Antonia Pozzi – Erros

Cai graciosamente a neve
sobre os cestos das floristas: embranquece
os junquilhos e as violetas,
as delicadas frésias vindas
dos países do sol.
Ao vê-las pensamos
nos muitos destinos errados
que sofrem
pelos caminhos da terra
e um furor nostálgico investe
pelos caminhos de ouro da alma
aonde não chega a neve.

Trad.: Inês Dias

Errori

Fiocca la neve leggiadramente
sui cesti delle fioraie: imbianca
le giunchiglie e le viole,
le fresie magre, venute
dai paesi del sole.
A guardarle si pensa
dei tanti destini errati
che dolgono
per le vie della terra
ed un furore nostalgico serra
per le vie d’oro dell’anima
a cui neve non giunge.

Milano, 2 marzo 1932

Antonia Pozzi – Morte de uma estação

Choveu toda a noite
sobre as memórias do verão.

Ao anoitecer saímos
no meio de um ribombar lúgubre de pedras
e, parados na margem, levantamos as lanternas
para explorar o perigo das pontes.

Ao amanhecer vimos as pálidas andorinhas
ensopadas e pousadas sobre os fios
à espreita de indícios secretos de partida –

e refletiam-nas na terra
as fontes com os rostos desfeitos.

Trad.: Inês Dias

Morte di una stagione

Piovve tutta la notte
sulle memorie dell’estate.

Al buio uscimmo
entro un tuonare lugubre di pietre,
fermi sull’argine reggemmo lanterne
a esplorare il pericolo dei ponti.

All’alba pallidi vedemmo le rondini
sui fili fradice immote
spiare cenni arcani di partenza –

e le specchiavano sulla terra
le fontane dai volti disfatti.

Pasturo, 20 settembre 1937

Jorge Valdés Díaz-Vélez – Dia dos Mortos

I

Novembro. Dia dos Mortos. Montamos
o nosso altar de papel. O deste ano
decora-se com mais fotografias
do panteão familiar que povoamos
com paciência, sem pausas. Sem chorarmos,
entre os círios e as flores das
tagetes, colocamos as caveiras,
onde cintila o açúcar dos nomes.
Há uma – sorridente – com o meu.

II

Dar a essa luz a sombra que falta,
e à sombra a música, as vozes
rituais do silêncio, e ao silêncio
a Árvore da vida e dos anos
e apagar outra vela até ardermos
de escuridão. Vamos pedir que nasça
já ferida de morte a manhã
para nunca esquecer que partiremos.

Trad.: Inês Dias

Amalia Bautista – A pesagem do coração

Que ninguém por tua culpa tenha passado fome,
tenha sentido medo ou frio.
Que ninguém tenha deixado de viver por tua culpa,
nem temido a morte, nem desejado morrer.
Que nenhuma pessoa tenha dito o teu nome com pavor
ou olhado o teu rosto com desprezo.
Que os outros te chorem quando partires.
Assim o teu coração não terá guardado o chumbo
que pesa nas mudanças.
Assim o teu coração será mais leve
que a mais leve pluma.

Trad.: Inês Dias

 

El pesaje del corazón

Que nadie por tu culpa haya pasado hambre,
haya sentido miedo o frío.
Que nadie haya dejado de vivir por tu culpa,
ni temido la muerte, ni deseado morir.
Que ninguno haya dicho tu nombre con espanto
o mirado tu rostro con desprecio.
Que los demás te lloren cuando partas.
Así tu corazón no habrá albergado el plomo
que lastra las mudanzas.
Así tu corazón será más leve
que la más leve pluma.

Inês Dias – Um estranho no meu túmulo

Chegamos tarde a nós.
Eu tinha a pele gasta, o coração no fio.
Tu eras um longo muro de cimento areado
em que deixava a carne inteira
a caminho do encontro.

A primavera ficava-nos sempre
à esquerda e tu cada vez mais
dentro de mim até não sentir nada,
até estares já do outro lado.
Para trás, a cova matinal na almofada,
o postal entre a leitura suspensa,
o número a chamar de um fantasma.

Se apagar as marcas de onde pousaste
a cabeça sobre a minha vida,
se ganhar novo espaço para o fôlego,
faz-me só um favor:
nunca mais me reconheças.

