respondeu, e eles estavam bem novamente.
Cada um, para sempre, se lembraria do fracasso
em dar consolo, do fracasso em ser consolado.
E muitas, muitas noites futuras
os surpreenderiam virando-se para seus respectivos lados
da cama, terrivelmente despertos e torcendo
as cobertas, ou, com a mesma probabilidade, se aproximando
e dormindo esquecidos a noite toda.

Trad.: Nelson Santander

The Unsaid

One night they both needed different things
of a similar kind; she, solace; he, to be consoled.
So after a wine-deepened dinner
when they arrived at their house separately
in the same car, each already had been failing
the other with what seemed
an unbearable delay of what felt due.
What solace meant to her was being understood
so well you’d give it to her before she asked.
To him, consolation was a network
of agreements: say what you will
as long as you acknowledge what I mean.
In the bedroom they undressed and dressed
and got into bed. The silence was what fills
a tunnel after a locomotive passes through.
Days later the one most needy finally spoke.
“What’s on TV tonight?” he said this time,
and she answered, and they were okay again.
Each, forever, would remember the failure
to give solace, the failure to be consoled.
And many, many future nights
would find them turning to their respective sides
of the bed, terribly awake and twisting up
the covers, or, just as likely, moving closer
and sleeping forgetfully the night long.

Stephen Dunn – Felicidade

Felicidade

Um estado em que não se deve ousar entrar
com a esperança de lá permanecer,
areia movediça nos pântanos, e todos

os caminhos que conduzem
a um castelo que não existe.
Mas lá está ele, como prometido,

com sua ponte perfeita sobre
os crocodilos,
e suas portas perpetuamente abertas.

Trad.: Nelson Santander

Happiness

A state you must dare not enter
with hopes of staying,
quicksand in the marshes, and all

the roads leading to a castle
that doesn’t exist.
But there it is, as promised,

with its perfect bridge above
the crocodiles,
and its doors forever open.