Amalia Bautista – Noite de São João

Que queimaremos esta noite, quantas
velhas feridas daremos nós às chamas,
de que nos livraremos para não o recordar
nem sequer dos piores pesadelos diurnos?
Que lançaremos nós ao fogo ou em que fogueiras
limparemos a vida para nos renovarmos,
para o tempo que reste, para o que consigamos
roubar a tantas mortes?
Chega a noite de São João, continuamos
vivos e juntos apesar de tudo.
Cada vez resta menos por queimar.
Todo o fogo se esconde no nosso abraço.

Trad.: Inês Dias

Amalia Bautista – Noche de San Juan

¿Qué quemaremos esta noche, cuánta
vieja herida daremos a las llamas,
de qué nos libraremos para no recordarlo
ni en las peores pesadillas diurnas?
¿Qué echaremos al fuego o en qué hogueras
limpariemos la vida para entregarnos nuevos,
para el tiempo que quede, para el que consigamos
robarle a tantas muertes?
Llega la noche de San Juan, seguimos
vivos y juntos a pesar de todo.
Cada vez queda menos por quemar.
Todo el fuego se esconde en nuestro abrazo.

Amalia Bautista – Nu de Mulher

Para ti nunca passei de um bloco
de mármore. Esculpiste nele o meu corpo,
um corpo de mulher branco e formoso,
em que não viste nada a não ser pedra
e o orgulho, isso sim, do teu trabalho.
Nunca imaginaste que eu te amava
e que tremia quando, docemente,
me modelavas os seios e os ombros,
ou alisavas as coxas e o ventre.
Hoje, estou num jardim, onde suporto
os rigores do frio pelo Inverno,
e no Verão aqueço de tal modo
que nem sequer os pardalitos vêm
pousar nas minhas mãos pois estas queimam.
Mas, de tudo isto, o que mais me dói
é baixar a cabeça e ver a placa:
”Nu de mulher”, como há tantas outras.
Nem te lembraste de me dar um nome.

Trad.: Inês Dias

Luz del medio día

Amalia Bautista – Desnudo de Mujer

Para ti nunca fui más que un pedazo
de mármol. Esculpiste en él mi cuerpo,
un cuerpo de mujer blanco y hermoso,
en el que nunca viste más que piedra
y el orgullo, eso sí, de tu trabajo.
Jamás imaginaste que te amaba
y que me estremecía cuando, dulce,
moldeabas mis senos y mis hombros,
o alisabas mis muslos y mi vientre.
Hoy estoy en un parque, donde sufro
los rigores del frío en el invierno,
y en verano me abraso de tal modo
que ni siquiera los gorriones vienen
a posarse en mis manos porque queman.
Pero, de todo, lo que más me duele
es bajar la cabeza y ver la placa:
«Desnudo de mujer», como otras muchas.
Ni de ponerme un nombre te acordaste.

Inês Dias – (Primeira Memória)

No ano da morte da última
beguina, que nunca precisara do
desassossego de ver,
chegou finalmente à Terra
a primeira luz do mundo.

380 mil anos até comprovarmos,
como a História nunca se cansara,
aliás, de repetir, que tudo
é trevas, instável equilíbrio
entre matéria e energia escuras.

Em suma,
a humanidade devolvida
num saco negro,
com alguns buracos
para os ossos respirarem.

John Mateer – s/ título

Este poema vai ser escrito com um livro de fotografias
em mente, comemorando esse retrato da jovem
estudante de história de arte que se tornaria a mulher
do fotógrafo, a mãe do seu filho, ela que se atiraria
de uma janela do apartamento deles, e que, por
ter existido, proliferaria,
como tudo o que pode ser pronunciado pelo Não-Dito.

Trad.: Inês Dias

in: https://www.facebook.com/oennui/photos/a.286037448227019/1060660157431407/?type=3&theater

Antonia Pozzi – Desalento

Tristeza destas minhas mãos
demasiado pesadas
para não abrirem feridas,
demasiado leves
para deixarem marca –

tristeza desta minha boca
que diz as mesmas
palavras que tu
– significando outras coisas –
e esta é a expressão
da mais desesperada
distância.

Trad.: Inês Dias

Sfiducia

Tristezza di queste mie mani
troppo pesanti
per non aprire piaghe,
troppo leggere
per lasciare un’impronta –

tristezza di questa mia bocca
che dice le stesse
parole tue
– altre cose intendendo –
e questo è il modo
della più disperata
lontananza.